
Em homenagem aos 100 anos da pesquisadora que marcou o estudo da demografia brasileira, a Fundação Carlos Chagas (FCC) lançou o documentário 100 anos de Elza Berquó: tributo, em parceria com o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). O filme retrata a trajetória de Elza ao longo de décadas de trabalho em diferentes instituições, incluindo a USP.
Elza Berquó contribuiu significativamente no campo da saúde reprodutiva, na formação de pesquisadores, na produção acadêmica e na criação de instituições relevantes, sempre posicionando compromisso social em destaque. Além disso, afirmou a demografia como uma área interdisciplinar e crítica ao colocar no centro do debate as questões de gênero, direitos e saúde das mulheres, especialmente negras. Na década de 1960, criou o Centro de Estudos de Dinâmica Populacional (Cedip) no Departamento de Estatística Aplicada da então Faculdade de Higiene e Saúde Pública, hoje Departamento de Epidemiologia da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.
Na FCC, Berquó fez parte do conselho consultivo do Programa de Treinamento em Pesquisa sobre Direitos Reprodutivos na América Latina e Caribe (Prodir). Teve um papel fundamental nas reflexões sobre o Departamento de Pesquisas Educacionais e participou de programas relacionados a direitos sexuais e reprodutivos. Integrou o Conselho Curador da instituição por 31 anos e, atualmente, segue integrando o Comitê de Honra.
Um vasto legado
O documentário começou a ser produzido pela M.HUB Estúdio Criativo em setembro de 2025, ano em que Elza completou 100 anos. O projeto se deu por iniciativa da FCC em parceria com o Cebrap, onde grande parte do documentário foi gravada.

“O documentário deveria expressar a grandeza e importância de Elza para um público o mais amplo possível, mas devia sobretudo mostrar para ela própria o quanto é admirada, o quanto foi importante na trajetória de várias pessoas. Nós queríamos que ela sentisse o enorme reconhecimento, que ela sentisse o afeto e o carinho das pessoas que estiveram com ela ao longo de sua trajetória”, conta Sandra Unbehaum, pesquisadora da FCC e responsável pelo projeto, em entrevista ao Jornal da USP.
Sandra afirma que a ideia inicial era realizar um minidocumentário. Mas com a coleta de depoimentos, os realizadores observaram que resumir o legado de Elza em poucos minutos seria uma tarefa impossível. “O que houve foi um desafio gigante em decidir o que privilegiar, o que escolher, o que tivemos que deixar de fora, o que era possível aprofundar, e esse acho que foi o principal desafio. Ela tem um material muito vasto, muito rico, muito interessante. Então, foi um trabalho difícil, que foi muito bem conduzido pela Paula Garcia, o Rodrigo e a Sandra. Foi um trabalho coletivo, colaborativo.”
Paula Garcia e Marcos Rodrigo são criadores da M.HUB Estúdio Criativo. Ambos conhecem Elza e a admiram. Foram eles que conceberam o processo de elaboração do documentário a partir de imersões e reflexões dos envolvidos. Já Sandra Garcia trabalhou com Elza no Cebrap por mais de 30 anos e hoje coordena o núcleo criado por ela nesta instituição.
Durante o documentário, pesquisadoras e parceiros de trabalho comentam sobre sua vivência com Elza e os projetos conduzidos por ela. Demógrafos, antropólogos e pesquisadores tiveram suas vidas atravessadas por Berquó. Além disso, a produção conta com depoimentos da própria em outros anos, como por exemplo em reuniões e palestras do Cebrap. O documentário completo está disponível gratuitamente no canal da FCC no YouTube.

Quem é Elza Berquó?

A pesquisadora se formou em matemática na Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) em 1947, com 22 anos. Em 1949, concluiu o mestrado em Estatística na USP. Na mesma instituição, aos 25 anos, começou a trabalhar na Faculdade de Saúde Pública (FSP) e, um ano depois, tornou-se livre-docente em Bioestatística. Em 1959 foi para os Estados Unidos, onde concluiu o doutorado em Bioestatística na Columbia University.
Na década de 1960, quando retornou ao Brasil, criou o Cedip no Departamento de Estatística Aplicada da FSP. O Cedip foi primeiro centro de estudo formal da demografia no Brasil e serviu de incentivo para o ensino da área na América Latina. Foi também o local onde Elza iniciou suas pesquisas sobre fecundidade humana, incluindo o estudo que conseguiu identificar antecipadamente a tendência de queda da fecundidade feminina no País.
Alguns anos depois, por seu posicionamento crítico, especialmente no que se referia à mortalidade infantil, foi afastada da USP. Durante a ditadura militar, cassada pelo Ato Institucional nº 5, Elza foi forçada a largar seu cargo na Universidade.
Mesmo nesse contexto, Berquó fundou o Cebrap, em 1969. Em seu próprio depoimento, ela afirma que queria que fosse um centro de resistência intelectual, com responsabilidade pública. No Cebrap, criou um programa de formação voltado especificamente para pesquisadoras negras e deu sequência às atividades da Pesquisa Nacional de Reprodução Humana, iniciada no Cedip. No mesmo período também ajudou a criar a Associação Brasileira de Estudos Populacionais (Abep), espaço de debate e circulação de ideias durante o regime militar.
Na década de 1980, fundou ainda o Núcleo de Estudos Populacionais da Universidade Estadual de Campinas (Nepo-Unicamp), que hoje leva seu nome. A instituição inaugurou em outubro de 2025 um site em homenagem aos 100 anos da pesquisadora.
Em 2014, Elza Berquó recebeu o título de Professora Emérita da USP e, em 2021, se tornou a primeira mulher da Unicamp a receber o título de Doutora Honoris Causa.
*Estagiária sob supervisão de Antônio Carlos Quinto e Silvana Salles



























