A OpenAI descontinuou as operações do Sora (essa é uma palavra que as big tech adoram: “descontinuar”) e deixou muita gente com saudade, inclusive eu. Mas a questão aqui não é pessoal.
Não é a primeira vez que uma grande empresa de tecnologia interrompe um produto e não será a última. Mas precisamos discutir a dimensão cultural dessas operações. A memória foi terceirizada nas plataformas de dados.
Por um lado, isso fez surgir um arquivo distribuído, de memórias diversas que têm sido fundamentais para dar visibilidade e circulação a histórias que nunca tiveram lugar nos arquivos oficiais — e prometo que voltaremos a falar disso aqui.
Mas precisamos também entender que, apesar de estarmos falando em cultura digital — e isso remeter, no senso comum, a uma ideia de impalpabilidade, abstração, pura virtualidade —, cada uma dessas grandes plataformas que desaparece carrega consigo um momento da história do design, da comunicação, da programação, das materialidades da internet; ou seja, dos modos de fazer e viver as redes que constituem a história do nosso presente.
E carrega consigo, sobretudo, os nossos arquivos pessoais que, num mundo em rede, são também documentos sociais, integrados e linkados a tantos outros. Há toda uma discussão legal sobre o direito de ser esquecido, que é mobilizado sempre que um conteúdo viraliza expondo — à revelia dos protagonistas — uma série de vulnerabilidades.
Precisamos falar dos direitos de lembrar. De como vamos contar as histórias do digital e de que tipos de códigos éticos precisam ser definidos frente a esse processo de terceirização da memória. Dificilmente (para não dizer impossível) instituições públicas ou privadas teriam condições de fazer frente à capacidade de armazenamento e mobilização das big techs.
E fecho com um exemplo hipotético, mas bastante didático sobre a escala do problema: se o Google decidir que “descontinuará” o YouTube, por não interessar mais como nicho de marketing, boa parte — senão a mais significativa — da história da pandemia de covid-19, uma das maiores crises sanitárias registradas, desaparecerá. Da OMS à nossa rotina pessoal durante dois anos, tudo foi canalizado nessa plataforma.
É disso que se trata, portanto, quando falamos em direito à memória no contexto do digital. Você já pensou nisso?
Ouvir Imagens
Com o Profa. Giselle Beiguelman
A coluna Ouvir Imagens, com a professora Giselle Beiguelman, vai ao ar quinzenalmente, segunda-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9), com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP



























