
Pretendia estudar engenharia, seguindo os passos do seu pai. No entanto, as perdas súbitas da mãe, por leucemia, e do pai, por um tumor renal, fizeram com que ele modificasse sua preferência para medicina. O evento da leucemia o induziu a investigar durante toda sua vida científica as células do sangue em sua normalidade e em sua patologia.
Em 1944 foi aprovado no exame vestibular para a Faculdade de Medicina da USP, após ter frequentado o curso preparatório pré-médico que na época era ministrado pela própria instituição.
Durante o segundo ano de graduação foi aluno de José Oria, professor catedrático de Histologia e Embriologia. Este, além de interessado por música e literatura, foi um dos precursores da Hematologia Morfológica no Brasil. Procurado por Michel, recebeu-o no Laboratório de Histologia, porém infelizmente faleceu poucos meses depois.
A partir de 1948, o Departamento de Histologia e Embriologia ficou sob a chefia do professor catedrático Luiz Carlos Uchôa Junqueira, médico e jovem pesquisador que passara por ótimo treinamento no exterior. O professor Junqueira promoveu uma grande reformulação e modernização no departamento, onde criou o Laboratório de Fisiologia Celular, em grande parte graças a um auxílio financeiro da Fundação Rockefeller que lhe permitiu a compra de equipamentos e insumos para a pesquisa. Contratou profissionais brasileiros de reconhecido valor para atuarem em docência e pesquisa e além disto frequentemente convidava cientistas estrangeiros para ministrarem cursos e conferências.
Um parêntese a respeito desse departamento: em decorrência da Reforma Universitária ocorrida em 1968, foi transferido da Faculdade de Medicina para o recém-criado Instituto de Ciências Biomédicas da USP, atualmente denominado Departamento de Biologia Celular e do Desenvolvimento.
Na Faculdade de Medicina, Michel continuou frequentando o laboratório, já sabendo que não pretendia clinicar e comumente faltava nas aulas de clínica para poder trabalhar no laboratório. Em 1947, durante seu quarto ano de graduação, publicou o primeiro de uma longa série de 149 artigos científicos e durante o quinto ano já dava aulas práticas para alunos do segundo ano do curso médico.
Após graduar-se em 1949, foi convidado pelo professor Junqueira para ser professor assistente do Departamento de Histologia e Embriologia, iniciando assim profissionalmente sua carreira acadêmica. Com o professor Junqueira e outros colaboradores, desenvolveu vários estudos utilizando técnicas de histoquímica, que naquela ocasião estavam sendo introduzidas no País. Mais tarde foi aprovado em concurso de doutorado (1951), de livre-docência (1953) e tornou-se professor adjunto em 1959.
De 1953 a 1954, por meio de bolsa da Fundação Rockefeller, Michel estagiou nas universidades de Chicago e da Califórnia em Berkeley, além de frequentar um curso de fisiologia celular no Marine Biological Laboratory em Woods Hole. Foi uma época bastante proveitosa durante a qual pesquisas feitas com Walter Plaut revelaram um importante fenômeno, qual seja, a passagem de RNA do núcleo das células para o seu citoplasma, investigação que muito contribuiu e influenciou o desenvolvimento da moderna biologia.
Em seguida, Michel Rabinovich retornou à USP, desenvolvendo linhas de pesquisa independentes que resultaram em importantes contribuições na área de biologia e metabolismo celulares.
Culto, afável, informal, dotado de simpatia pessoal e excelente didata, Michel Rabinovitch foi sempre muito estimado pelos alunos de graduação. Desta maneira atraiu numerosos estudantes da Faculdade de Medicina e docentes de outras faculdades e universidades para treinamento e realização de pesquisas. Com esses alunos e estagiários foram publicados artigos científicos em importantes periódicos. Seus alunos se tornaram excelentes médicos e vários outros (como o autor deste texto) se encaminharam para a carreira acadêmica.
Trabalhou novamente no laboratório de Plaut entre 1961 e 1963 e, após sua volta ao Brasil, estabeleceu-se no Departamento de Bioquímica da Faculdade de Medicina da USP.
Em abril de 1964 foi nomeado docente da Universidade de Brasília. No entanto, não tomou posse deste cargo, devido ao golpe de estado que instaurou a ditadura militar no Brasil em abril do mesmo ano. Michel foi demitido da USP, assim como um grande número de outros valiosos docentes da Universidade. Mais tarde Michel foi procurado pela polícia durante um congresso da SBPC, em Ribeirão Preto, alegadamente por atividades comunistas, embora ele nunca tivesse tido participação ativa em atividades políticas.
Conseguiu escapar, refugiou-se por alguns dias em São Paulo e, graças ao fato de possuir ainda um visto válido, voltou em julho aos Estados Unidos para, associado a Zanvil Cohn e James Hirsch, trabalhar no Laboratório de Fisiologia Celular e Imunologia da Universidade Rockefeller, em Nova York. Lá permaneceu até 1969, realizando pesquisas sobre lisossomas e sobre macrófagos, importantes células de defesa do organismo, que nos tecidos digerem partículas estranhas, bactérias e protozoários.
Foi depois indicado para a New York University inicialmente como professor associado, chegando a professor titular (Full Professor). Convidado em 1984 pelo Instituto Pasteur de Paris, foi mestre de pesquisas, chefe de laboratório, chegando a chefe da Unidade de Imunoparasitologia, onde desenvolveu amplas pesquisas em biologia celular abordando a relação entre fagossomos, uma organela celular, e leishmanias, parasitas intracelulares transmitidos por insetos. Após sua aposentadoria, em 1994, trabalhou novamente na Rockefeller University.
Após sua volta definitiva ao Brasil, foi convidado em 1997 para atuar como professor colaborador e pesquisador na Disciplina de Parasitologia do Departamento de Microbiologia da Escola Paulista de Medicina da Unifesp. Juntamente com pesquisadores dessa instituição, produziu trabalhos científicos e orientou vários alunos de doutorado, alguns atualmente pesquisadores na USP e Unifesp.
Em todos os laboratórios nos quais ensinou e pesquisou sempre acolheu estudantes e pesquisadores do Brasil e de outros países para treinamento e colaboração em pesquisas. Membro titular da Academia Brasileira de Ciências, Professor Emérito da Faculdade de Medicina da USP e Membro Emérito da SBPC, recebeu do governo brasileiro a Grã-Cruz da Ordem do Mérito Científico.
Michel Rabinovitch reside atualmente em São Paulo e continua interessado em todos os aspectos da vida que ocorrem no Brasil e no mundo.
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