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No dia 18 de junho de 2024, em uma visita ao British Museum of Art, em Londres, o artista brasileiro Ilê Sartuzi usou de uma técnica de mágica para furtar uma moeda do acervo e substituí-la por uma réplica. Na saída, depositou a moeda original na caixa de doações. A ação fez com que Sartuzi virasse manchete em grandes veículos, como The New York Times, The Guardian e Folha de S.Paulo, e levantou questionamentos sobre os motivos por trás daquele ato e sobre os riscos de segurança a que grandes museus estão sujeitos. Agora, em 2025, a história envolvendo a ideia e a execução do plano no British Museum of Art estão expostos em Truque, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP e com curadoria de Marcela Vieira. Desde 15 de março até 15 de junho, o visitante pode ter contato com uma videoinstalação e com alguns objetos e documentos que contam a história por trás do furto — e depois dele.
Muito além de um passe de mágica

A exposição no MAC pode parecer tímida, a princípio: uma câmera girando e transmitindo ao vivo as imagens para uma televisão instalada no mesmo cômodo, uma videoinstalação de poucos minutos mostrando como foi o furto e uma seção onde estão concentrados e-mails e estudos feitos pelo artista antes, durante e depois da ação no British Museum of Art. Mas, por mais que possa parecer, a subtração de um objeto em um dos maiores museus do mundo não aconteceu num passe de mágica. Em conversa ao Jornal da USP, Ilê Sartuzi revela que a ideia de roubar uma moeda e devolvê-la logo depois aconteceu cerca de um ano e meio antes, em sua primeira visita ao museu, em 20 de março de 2023. Na ocasião, ele foi à seção numismática (estudo histórico e econômico das moedas e medalhas) e viu um homem falando sobre as moedas enquanto as manuseava junto ao público. “Essa cena me lembrou mágicos de rua, fazendo o velho truque de ‘cups and balls‘, uma espécie de trickster (trapaceiro). Também me lembrou da pintura The Conjurer do [Hieronymus] Bosch (1450-1516). Foi a partir disso que imediatamente pensei que eu deveria fazer um truque de mágica e roubar uma moeda do British Museum”, conta.
A parte da exposição que é mostrada em Truque é Sleight of hand, nome em inglês para o efeito ilusionista de manipular um objeto de modo a fazê-lo desaparecer aos olhos dos outros. Na videoinstalação, o visitante tem a oportunidade de ver a primeira tentativa de Sartuzi — que deu errado — e de entender de forma explicada e por meio de esquemas sobre os segredos por traz do truque. Antes mesmo de o furto se concretizar, ainda em 2023, ele tinha escrito um texto, publicado na Revista Rosa, denominado Proposições para sistemas de segurança de museus, o qual trazia intervenções na estrutura de um museu, relacionando-as à sua segurança. “Na esteira dos trabalhos que animam objetos, essas obras tomam elementos recorrentes mas invisíveis de instituições culturais como foco: iluminação, sistemas de alarmes, interruptores, lasers e sensores e câmeras de segurança”, explica. Parte do que é proposto nesse texto está presente na primeira parte da exposição, que é posicionada exatamente como prevê o artista. O corpo Proposições para sistemas de segurança de museus acabou por ser a teoria, enquanto Truque foi a aplicação daquilo, na prática.

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A escolha pela moeda furtada — um shilling de 1645 cunhado em Newark, Inglaterra, durante a Guerra Civil Inglesa, quando a cidade estava sob cerco e protegendo o rei Carlos I — também não foi ao acaso. Visto que a maior parte do acervo do British Museum of Art tem origem fora da Inglaterra e que peças roubadas exibidas no museu não podem ser devolvidas (graças ao British Museum Act, de 1963), o artista quis dar palco à contestação da coleção no museu: “Essa moeda é uma das poucas coisas propriamente britânicas no Museu Britânico que estavam disponíveis ali. Para mim, o gesto não se tratava de uma tentativa de repatriação, quer dizer, trazer algo do Brasil de volta ao país (como é a tônica da discussão). Eu estava interessado, ao contrário, em algo que fosse inglês e espelhar o gesto, por mais tosco que fosse”.
Uma vez que o furto ocorreu e que a história correu o mundo, Ilê Sartuzi passou a ter de lidar com o risco constante de ser incriminado pelo British Museum. Quem visita Truque tem a possibilidade de ler a troca de e-mails completa entre o museu e o artista, na qual o próprio museu passa a duvidar sobre a veracidade da moeda devolvida. Atuando no limite da lei, Sartuzi não se arrepende de nada: “Desde o começo, isso [risco de penalização] foi uma questão. Eu estava disposto a ser deportado, virar persona non grata e nunca mais voltar para o Reino Unido, o trabalho era bom o suficiente para que eu achasse que isso era mais importante; mas eu não queria ir para a cadeia propriamente”. Ele conta, ainda, que teve acompanhamento jurídico ao longo de todo o processo de execução do truque, o que envolveu um estudo profundo da lei britânica e de suas brechas. “Acredito que esses dois corpos de trabalhos – Sleight of Hand e as Proposições – levantaram uma série de questões significativas, animaram um debate internacional sobre questões de valor, propriedade, a histórica violência das legislações e o seu papel na legitimação da pilhagem como ferramenta para fundação de ‘museus universais’ como a instituição em questão”, completa, satisfeito com o que conseguiu até agora em termos de fomento ao debate público.
A exposição Truque, do artista Ilê Sartuzi, está em cartaz até o dia 15 de junho de 2025, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP, que fica aberto de terça a domingo, das 10 às 21 horas, e está localizado na Avenida Pedro Álvares Cabral, 1301, Vila Mariana. Entrada gratuita.
* Estagiário sob supervisão de Roberto C. G. Castro





























