
A agricultura familiar ocupa um lugar central na formação social, econômica e territorial do Brasil. Longe de representar um resquício de formas produtivas “atrasadas”, ela constitui um modo de organização profundamente enraizado na história da humanidade, articulando produção, vida social, cultura e território. Ainda assim, permanece atravessada por uma questão que desafia pesquisadores, formuladores de políticas públicas e os próprios agricultores: as políticas de apoio à agricultura familiar promovem ampliação de capacidades produtivas e ascensão socioeconômica ou acabam por reforçar limites estruturais já existentes?
Responder a essa pergunta exige, antes de tudo, compreender o que está em jogo quando falamos em agricultura familiar. No Brasil, sua definição foi formalizada pela Lei nº 11.326/2006, que a caracteriza a partir de critérios como o predomínio do trabalho familiar, a gestão da unidade produtiva pela própria família e o vínculo com o território. No entanto, essa definição vai além de um recorte técnico: trata-se de uma forma específica de organização social da produção, na qual trabalho, família e vida cotidiana estão profundamente integrados.
Essa forma de organização não é recente. Desde as primeiras sociedades agrícolas, há cerca de 10 mil anos, a produção de alimentos esteve majoritariamente baseada em unidades familiares. Mesmo com o avanço do capitalismo e da modernização agrícola, que levaram muitos autores a prever o desaparecimento dessas formas produtivas, a agricultura familiar não apenas persistiu, como se adaptou a diferentes contextos históricos e geográficos. Hoje, estima-se que cerca de 90% dos estabelecimentos agrícolas do mundo sejam operados por famílias, responsáveis por aproximadamente 80% da produção global de alimentos em valor. Ou seja, aquilo que frequentemente é tratado como marginal constitui, na prática, um dos pilares do sistema alimentar.
Ainda assim, essa persistência não deve ser confundida com homogeneidade. A agricultura familiar é profundamente diversa. No Brasil, por exemplo, ela responde por cerca de um quarto do valor da produção agropecuária total, mas desempenha papel dominante em cadeias fundamentais para o abastecimento alimentar, como hortaliças, frutas, mandioca, feijão, leite e suínos. Ao mesmo tempo, sua participação é muito menor em commodities voltadas à exportação, como soja e milho, evidenciando uma divisão estrutural da produção.
É justamente nessa divisão que emerge uma das tensões centrais do debate. Do ponto de vista técnico-econômico, a agricultura familiar apresenta vantagens importantes: diversificação produtiva, uso intensivo de trabalho familiar, capacidade de adaptação a contextos variados e maior inserção em circuitos econômicos locais. Essas características favorecem a resiliência diante de crises e contribuem para o abastecimento alimentar. Em outras palavras, trata-se de uma forma de eficiência que não se baseia na escala, mas na combinação entre trabalho, conhecimento e diversificação.
Na dimensão social, seu papel é ainda mais evidente. Trata-se de uma forma de produção intensiva em trabalho, responsável pela geração de renda e pela sustentação de milhões de famílias rurais. Além disso, contribui para a manutenção do tecido social no campo, preservando modos de vida, vínculos comunitários e identidades culturais.
Em um país marcado por profundas desigualdades regionais, esse aspecto é particularmente relevante.
Também do ponto de vista ambiental, a agricultura familiar apresenta potencial significativo. Sistemas produtivos mais diversificados, maior proximidade com os ecossistemas locais e o uso de conhecimentos tradicionais favorecem práticas mais compatíveis com a conservação dos recursos naturais. Isso não significa que toda agricultura familiar seja automaticamente sustentável, mas indica uma base estrutural mais favorável a modelos produtivos ambientalmente resilientes.
Diante desse conjunto de atributos, seria esperado que as políticas públicas voltadas ao setor desempenhassem papel decisivo na promoção de sua autonomia e fortalecimento. De fato, iniciativas como o crédito rural via Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf), a assistência técnica e programas de compras públicas têm contribuído para ampliar o acesso a recursos, mercados e tecnologias.
No entanto, os dados revelam uma realidade mais complexa. No atual Plano Safra (2025/2026), por exemplo, a agricultura familiar acessa cerca de 15% do volume total de recursos, enquanto a agricultura empresarial concentra aproximadamente 85%. Por outro lado, os agricultores familiares contam com condições de crédito mais favoráveis, como taxas de juros mais baixas. Essa combinação evidencia uma política que, ao mesmo tempo em que reconhece a importância do setor, mantém — e em certa medida reproduz — uma estrutura de financiamento fortemente concentrada.
Isso nos leva de volta à pergunta inicial. As políticas públicas promovem inovação ou reproduzem limitações? A resposta, como frequentemente ocorre nas ciências sociais, não é binária. Em determinados contextos, essas políticas ampliam capacidades produtivas, fortalecem mercados locais e melhoram as condições de vida. Em outros, podem reforçar inserções subordinadas em cadeias produtivas, sem alterar significativamente a posição estrutural dos agricultores.
Tal ambivalência sugere que o desafio não está apenas no volume de recursos ou na existência de políticas, mas na forma como estas são concebidas e implementadas. Mais do que adaptar os agricultores às exigências de sistemas produtivos já estruturados, trata-se de criar condições para que possam ampliar sua autonomia, diversificar estratégias e fortalecer sua inserção econômica e social.
Essa heterogeneidade também se expressa regionalmente. Dados do Censo Agropecuário de 2017 indicam que a agricultura familiar representa cerca de 77% dos estabelecimentos rurais no Brasil, mas aproximadamente 65% no Estado de São Paulo. A diferença torna-se ainda mais evidente quando se consideram outros indicadores estruturais. Enquanto, em nível nacional, a agricultura familiar responde por cerca de 23% da área e do valor da produção agropecuária, em São Paulo sua participação tende a ser proporcionalmente menor nesses dois aspectos. Essa configuração reflete a predominância, no estado, de cadeias agroindustriais de larga escala — como a cana-de-açúcar, a citricultura e a pecuária — que operam com maior concentração de capital e terra. Assim, a menor participação relativa da agricultura familiar em São Paulo não indica irrelevância do setor, mas uma forma específica de inserção em um sistema agroalimentar mais concentrado e integrado industrialmente.
Nesse sentido, compreender a agricultura familiar exige ir além de dicotomias simplificadoras, como atraso versus modernidade ou sucesso versus fracasso. Trata-se de um fenômeno complexo, dinâmico e profundamente heterogêneo, cuja relevância permanece central tanto para o passado quanto para o futuro dos sistemas alimentares.
Talvez o problema não esteja na agricultura familiar, mas na forma como seguimos posicionando-a no interior do sistema agroalimentar. Tratá-la como marginal, quando os dados mostram sua centralidade na produção de alimentos, não é apenas um equívoco analítico — é uma escolha que orienta prioridades, políticas e investimentos. Enquanto permanecer nesse lugar periférico, mesmo sendo estruturalmente relevante, continuará submetida a uma lógica que limita seu potencial econômico, social e ambiental.
Reconhecer sua centralidade não é um gesto retórico, mas uma condição para repensar, de maneira mais coerente, o próprio desenho do sistema agroalimentar e energético.
________________(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

























