“Meninas, temos espaço!”: pesquisadora da USP conquista bolsa rara para estudar no Reino Unido

Egressa do curso de Engenharia de Computação da USP em São Carlos foi agraciada com bolsa que seleciona apenas candidatos com alta performance acadêmica

 24/04/2025 - Publicado há 1 ano
Fachada de prédio monumental de cinco andares. O prédio tem janelas compridas, paredes adornadas com frisos e cornijas e um grande terraço no nível do quarto pavimento. Duas estátuas guardam as laterais da entrada em arco. Carros estão estacionados na frente do prédio.
O Imperial College está entre as 10 melhores universidades do mundo – Foto: Divulgação CeMEAI creditada à Thomas Angus/Imperial College

 

Egressa do curso de Engenharia de Computação do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da USP, em São Carlos, Alice Valença De Lorenci foi agraciada com bolsa de uma universidade britânica que está entre as dez melhores do mundo. Alice integrará o time de fellows do President’s PhD Scholarship do Imperial College, no Reino Unido. Esse programa de bolsas de doutorado tem requisitos mais rígidos do que de costume e seleciona os 50 melhores estudantes de universidades de todo o planeta para desenvolver pesquisas de ponta. Na área de matemática, apenas três vagas são disponibilizadas.

“Desde o ensino fundamental tive uma afinidade natural pela matemática e, com o apoio dos meus pais e o claro sonho de seguir a carreira acadêmica, ingressei no curso de Engenharia de Computação do ICMC, onde descobri minha vocação na pesquisa em matemática”, conta Alice. No Imperial College, ela estudará sistemas complexos — estruturas com múltiplos componentes interconectados, como redes neurais ou sociais. Essa área de pesquisa busca prever o comportamento desses sistemas e inferir seus modelos de funcionamento a partir de dados.

Mulher sorridente exibe envelopes com documentos do CREA-SP. Ela tem cabelos longos lisos e veste um vestido tipo frente única estampado. Está em uma praça decorada com gramado e arcos quadrados pintados de vermelho.
Alice é orientanda do pesquisador Tiago Pereira, do CeMEAI, tendo uma das melhores performances acadêmicas de seu curso – Foto: Arquivo pessoal

Desde o ingresso na USP, Alice participou de grupos de estudo e aprofundamento matemático. Na época, o professor Hildebrando Munhoz Rodrigues, falecido em 2023, reconheceu o talento da estudante e a apresentou para uma orientação precoce com Tiago Pereira. Docente do ICMC e integrante do Centro de Ciências Matemáticas Aplicadas à Indústria (CeMEAI), Pereira recorda os primeiros passos de sua orientanda na Universidade.

“Quando a Alice chegou no primeiro ano, o professor Hildebrando me avisou: ‘Tem uma menina aqui que é simplesmente fora da curva’. E ele não errou”, orgulha-se o orientador.

Por seu desempenho acadêmico, Alice realizou uma dupla diplomação na França, estudando aplicações matemáticas para o aprendizado de máquina no Instituto Politécnico de Paris. A experiência internacional ampliou seus horizontes, mas também reforçou o desejo de explorar a matemática em sua essência. Ao retornar ao Brasil, Alice retomou a colaboração com o grupo de Pereira e decidiu seguir para o doutorado.

Homem branco com cabelo curto, encaracolado. Ele veste uma camisa listrada e está em frente a uma janela. Ao fundo, a copa de uma árvore está desfocada.
Tiago Pereira é pesquisador da área de Mecânica dos Fluidos Computacional no CeMEAI – Foto: CeMEAI

O professor explica que a President’s PhD Scholarship possui um rigoroso processo seletivo, analisando domínio técnico, capacidade de inovação e potencial para liderar uma geração. “Essa bolsa é como um Nobel para jovens pesquisadores”, destaca Tiago Pereira.

Mulheres nas carreiras STEM

A conquista de Alice é também uma boa notícia quando se observa o panorama da ciência pelas lentes do gênero. Segundo um relatório da Elsevier publicado em 2024, a participação global de mulheres na pesquisa científica cresceu nas últimas duas décadas, atingindo a “zona de paridade” pela primeira vez em 2022. O relatório considera como zona de paridade uma fatia de participação situada entre os 40% e os 60% do total de produções científicas registradas na base de dados Scopus.

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Para os países ibero-americanos, dados da Rede Iberoamericana de Indicadores de Educação Superior (Red IndicES) indicam um cenário de relativa paridade de gênero na proporção de pessoal empregado no ensino superior que assumem tarefas de docência, pesquisa, desenvolvimento tecnológico e extensão como principal responsabilidade. As mulheres chegam a ser maioria do pessoal acadêmico empregado na Argentina, em Cuba, no México, no Panamá, no Uruguai e no território de Porto Rico.

Mas apesar dos avanços globais e regionais, a sub-representação das mulheres nas carreiras STEM (ciência, tecnologia, engenharia e matemática, na sigla em inglês) continua sendo um problema persistente. Segundo o relatório da Elsevier, nas carreiras STEM as mulheres ainda representam 39% do total de pesquisadores ativos no mundo, abaixo da zona de paridade.

Reconhecendo esse cenário, Alice dedica uma mensagem para jovens mulheres que desejam seguir carreira nas ciências exatas: “Somos minoria, mas cada uma de nós conta. Espero que nossa trajetória mostre que há espaço e que é possível. Para as meninas que sonham com a matemática: seu lugar é aqui, e ele começa quando você acredita que merece estar”.

Com informações do CeMEAI


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