
Ao longo de quatro anos, a pesquisadora Fernanda Sabatini acompanhou a rotina de 27 mulheres em situação de rua na região central da cidade de São Paulo para entender quais eram os desejos alimentares dessas mulheres e como elas os satisfaziam. A intenção era explorar a alimentação para além do aspecto puramente nutricional, levando em conta a vontade de cada participante em escolher suas próprias refeições.
Uma pessoa em estado de segurança alimentar e nutricional é aquela com acesso regular a alimentos em quantidade e qualidade suficientes, sem precisar comprometer outras de suas necessidades básicas. Para além da segurança alimentar, Fernanda aponta que o direito pleno à alimentação também demanda dignidade e respeito aos desejos individuais e às identidades culturais.
A pesquisadora é doutora pelo Programa de Nutrição em Ciência da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. Ela é também a primeira autora do artigo Feeding desires: Understanding the food needs and wishes of women experiencing homelessness in São Paulo, subproduto de sua tese de doutorado e recém-publicado pela revista Appetite.
Ela explica que os desejos alimentares remetem a noções de autonomia sobre a alimentação como um todo. “É poder decidir não só o que se come, mas também como, onde, quando, com quem e quanto. É inovador falar sobre os desejos de mulheres em situação de rua, porque a gente vai na contramão de uma imagem social construída de que essas mulheres não têm cultura, só têm fome. Isso as reduz a um corpo de sobrevivência.”
Fernanda realizou sua pesquisa de campo entre 2018 e 2022. “Quando elas me permitiam, puxávamos carros de recicláveis, íamos buscar um documento ou fazer inscrição em uma vaga de emprego, tudo enquanto conversávamos. Pude também acompanhar o mangueio. Mangueio é um termo usado para a habilidade construída de solicitar comida ou dinheiro. Não é simplesmente pedir comida, porque tem toda uma técnica e habilidade para você fazer com que outra pessoa pare e te escute. E não se mangueia qualquer coisa, se mangueia o que se quer, o que se deseja”, conta.
Autonomia para escolher
A pesquisadora diz que a ideia para o tema da pesquisa surgiu de uma conversa com uma pessoa em situação de rua, à qual questionou sobre a opção por voltar à rua em vez de permanecer nos albergues.

“Eu achava que albergues, centros de acolhida e restaurantes populares seriam suficientes para as pessoas se sentirem acolhidas. Mas, conversando com elas, percebi que tinha um olhar bastante verticalizado, enquanto profissional da saúde. Era um olhar de alguém domiciliada, cercada de privilégios sociais e que nunca tinha, de fato, escutado as pessoas que estão vivendo em situação de rua sobre o que seria um cuidado em saúde para elas.”
Para ela, estudar os desejos alimentares ajuda a restituir o debate no campo da saúde coletiva e reforça a autonomia e individualidade de cada cidadão, cujos conhecimentos e identidades se traduzem nas formas de alimentação.
“A nutrição deve pensar a subjetividade das mulheres em situação de rua dentro desse contexto da saúde coletiva, para que a gente não perpetue essa conduta histórica de negar à população em situação de rua direitos inerentes a qualquer ser humano.” – Fernanda Sabatini
Algumas participantes, por exemplo, gostavam de manguear comida vegana na hora do almoço, pois diziam se sentir mais leves e dispostas. Já à noite, elas relataram sentir falta de uma refeição com carne, porque as sustentaria mais.
As entrevistadas também relataram sentir saudades de cozinhar e de comer a própria comida. A partir do cozinhar, é possível imprimir identidade e saberes, com temperos e técnicas culinárias. Algumas conseguem preparar alimentos de maneira improvisada, mas não sem risco, principalmente em relação ao fogo. Além disso, existe também o receio de uma possível violência por parte dos transeuntes ou da polícia.
Fernanda aponta que um ambiente seguro para a alimentação é essencial para o exercício da autonomia de escolha. A reivindicação por moradia apareceu como ponto central nas falas de todas as participantes.
“Mesmo conseguindo encontrar estratégias para burlar esse sistema que reduz elas à sobrevivência, elas ainda estão inseridas num contexto social de extrema estigmatização cultural e social, em um lugar de exposição à violência e à pobreza extrema. O poder decisório vem quando elas têm a infraestrutura necessária para manter essa escolha. A moradia é uma dessas estruturas. Sem uma moradia permanente, segura, com acesso a saneamento básico, conectada à cidade, não é possível falar de poder decisório”, argumenta.
Quem está nas ruas?
Fernanda justifica o recorte de gênero na pesquisa ao explicar a composição da população em situação de rua no Brasil. A definição é um grupo heterogêneo de pessoas que usam logradouros públicos, áreas degradadas e abandonadas ou centros de acolhida como lugar de pernoite ou moradia temporária. Grande parte tem vínculos familiares interrompidos.
Segundo relatório do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, 87% da população em situação de rua é composta de homens. Porém, a pesquisadora aponta que a definição atual para essa população não contempla outras situações de vulnerabilidade social, o que pode implicar uma defasagem numérica da parcela feminina.
“Pode ser que a gente não encontre essas mulheres nos espaços públicos, nas praças, nas calçadas, nos viadutos. Elas podem estar em outros espaços que a definição não abarca. Elas podem estar fazendo troca de trabalho por teto, como na prostituição ou em casas de costura. Mas, se elas deixam de trabalhar sob condições extremamente exploratórias e desumanas, elas perdem aquele teto”, observa.
Ela acrescenta que, mesmo em menor número, as mulheres são os maiores alvos de violência, principalmente as mulheres trans e travestis e mulheres negras. Por isso, ela recorreu a autores com abordagens interseccionais para compor o trabalho.
“Com o doutorado, ficou muito claro para mim que não existe questão de gênero sem questão de raça — e isso já estava claro para as feministas negras há muito tempo. Não tinha como eu não trabalhar com a ferramenta da interseccionalidade para conseguir pensar todas as dimensões disso”, revela.
A pesquisadora também cita a apropriação de autores pós-coloniais, como o camaronês Achille Mbembe, autor de Necropolítica: “O conceito de necropolítica foi importante para entender justamente como políticas públicas hoje, incluindo centros de acolhida, núcleos de convivência e espaços de oferta de alimentação para a população em situação de rua, podem trabalhar sob uma lógica disciplinadora, normatizadora, meritocrática e tratamentista”.
Tecnologias sociais
Fernanda cita algumas políticas públicas que visam ao acesso digno à alimentação. Ela explica que as cozinhas solidárias, por exemplo, são um tipo de tecnologia social que possibilita atender aos desejos alimentares de pessoas em situação de rua.
Como são os próprios frequentadores desses espaços que estão na cozinha, eles podem se utilizar dos recursos para preparar comidas que carreguem significado cultural, memórias e ancestralidades. Ela enfatiza a necessidade de remunerar as pessoas que estão ali cozinhando, para que as cozinhas se tornem um espaço de exploração de mão de obra.
A pesquisadora ressalta a importância de políticas que não sejam elaboradas a partir de uma visão etapista ou tratamentista. “Para você ter acesso a X, primeiro precisa fazer tratamento Y. Não. Nem todas as pessoas em situação de rua fazem uso de drogas, por exemplo. E, se fazem ou não, isso não deveria ser critério para o acesso a direitos básicos.”
*Estagiária sob supervisão de Silvana Salles



























