USP SUSTENTÁVEL

Autoconstrução desordenada de periferias é impulsionada por desigualdade econômica

Segundo Fernando Gomes, idealmente, o acesso à cidade deveria ser amplo e acessibilizado para toda a população, mas o centro territorial continua “ideologicamente” cercado e inacessível

 25/03/2025 - Publicado há 1 ano
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Visão em plano geral e aérea de uma zona periférica, que aparece em primeiro plano na imagem, atrás da qual são vistos arranhas-céus,. marcando a desigualdade social.
Regiões periféricas, por falta de acesso e capacidade econômica, estão fadadas a um processo de autoconstrução constante – Foto: Dornicke / Wikimedia Commons / Domínio público
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O Estado de São Paulo, reconhecido como a principal metrópole do País, é habitado por 46 milhões de pessoas, segundo estatísticas do IBGE de 2024, o que representa 21,6% da população nacional. Extremamente industrializado, dados de 2023 mostram que a estimativa de emissões de gases de efeito estufa (GEE) do Estado foi de 14,5 milhões de toneladas, o que corresponde a 0,6% da emissão bruta, sendo o setor de transportes responsável por cerca de 60% dessas emissões.

Construída e projetada de maneira desordenada e acelerada, a construção de São Paulo marginalizou pessoas com baixo poder aquisitivo, que não poderiam considerar a compra de uma propriedade, às regiões distanciadas dos centros, às margens e periferias da região. Esse processo consolidou a intensa desigualdade social e econômica presente na maior metrópole do País, que, de maneira intensa, estende-se ao processo de construção de casas e produção de CO2.

Regiões periféricas, por falta de acesso e capacidade econômica, estão fadadas a um processo de autoconstrução constante. De maneira desordenada, os moradores ensinam-se técnicas para a construção de suas próprias casas, que, muitas vezes, não contam com a devida segurança e a técnica correta, acarretando em condições de moradia perigosas e desperdício de materiais. Segundo Fernando Gomes, pesquisador da equipe de Transferência e Difusão do Centro de Estudos da Metrópole (CEM), todo o processo é precário e, principalmente, autodidata.

“Normalmente feitas com madeira, com zinco. Depois de um tempo, essas construções vão se transformando em construções de alvenaria, as pessoas vão construindo estrutura de concreto armado, com tijolos para fazer as vedações, algumas vezes com várias lajes, onde dá para construir. (…) Sem respeitar o recuo, sem respeitar nada, porque ele começa de uma maneira informal, sem a documentação, sem a posse da terra, sem praticamente nenhuma infraestrutura, nem água, nem esgoto, nem luz, e então eles começam aquela construção para justamente poder viver e sobreviver.”

Rede de pesquisa

A Rede de Pesquisa More: Bem-Estar e Baixo Carbono nas Moradias trata-se de um projeto interdisciplinar – que envolve pesquisadores atuantes nas áreas das Engenharias, Arquitetura, Economia, Geografia e Medicina de diferentes Escolas da USP e demais universidades brasileiras, além de instituições como o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia. O grupo busca propor um método quantitativo para o cálculo da pegada de CO2 das construções dessas moradias, a influência delas no bem-estar das pessoas ​e mapear o processo de sua construção.

Segundo Gomes, através da coleta e análise dos dados adquiridos pela pesquisa, novas técnicas e aconselhamentos, visando à sustentabilidade e à economia de materiais, poderão ser repassadas para a população periférica estudada. “A proposta são aconselhamentos técnicos. Então, criar cursos, criar treinamentos, dar esse feedback de volta para a indústria de cimento, porque a indústria de cimento também tem um compromisso de reduzir as emissões de carbono. (…) Esse público de autoconstrução, que eles consigam implementar novas técnicas, novas e melhores técnicas construtivas, para consumir menos CO2 no processo de construção.”

O projeto coletará os dados através da medição e caracterização das moradias estudadas, além de realizar entrevistas com moradores e utilizar ferramentas como sensoriamento remoto para o estudo da área. Através desses métodos, uma análise sobre a quantidade de carbono incorporado na autoconstrução dessas casas e uma avaliação sobre a qualidade do ambiente, tal como temperatura, umidade, qualidade do ar e outras condições dessas moradias, serão elaboradas. Segundo a pesquisadora Rubiane Antunes, coordenadora técnica do projeto, o objetivo é “avaliar a qualidade do ambiente dessas moradias e entender o processo decisório dos atores da autoconstrução. Em paralelo, as moradias serão caracterizadas por meio de dados de mapas e imagens de satélite, a fim de se estabelecer uma correlação entre os dados coletados na comunidade e aqueles obtidos por meio da exploração de dados de sensoriamento remoto”.

O acesso à cidade, como um todo, é um direito de todo cidadão, independentemente de classe, cor ou gênero. Entretanto, em um Estado profundamente desigual, o centro territorial continua “ideologicamente” cercado e inacessível. Dessa forma, o projeto procura não apenas contribuir para o incentivo à sustentabilidade e desenvolvimento de políticas públicas em periferias, mas também ressaltar a urgência da acessibilização à região central da cidade, que, idealmente, deveria ser frequentada e próxima a todos. Pois, de acordo com Gomes, “o ideal sobre a política pública é que a cidade fosse compacta, que essas pessoas tivessem acesso a regiões centrais para morarem. Não adianta só pensarmos em moradia ou em política pública para fazer moradia popular, pois precisamos fazer moradia popular onde tem emprego, porque aí temos uma política pública de redução de consumo de carbono”.


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