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A emergência climática agrava as questões sociais

Leandro Giatti usa o conceito de policrise, o qual descreve múltiplas crises de diferentes naturezas, para abordar como esse problema é vivenciado nas comunidades mais vulneráveis

 11/03/2025 - Publicado há 1 ano

Fotomontagem mostrando um termômetro indicando alta temperatura apoiado sobre uma esfera que representa o globo terrestre, enquanto em segundo plano pode ser visto um incêndio numa floresta.
A maior frequência de eventos extremos leva a um acúmulo de prejuízos para a nova geração que nunca foi visto antes – Foto: Gerd Altmann /Pixabay
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Em toda esfera social, é possível observar que os efeitos da crise climática cada vez mais agravam problemáticas pré-existentes. Questões de diferentes causas gradativamente se sobrepõem, afetando a vida e a saúde da população. Esse fenômeno, estudado por muitos na atualidade, é chamado de policrise. Leandro Giatti, docente da Faculdade de Saúde Pública da USP, descreve que a sociedade está compreendendo a urgência dos eventos extremos que têm sido recorrentes no cotidiano, mas que esse entendimento tem ocorrido por meio das consequências que assolam a população. Assim, ele aponta que a grande questão é como lidar com isso.

Policrise

O termo policrise é utilizado desde a década de 90, sendo Edgar Morin, antropólogo francês, um dos pioneiros a cunhá-lo. Na atualidade, voltou a ser estudado com a pandemia de covid-19. Giatti explica que o termo descreve múltiplas crises de diferentes naturezas, as quais acontecem simultaneamente e afetam diferentes sistemas, mas que se retroalimentam e geram situações inesperadas. “Eu trabalho em periferias urbanas vulneráveis. Essas periferias urbanas já têm uma série de problemas com violência, com desemprego, com exclusão social, com insegurança alimentar. Tudo isso já era mediado pela emergência climática e aí você tem a covid, que suplanta, interfere, retroalimenta todos esses processos.”

Homem branco, ainda jovem, calvo, barba e bigode e usando óculos e vestindo camisa de cor escura
Leandro Giatti – Foto: IEA/USP

Giatti discorre sobre a necessidade de compreensão da emergência que está colocada: “Nós vivemos momentos de emergência de situações, em ritmos, frequências e intensidades que eram, digamos, imprevisíveis até pouco tempo atrás”. Ele aponta também que é preciso analisar a frequência dos acontecimentos extremos e analisar quais os impactos nas funções não apenas fisiológicas, mas também em outros campos determinantes à saúde humana.

Trabalho conjunto

Além disso, o docente aponta a necessidade de um trabalho conjunto entre diversos setores para o combate aos efeitos da policrise, principalmente em comunidades vulneráveis: saneamento ambiental, saúde pública, programas de seguridade social. Contudo, ele ressalta a capacidade resolutiva das comunidades na abordagem de problemas: “Não que elas tenham que se resolver por si só, não é isso. […] A gente não pode esquecer que elas vivem em déficit de poder público e as políticas públicas devem chegar lá. Por outro lado, a gente deve reconhecer, também, que elas têm capacidades criativas e de auto-organização que muitas vezes melhor desempenham ações para mitigar os impactos das crises”.

O pesquisador finaliza ressaltando que a maior frequência de eventos extremos leva a um acúmulo de prejuízos para a nova geração que nunca foi visto antes. Para explicar, aponta a série de complicações na continuidade da frequência em escolas vista nos últimos anos: “Algumas escolas não estavam iniciando o período letivo, por quê? Porque estava muito calor. E as escolas não tinham preparação com o ar condicionado para receber os estudantes. Eu estou falando de estudantes que há pouco tempo passaram pela covid com sérios prejuízos. No caso do Rio Grande do Sul, também são estudantes que passaram pela covid, passaram pela enchente e agora estão enfrentando o calor como mais um prejuízo que se acumula. Então, a gente tem impulsos e frequências dos fenômenos climáticos alterando e sobrepondo os resultados que vão ser importantes lá na frente”.


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