
Por seu caráter agroexportador, fenômenos como estiagens, tempestades, inundações e outros geram um grande desordenamento no escoamento de suprimentos, reduzem a produtividade agrícola e aumentam o preço dos alimentos, fatores que intensificam a fome e a malnutrição. Segundo a professora Dirce Marchioni, do Departamento de Nutrição da Faculdade de Saúde Pública da USP, os eventos climáticos afetam principalmente a população em situação de vulnerabilidade. “A segurança é impactada de diversas formas, tanto pelas perdas sofridas pelas populações atingidas por essas situações e também pelos prejuízos agrícolas, desabastecimento e contaminação da água causados por esses eventos.”
E, em contrapartida ao seu caráter agroexportador, de acordo com o relatório, a subalimentação aumentou 1,5 porcentual nos países afetados pela variabilidade climática. O número de 41 milhões de pessoas afetadas pela fome em 2023 representa uma diminuição de 2,9 milhões em relação a 2022 e de 4,3 milhões em relação a 2021, entretanto, marcam amplas desigualdades entre as regiões, considerando que a fome aumentou durante os últimos dois anos no Caribe, alcançando 17,2%, enquanto se manteve estável na América Central, com 5,8%.

O cenário é intensificado pela vulnerabilidade climática, pelas desigualdades sociais estruturais que compõem a região e pela necessidade econômica em sustentar os sistemas agroalimentares responsáveis pelas exportações, assim, segundo a professora, o panorama torna-se complexo. “Se, por um lado, é decorrente de desigualdades estruturais na insegurança alimentar, que são mais prevalentes entre as mulheres e as populações rurais na região como um todo, os países da região enfrentam conflitos, crises econômicas, desigualdade social e acesso limitado e inacessibilidade de dietas saudáveis, o que dificulta a redução da fome, insegurança alimentar e desnutrição. Além disso, a variabilidade climática e o clima extremo afetam desproporcionalmente os mais vulneráveis, como crianças e adolescentes, mulheres, comunidades indígenas e afrodescendentes e pessoas que vivem em áreas rurais.
Subnutrição
As consequências da insegurança alimentar também revelam-se na dieta da população, que apresenta uma piora na qualidade e valor nutricional dos alimentos ingeridos pela falta de acesso. Segundo dados do relatório, a região apresenta um custo mais elevado para uma dieta saudável em comparação a outras partes do mundo, chegando a 4,56 dólares PPC por pessoa ao dia, enquanto a média global é de 3,96 dólares PPC. Como consequência, 182,9 milhões de pessoas na região não conseguem ter acesso a esse tipo de dieta.
O vácuo entre a população e uma alimentação saudável ocasiona um fenômeno de subnutrição que gera uma nova gama de problemas de saúde, que alcançam espaços muito além da fome. Problemas como atraso no crescimento de crianças e sobrepeso encontram-se no quadro de intensificadores que, segundo o relatório, apenas em 2022, mostrou-se em 8,6% das crianças da América Latina e do Caribe que encontram-se acima do peso, em comparação a 5,6% no restante do mundo.
De acordo com Dirce, tais fatores representam erros estruturais nos sistemas agroalimentares, que falham em nutrir sua própria população. “Todos os países estão enfrentando a dupla carga de sobrepeso, obesidade e desnutrição, sinalizando para a ineficiência dos atuais sistemas agroalimentares, situação que pode ainda ser mais grave no futuro próximo, devido à intensificação dos eventos climáticos extremos, que já estamos vivenciando.”
Entre as soluções propostas pelo relatório, priorizar populações vulneráveis e investir em ações de fortalecimento da capacidade de sistemas seriam algumas das alternativas para o enfrentamento. Entretanto, para a professora, as soluções devem ser multissetoriais, incluindo medidas como estabelecimento de políticas públicas, visando à diminuição da fome e ao combate massivo ao desmatamento. “(…) Garantir que a redução da prevalência da fome, da insegurança alimentar e da desnutrição, em todas as suas formas, seja uma prioridade e se traduza em políticas públicas. Frear o aquecimento global, zerar o desmatamento, políticas para redução das desigualdades, mudanças nas cidades para torná-las preparadas para os eventos climáticos extremos, fomentar mudanças no sistema alimentar, para reduzir o seu impacto ambiental e favorecer o consumo de dietas saudáveis.”
*Sob supervisão de Paulo Capuzzo e Cinderela Caldeira
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