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Qualidade do ar pode ser fator diferencial para a sobrevivência e o desenvolvimento de crianças

A inalação de poluentes está ligada ao mau desenvolvimento fetal, infecções respiratórias, alterações no sistema endócrino e distúrbios de atenção

 21/03/2025 - Publicado há 1 ano
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Imagem aérea de cidade ofuscada pela fumaça de poluição e um pôr do sol avermelhado
As consequências da exposição aos poluentes se iniciam antes do nascimento, uma vez que o desenvolvimento do feto é alterado – Foto: Joe / Pixabay
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Altíssimos níveis de poluição no ar colocam em risco a vida e o desenvolvimento de crianças ao redor do mundo. Mais de 100 mortes infantis relacionadas à qualidade do ar são registradas diariamente no Leste Asiático, divulgou o Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância). A situação preocupa as autoridades locais, como o governo de Bangkok, que fechou  mais de 350 escolas no início deste ano. Em novembro, milhões de estudantes foram instruídos a permanecer em casa na Índia e no Paquistão pela mesma razão. Essa é, hoje, a segunda maior causa de mortalidade infantil mundialmente. Atrás apenas da má nutrição, poluentes mataram 700.000 crianças em 2021.

Como os poluentes afetam a saúde das crianças?

O professor Paulo Saldiva, patologista e docente da Faculdade de Medicina da USP, aponta que as crianças são mais vulneráveis aos danos causados pela inalação de poluentes. Isso se dá por fatores como seu sistema imunológico ainda incompleto, a maior frequência de sua respiração e até mesmo sua baixa estatura. 

As consequências da exposição aos poluentes se iniciam antes do nascimento, uma vez que o desenvolvimento do feto é alterado: “Essa janela de desenvolvimento é muito importante. Crianças expostas à poluição têm uma chance maior de nascer prematuras e com baixo peso, porque a placenta não vai bem. É como se a mãe fumasse um pouco. E os elementos presentes no sangue, que entram pelo pulmão da mãe e se espalham por todo o corpo, atravessam a barreira placentária. Então, podem chegar em fases onde estruturas importantes como sistema nervoso, pulmonar e outros órgãos estão se formando”.

Paulo Saldiva – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Além disso, as partículas de poluição aumentam as chances de infecções respiratórias. Saldiva explica que os microrganismos causadores de patologias se integram à fuligem e, assim, têm sua entrada e adesão no sistema respiratório facilitadas. Ele relaciona, também, essa questão aos altos índices de contaminação por covid-19 em áreas com foco de poluição do ar. Essa questão é mais grave nas crianças, ele ressalta, a baixa estatura faz com que estejam mais próximas do escapamento de veículos e da poeira acumulada no chão. 

Nesse sentido, o fator econômico se torna mais um agravante: a baixa condição financeira de uma família faz com que seus membros passem mais tempo no trânsito, em deslocamentos, e, assim, sejam mais expostos a poluentes. “Cada hora de trânsito é como 0,6 cigarros fumados, mas sem a possibilidade de escolha. […] Por isso, eu digo que a questão ambiental é uma questão de direitos humanos”, comenta.

O sistema endócrino também sofre alterações em decorrência dos poluentes originados no processo de combustão de combustíveis fósseis: “Existem alguns compostos e metais, como cádmio, alguns hidrocarbonetos, que funcionam como estrógenos ambientais, disruptores do sistema endócrino. Então isso tem levado a uma puberdade precoce de meninas, cada vez mais as meninas entram em menstruação antes. E tem feito também uma redução da qualidade do sêmen”, explica Saldiva.

Ele acrescenta a possibilidade de conexão entre distúrbios de atenção e a inalação de partículas de poluição: “Isso vai para o nervo olfatório, para o bulbo olfatório, que fica embaixo do sistema límbico, na região hipotalâmica, na região de controle de emoções. Então, em crianças, existe uma associação de proximidade de avenidas, níveis de poluição e distúrbio de atenção”.

Pensando cidades mais saudáveis

Das 700.000 mortes infantis ligadas à poluição, 72% têm ligação com a baixa qualidade do ar dentro de casa, o que se dá pelo uso de combustíveis sólidos – como lenha e carvão – no trabalho doméstico. Esse é um costume principalmente em países do continente africano e asiático. A prática afeta também áreas de baixo desenvolvimento da América Latina e Caribe, contudo, na região, as taxas de poluição preocupantes se encontram no ambiente externo.

Thiago Nogueira – Foto: FSP

O professor Thiago Nogueira, da Faculdade de Saúde Pública da USP, comenta a respeito das principais causas da baixa qualidade do ar no Brasil. Ele menciona a fumaça originada em termelétricas, queimadas e indústrias, mas a poluição emitida por veículos tem um grande destaque no quesito geradores de material particulado: “São essas partículas de tamanho muito pequeno, 20, 50 vezes menor do que um fio de cabelo. Isso coloca em risco a saúde, exatamente porque, pelo fato dela ser pequena, a gente inala essa partícula, ela entra no nosso corpo e causa esses danos”, explica.

A respeito das políticas públicas necessárias para mitigar os danos, ele elabora sobre a necessidade da redução de emissões por veículos. O Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve) mostra resultados, mas não é suficiente: “Os veículos, de fato, cada vez mais emitem menos. Porém, por outro lado, o número de veículos vem aumentando muito, aumentou muito. Então, no fim, a gente acaba também tendo esse desbalanço. A qualidade do ar, ela não melhora tanto quanto o esperado exatamente porque também o número de veículos aumenta. A gente também precisa pensar mais do ponto de vista de políticas públicas de como diminuir essa circulação de veículos”.

Além disso, o professor fala da necessidade de uma maior política de monitoramento da qualidade do ar nacional, uma vez que a maior parte da população vive em áreas com maiores taxas de poluição do que o limite indicado pela OMS. Enquanto metrópoles como São Paulo ganham grande visibilidade em episódios extremos, como ocorreu durante as queimadas em setembro de 2024, outras regiões do País são negligenciadas enquanto sofrem com péssimos índices de poluição. 

Para a proteção específica de crianças, as medidas são direcionadas principalmente ao ambiente escolar. O pesquisador fala de medidas como a obrigatoriedade de desligar os veículos na saída das escolas, ou promover o monitoramento da qualidade do ar nas salas de aula. O cancelamento de aulas em momentos de eventos climáticos extremos, que já é uma realidade em outros países, precisa de uma maior elaboração para o pesquisador: “As crianças se deslocam para as escolas e passam o dia ali, mas exatamente porque não têm um suporte familiar que garantiria que, no caso da suspensão dessas aulas, essa criança poderia ser cuidada. Então, essa é uma questão que ainda precisa ser melhor equacionada. É claro, com a suspensão das aulas, você tem também uma redução do deslocamento para o local de estudo. Então, com isso, teria uma redução nas emissões por conta da redução de veículos. É claro que isso é um ponto positivo”.

Thiago Nogueira comenta, também, a respeito de formas de prevenção contra os efeitos dos poluentes que podem ser adotadas por indivíduos residentes de áreas críticas. O uso de máscaras e de umidificadores do ar é indicado, além da orientação de não varrer ou espanar a poeira de dentro das residências, mas limpar com panos úmidos.

*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira


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