A regulamentação está na base dos problemas apresentados pela utilização da IA

Glauco Arbix afirma que a sociedade tem a obrigação de impor limites para a tecnologia, regulamentando-a, o que, na verdade, é mais fácil falar do que de fazer

 27/03/2026 - Publicado há 7 meses
Fotomontagem em que uma mão robótica segura o halo de uma lâmpada, que brilha e que aparece na cor de um azul mais claro sobre um fundo azul mais escuro
A IA reduziu, de uma maneira bastante acentuada, aquilo que se chama o custo da cognição – Foto: Pixabay
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Se há um tema hoje que desperta cada vez mais interesse e atenção, tanto de especialistas quanto de leigos, é o da inteligência artificial, que não por acaso é o foco principal do livro IA na Encruzilhada – desafios geopolíticos, regulatórios e de governança. A obra reúne reflexões de 21 pesquisadores e especialistas da Universidade de São Paulo sobre os mais variados tópicos: geopolítica, história, ciências sociais, direito, teoria da comunicação e engenharia, tudo isso por meio de pesquisas inéditas. A organização desse trabalho é dos professores Glauco Arbix e Rodrigo Brandão, ambos apaixonados pelo assunto, a ponto de Arbix afirmar que a inteligência artificial é uma das tecnologias mais poderosas que a humanidade criou, na medida em que está modificando as relações de trabalho e produção, o sistema educacional, a área da saúde, entre outras atividades desenvolvidas pelo ser humano.

Professor na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e coordenador do Observatório da Inovação do Instituto de Estudos Avançados (IEA), ambos da USP, Arbix revela que as diferentes tecnologias da IA “estão sacudindo o panorama da Academia, da Universidade, de ponta a ponta. O mundo inteiro está atrás desse tipo de resposta, diante de uma tecnologia tão poderosa e que reduziu, de uma maneira bastante acentuada, aquilo que se chama o custo da cognição”. O livro, segundo ele, tenta dar conta das mais variadas perspectivas e enfoques sobre a IA, tratada em 11 capítulos marcados pela diversidade de temas, cobrindo tanto a parte de infraestrutura como a de conteúdo, numa visão bastante completa – na medida em que é possível falar em completude quando se tem pela frente algo tão complexo como a inteligência artificial, como admite Arbix, que também é colunista da Rádio USP.

Glauco Arbix – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Regulamentação em questão

Para Arbix, a questão regulatória está na base dos problemas apresentados pela utilização da IA, os quais têm início justamente quando a sociedade passa a adotar essas novas tecnologias e percebe que, “além de promessas de bem-estar, ela pode gerar danos psicológicos, pode gerar vícios, jovens que ficam grudados, fazendo perguntas para o ChatGPT, sem contar que você não tem sistemas e mecanismos de proteção muito eficientes desses jovens, dessas crianças. A sociedade tem a obrigação de colocar limites para a tecnologia”. Uma tecnologia que, na verdade, está atuante em várias áreas do conhecimento, interferindo diretamente em várias profissões – e aqui Arbix cita o exemplo do jornalismo, área em que a IA substitui o trabalho dos jornalistas, comprometidos em fornecer a informação a mais verídica possível, e “dando o posicionamento dela, e muitas vezes isso não é verdadeiro, porque reproduz muitas coisas que não são precisas e que circulam pela internet. Isso, do ponto de vista da democracia, é muito ruim”.

O grande problema, nesse caso, é encontrar formas de regulamentação, o que, para o professor, não é uma tarefa nem um pouco fácil. “Por que? Porque, primeiro, não há consenso sobre isso, há muitos governos que pensam diferente – por exemplo, o governo Donald Trump faz uma campanha para tentar vencer a competição com a China. Ele não quer fronteiras, limites à atuação das empresas.” Estas, por sua vez, têm poder financeiro e político de pressão sobre a sociedade e autoridades muito maior do que os países, uma vez que, como grandes conglomerados, possuem uma capacidade de intervenção muito forte.

De resto, Arbix contesta a tese segundo a qual a regulamentação e a colocação de regras para o funcionamento da IA vão enfraquecer a inovação. “Não é verdade, o setor de saúde é altamente regulado e é o mais inovador do mundo, só perde para a área militar; aviação, automóveis, todos eles são ultrarregulamentados exatamente ao colocar regulamentação”, afirma para concluir.

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