João Adolfo Hansen (1942-2026), um crítico brasileiro

Por Guilherme Rodrigues, pós-doutorando na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

 20/02/2026 - Publicado há 5 meses
Guilherme Rodrigues – Foto: Arquivo pessoal
O Brasil tem uma tradição tão impressionante na crítica que chega a ser bastante curioso o questionamento sobre a existência ou não de uma “filosofia brasileira”. Como se, para que algo pudesse ser chamado assim e ser levado a sério por isso, o nome dos críticos e o vocabulário que usássemos necessariamente tivesse que estar em alemão ou em francês.

Quando escreveu seu clássico ensaio Um departamento francês de ultramar, Paulo Arantes já argumentava que, a despeito de a filosofia propriamente dita ocupar “um lugar subalterno na evolução do conjunto da cultura nacional”, a figura de um Bento Prado conseguia produzir uma crítica que transitava pelos conjuntos amplos do pensamento, como a literatura e a arte, mas também a arquitetura e, claro, suas leituras de Descartes e os modernos filósofos europeus.

Há uma originalidade própria ao nosso pensamento, que é muito vivo e que em seus melhores momentos torceu o cânone europeu em uma verdadeira disputa contra uma colonização da produção intelectual, algo que não é nada novo , diga-se de passagem — Machado de Assis já fazia isso no século 19, debatendo e ironizando as pretensões do decadentismo no Brasil; e na mesma época, Nísia Floresta trazia uma leitura original de Mary Woolstonecraft para o movimento de emancipação das mulheres entre nós.

O século 20 guardou, ainda, o aparecimento e circulação de grandes intelectuais públicos que escreveram ensaios e teses que movimentam até hoje debates sobre aspectos centrais que nos atravessam: Antonio Candido e sua tese do “sistema literário” com seu conceito de “redução estrutural”, Roberto Schwarz com as suas “ideias fora do lugar”, Marilena Chauí e suas leituras sobre o autoritarismo nacional, Lélia Gonzalez e sua “amefricanidade”. Isso para ficarmos apenas nestes exemplos, pois a lista seria extensa demais e poderia se adensar nas mais diversas áreas da intelectualidade.

Nos últimos cinquenta anos, a vitalidade de nosso pensamento intelectual trouxe ainda uma leva grande de críticos que conseguiram não somente introduzir conceitos novos para tempos novos, mas também de movimentar uma metacrítica à nossa crítica, reformulando nossas teses e tornando nossa visão mais clara sobre alguns assuntos distantes no passado. Entre os que estão neste lugar, certamente João Adolfo Hansen poderia ser chamado de um dos mais brilhantes que conhecemos.

Para quem teve a sorte de ser seu aluno, fala-se de sua gentileza, de suas aulas encantadoras e sua orientação precisa — algo que podemos vislumbrar no mais recente ensaio publicado em A terra é redonda, Arte da aula. As palestras que Hansen dava, das quais muitas estão disponíveis na internet, destacam como ele desenvolvia um discurso que era amplo no que diz respeito à gama de espectadores — ele falou, inclusive, para alunos do ensino básico há poucos anos atrás sobre a obra atribuída a Gregório de Matos —, o que demonstra uma capacidade impressionante de modulação ou, se quisermos usar um conceito caro a ele, de eficácia da aula que ele era capaz de ministrar.

Mas para além disso, é notável como tudo sobre o que Hansen discorria nessas palestras demonstrava uma precisão conceitual e uma profundidade argumentativa rara, próprias aos grandes críticos. Nada era leviano, mas, ao mesmo tempo, tudo parecia ser muito leve.

De seus textos mais marcantes, é fácil comentar sobre sua tese de doutorado, publicada em volume sob o nome de A sátira e o engenho, obra em que ele produziu uma verdadeira revolução nos estudos sobre o que se convencionou chamar de “Brasil colônia”. Ao trazer a materialidade histórica para a produção poética atribuída a um Gregório de Matos e Guerra, Hansen demonstrou como aquele nome compreende não a noção moderna de “autor” e “autoria”, mas que conceitos dessa natureza seriam projeções românticas e positivistas a um dado que se circunscrevia a outro complexo conceitual e intelectual, em que a retórica e a poética são muito mais significativas, num tempo em que sequer “literatura” como se entende hoje existia no Ocidente.

Junto à leitura de Alcir Pécora sobre os sermões de Antônio Vieira, e sua tese O teatro do sacramento, Hansen deslocou um debate que transitava ao redor da “nacionalidade” e do “nacionalismo” desses tempos anteriores ao fim do século 18 para a materialidade histórica e textual de um poeta que pouco antes tinha sido apropriado por Caetano Veloso no seu álbum Transa. Colocado nos termos do crítico, o engenho da poesia poderia ser entendido como um processo que se dava no interior do complexo de ideias do corpo místico português, e, assim, nos fez entender melhor o que foi essa história do Reino de Portugal e suas formas de dominação e subjugação deste território que eventualmente se chamaria de Brasil.

Neste sentido, a disputa intelectual de Hansen se colocou contra os anacronismos diversos que são legados desse romantismo e do positivismo do século 19, rejeitando, inclusive, o conceito de “barroco” como algo dessa natureza; ao mesmo tempo que ele passou ao largo de uma indefinição pouco crítica de abrir mão de trabalhar com a profundidade dos conceitos.

Mas o crítico não produziu apenas isso. Sua obra passa também por um trabalho notável sobre a épica luso-brasileira (que ele modestamente chamou de “notas”), uma introdução a Dante Alighieri, aulas e escritos sobre Machado de Assis, Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Drummond, entre outros.

Quer dizer: Hansen foi um crítico no melhor sentido de nossa tradição: amplo, profundo e plástico; mantendo uma profundidade intelectual aguda e muito original ao se defrontar com objetos próximos e distantes. Diante de modas intelectuais, que vão e vêm e nem sempre envelhecem muito bem, ele conseguiu produzir uma crítica que hoje pode ser entendida como indesviável para qualquer interessado em passar pelos objetos que lhe foram caros. Seus textos, suas aulas e suas palestras ficam hoje entre nós como esta obra que se destaca entre as melhores produções críticas que tivemos na nossa já vasta história da crítica.

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