
Como todos sabemos, a USP foi fundada em 1934 incorporando tradicionais faculdades como a de Direito, a de Medicina e de Farmácia e Odontologia e as escolas Politécnica e de Medicina Veterinária e Superior de Agricultura, além da criação de novas unidades, em particular a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL). Tal unidade, de acordo como os seus fundadores, deveria ser a alma mater da nova Universidade.
Para a implementação da FFCL, foram contratados professores estrangeiros. Em particular, para o curso de Matemática, foram escolhidos, inicialmente, os italianos Luigi Fantappiè e Giacomo Albanese. Com a decretação da guerra entre Brasil e Itália, em 1939, tais pesquisadores foram obrigados a voltar à sua terra natal, e a chamada subseção de Matemática da FFCL não contou com pesquisadores mais experientes por alguns anos.
Em 1945, com o final da Segunda Guerra Mundial, o matemático francês André Weil e o russo Oscar Zariski vieram a São Paulo para cuidar do curso de Matemática. No ano seguinte, o francês Jean Dieudonné substituiu Zariski em sua cadeira na FFCL. Cabe ressaltar que tanto Weil quanto Dieudonné faziam parte do grupo Nicolas Bourbaki que, digamos assim, é um coletivo de matemáticos que publicou, ao longo do século 20, uma série de livros que muito influenciaram esta área de pesquisa. Por coincidência, este grupo nasceu no mesmo ano de criação da USP, 1934. A propósito, a Edusp publicou recentemente o livro Nicolas Bourbaki e a gênese da Matemática na USP, em que descrevo a participação de membros do grupo Bourbaki nos primórdios do curso de Matemática na FFCL-USP, incluindo os nomes acima citados.
Dieudonné ministrava os seus cursos em francês, o que, em geral era acessível aos alunos da época. No entanto, um de seus assistentes, Luiz Henrique Jacy Monteiro, resolveu redigir as notas destes cursos. Isso não só tornava o material correspondente acessível a mais alunos, como também contribuiu para a formação de uma bibliografia matemática em língua portuguesa. Na realidade, Jacy Monteiro não agiu de forma isolada nessa direção, pois outros alunos e assistentes da época, e futuros matemáticos, também trataram de redigir notas de aulas dos professores estrangeiros, como foi o caso de Omar Catunda e suas várias versões do curso de Análise (que ao final foi publicado como livro nos anos 1960) ou de Edison Farah, que deixou versões de notas de aulas e de palestras dos matemáticos estrangeiros que nos visitavam.
Inicialmente, os textos que compõem o livro Teoria dos Corpos Comutativos de Dieudonné e Jacy Monteiro foram publicados pela Sociedade de Matemática de São Paulo (SMSP), divididos em três partes. A primeira parte chamava-se Teoria Clássica dos Corpos e foi publicada em 1946, a segunda, de nome Teoria de Galois, saiu em 1947, enquanto a terceira, Corpos Ordenados e Teoria das Valorizações, em 1958. A propósito, a SMSP, que, em 1969, seria substituída pela Sociedade Brasileira de Matemática (SBM), cumpriu um importante e necessário papel de divulgação da incipiente pesquisa matemática em nosso país, não só por meio de seus boletins como também pelas suas publicações avulsas.
O texto agora publicado reúne as três partes publicadas pela SMSP, em uma produção editorial bastante caprichada. Cabe ressaltar que os textos iniciais foram datilografados com muitos símbolos acrescentados à mão.
Jacy Monteiro também produziu versões escritas de cursos ministrados em inglês por Zariski em São Paulo. Ao longo de sua vida, ele escreveu vários livros para o ensino superior e se envolveu diretamente na discussão da época sobre a chamada Matemática Moderna. Foi professor da USP até a sua morte em 1975 e, como homenagem de seus pares, nomeia o principal Anfiteatro do IME-USP.
Dieudonné, mesmo após o seu retorno à França em 1947, sempre manteve um contato com pesquisadores brasileiros. É interessante lembrar que Paulo Ribenboim (1928-), então um jovem pesquisador brasileiro, menciona que a leitura dos livros de Dieudonné o levou a procurá-lo na Universidade de Nancy onde este então lecionava e, lá, conheceu o matemático Alexander Grothendieck, de quem ficou muito amigo. Ao regressar ao Brasil em 1952, Ribenboim tratou de conseguir algum auxílio para que o colega, à época com 24 anos e ainda sem uma posição acadêmica definida, viesse ao Brasil. Grothendieck lecionaria na FFCL no período 1953-1955, retornando à França em seguida, ocasião em que também ingressou no grupo Bourbaki.
Dieudonné foi o redator das versões finais dos livros do Bourbaki por mais de vinte e cinco anos. À época de sua estadia em São Paulo, ele e Weil estavam empenhados na escrita de uma parte do livro sobre álgebra e, naturalmente, isso influenciou a maneira como os cursos ministrados por ele e redigidos por Jacy Monteiro foram estruturados. São textos claramente com características bourbakianas.
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