Quais são os principais desafios nas decisões de risco em saúde?

Aurea Maria Zöllner Ianni avalia que o estudo dos riscos na área da saúde pode ajudar a esclarecer a confusão de informações da contemporaneidade, especialmente após o advento das redes sociais 

 24/03/2025 - Publicado há 1 ano
Tendo os surtos mapeados de uma maneira mais acessível e compreensível, os gestores e tomadores de decisão podem concentrar campanhas ou reforçar hospitais a partir dessa ferramenta -Fotomontagem Jornal da USP feita com imagens de BlenderTimer/Pixabay e fernandozhiminaicela/Pixabay
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Em 11 de março de 2025, completaram-se cinco anos desde que a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou estado de pandemia de covid-19. A doença — que causou 715.610 mortes no Brasil até o dia 20 deste mês — foi cercada de dúvidas e desinformação, que perduram até a atualidade. 

Aurea Maria Zöllner Ianni, cientista social e professora da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP-USP), explica como o estudo dos riscos na área pode ajudar a esclarecer a confusão de informações da contemporaneidade, especialmente após o advento das redes sociais. 

Momento atual

Para a pesquisadora, a sociedade passa por um período de confusões teóricas e práticas: “Vivemos um contexto de incertezas fabricadas, ou seja, o poder do progresso e do desenvolvimento vem sendo crescentemente ofuscado pela produção de riscos”. 

Áurea Maria Zöllner Ianni – Foto: Cláudia Regina/IEA

Ela dá o exemplo dos agrotóxicos, que foram criados nos anos 1950 como uma estratégia em torno da agenda da fome. A prática busca aumentar a produção de alimentos e até a qualidade, mas se tornou uma ameaça à saúde das populações, dos animais e do meio ambiente. “É um fenômeno que porta uma certa incalculabilidade, imprevisibilidade dos riscos, em larga escala. […] Essa lógica vai criando uma certa cacofonia de entendimento sobre os riscos, uma espécie de uma sensação de confusão de sentidos”, explica.

A professora relembra o momento pandêmico, no qual as redes sociais contribuíram para a sensação de insegurança no período: “A questão da covid é um grande exemplo de cacofonia. Primeiro porque havia um desconhecimento sobre o vírus e o seu comportamento nas populações. Também havia um desconhecimento do desenvolvimento da pandemia”. Divergências científicas, epidemiológicas e infectológicas, por exemplo, fizeram parte do conhecimento que era produzido e apropriado pelas pessoas.

Evento na Faculdade de Saúde Pública

Aurea é uma das organizadoras do evento Saúde em Transformação: Desafios Sociais Contemporâneos e as Relações de Definição e Decisão de Risco. O encontro ocorrerá amanhã (25), no Auditório Paula Souza da Faculdade de Saúde Pública da USP, das 9h às 16h. Haverá transmissão pelo canal da FSP-USP no YouTube e as inscrições para as palestras, tanto presencialmente quanto on-line, podem ser feitas através deste link

A primeira mesa tratará sobre sofrimento psíquico e neurodivergência, com enfoque no apagamento da experiência dos pacientes e das controvérsias em relação aos diagnósticos e tratamentos. A segunda discussão problematizará os riscos autoproduzidos pelos processos de trabalho em saúde e na atenção primária, no caso do Sistema Único de Saúde (SUS). 

Também haverá um debate sobre tecnociência e progresso, no âmbito da construção social e decisões de risco. A última mesa trará a estratégia brasileira de inteligência artificial e de telemedicina, bem como as mudanças na relação médico-paciente e a plataformização ou dataficação das clínicas. 

A professora explica que a importância de eventos como o de amanhã se dá pela abertura à conversa sobre questões próximas ou afastadas do cotidiano da população. “Acho que a experiência da covid evidenciou esse processo, essa questão de cenário de incertezas e imprevisibilidade. Algo que cresce na saúde é a agenda da emergência sanitária”, finaliza.


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