Dispositivo no coração pode evitar AVC como alternativa ao anticoagulante

Estudo internacional mostra que implante no apêndice atrial esquerdo tem eficácia semelhante aos anticoagulantes na prevenção de AVC

 31/03/2026 - Publicado há 4 meses
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A coluna do professor Octávio Pontes Neto desta semana traz um estudo publicado no New England Journal of Medicine que avaliou uma alternativa ao uso contínuo de anticoagulantes em pacientes com fibrilação atrial. De acordo com o neurologista, “esse é um estudo realmente muito relevante, porque trata de um tema central na prevenção do AVC. A fibrilação atrial é uma das arritmias mais comuns e aumenta muito o risco de AVC por formação de coágulos dentro do coração”.

Até hoje, a principal estratégia para evitar isso tem sido o uso contínuo de anticoagulantes. O que esse estudo avaliou foi se o fechamento percutâneo do apêndice atrial esquerdo, que é uma pequena estrutura do coração onde muitos desses trombos se formam, poderia funcionar como uma alternativa ao anticoagulante em pacientes que ainda são candidatos a esse tratamento. Foram 3 mil pacientes incluídos, comparando diretamente o implante desse dispositivo com o uso de anticoagulantes orais modernos, e o resultado principal mostrou que o dispositivo teve desempenho semelhante ao anticoagulante para o desfecho combinado de morte cardiovascular, AVC e embolia sistêmica em três anos de acompanhamento. Além disso, houve menos sangramentos não relacionados ao procedimento no grupo do dispositivo. Isso torna o estudo muito importante, porque amplia a discussão sobre quem pode se beneficiar de uma estratégia mecânica, e não apenas medicamentosa, para prevenir AVC.

O professor explica que ainda não é uma troca automática, “e esse é o ponto mais importante para o ouvinte entender. O estudo mostrou que o fechamento do apêndice atrial esquerdo foi não inferior ao anticoagulante no resultado principal e reduziu sangramentos ao longo do seguimento. Por outro lado, o número de AVCs foi numericamente um pouco maior no grupo do dispositivo, embora o estudo tenha cumprido o critério estatístico estabelecido. Então a mensagem prática não é que o anticoagulante vai deixar de existir, mas sim que agora temos uma evidência robusta de que, em pacientes bem selecionados, esse procedimento pode ser uma alternativa real. Isso pode ser especialmente relevante para pessoas com maior preocupação com sangramento, dificuldades de aderir ao anticoagulante por muitos anos ou situações em que uma abordagem intervencionista faça mais sentido.”

Octávio Pontes alerta, no entanto, que é fundamental lembrar que o procedimento também tem riscos, como complicações periprocedimento e trombo relacionado ao dispositivo. Portanto, a decisão precisa ser individualizada e tomada em conjunto entre médico e paciente. “Em resumo, esse estudo não encerra a discussão, mas certamente muda o patamar dela: o fechamento do apêndice atrial passa a ser uma opção mais forte na prevenção do AVC cardioembólico em pacientes com fibrilação atrial”, conclui.

O minuto do Cérebro

Com o Prof. Octávio Pontes Neto

A coluna O minuto do Cérebro, com o professor Octávio Pontes Neto, vai ao ar quinzenalmente,  terça-feira às 8h30, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9), com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.


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