
A vice-reitora da USP, Liedi Légi Bariani Bernucci, concedeu entrevista à revista Marie Claire, publicada no dia 11 de fevereiro, em que falou sobre os principais desafios da sua gestão, ao lado do reitor Aluisio Augusto Cotrim Segurado. Leia, a seguir, à íntegra do texto.
“Diziam que eu ocupava uma ‘vaga perdida'”
Engenheira civil e primeira mulher a dirigir a Poli, Liedi Bernucci assume a vice-reitoria da USP em um momento de tensão entre universidade e sociedade, relembra a misoginia enfrentada na formação e defende ações concretas para acelerar a presença feminina nas áreas de ciência e engenharia: ‘A ascensão é lenta porque muitas vezes somos impedidas’
Nos próximos quatro anos, a cadeira da vice-reitoria da Universidade de São Paulo (USP), a maior universidade da América Latina, será ocupada por Liedi Légi Bariani Bernucci. A engenheira civil assume o 2º maior posto da gestão ao lado do novo reitor, o professor e médico Aluísio Augusto Cotrim Segurado.
Em 92 anos de história, a professora é a quarta mulher a alcançar um posto na reitoria — depois das vice-reitoras Myriam Krasilchik (1994–1998) e Maria Arminda do Nascimento Arruda (2022 – 2026) e da reitora Suely Vilela (2005 – 2009), atual Secretária de Inovação e Desenvolvimento de Ribeirão Preto. Em 2018, Bernucci tornou-se a primeira mulher diretora da Escola Politécnica (Poli).
A dupla assume em um momento desafiador para a instituição, que reivindica a autonomia em meio a um sentimento maior de hostilidade em relação à ciência e às instituições de pesquisa por parte da sociedade civil — com quem a reitoria busca se aproximar.
“A sociedade precisa saber onde a universidade se encaixa e o que fez para ter orgulho dela”, diz Bernucci em entrevista a Marie Claire, em seu gabinete na Reitoria da USP. “O trabalho acadêmico impacta diretamente o cotidiano das pessoas, do transporte urbano aos sistemas de alerta de chuva, passando pelo controle de enchentes. Sem o conhecimento produzido na universidade, muitos desses problemas seriam ainda maiores.”
A engenheira entende que o distanciamento da sociedade civil é uma consequência da imagem de sucateamento do ensino superior no Brasil — principalmente das universidades públicas — e do crescimento de manifestações negacionistas, sobretudo durante a pandemia. Por outro lado, reconhece que “a comunidade científica precisa se comunicar melhor” e se preocupa com o discurso que, segundo ela, visa rechaçar a importância do ensino superior no país.
“Quando alguém se promove porque conseguiu enriquecer tendo abandonado a universidade, como se isso fosse um caminho para todos, é muito ruim. Você começa a colocar em xeque o papel da ciência e da universidade para a sociedade e [a importância] de formar pessoas que no futuro estarão servindo ao mundo do trabalho e portanto, a sociedade”, diz.

Quem é Liedi Bernucci
Liedi Bernucci é engenheira civil, mestre em Geotecnia e doutora em Engenharia de Transportes pela Escola Politécnica da USP, com parte da formação realizada no Instituto Federal de Tecnologia de Zurique, na Suíça. Livre-docente e professora titular desde 2006, foi chefe do Departamento de Engenharia de Transportes e presidiu o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) entre 2022 e 2024.
Também integra ou já fez parte de conselhos estratégicos ligados à ciência, inovação e indústria, como a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) e o Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares. Desde 2021, ocupa a Cadeira 9 da Academia Nacional de Engenharia (ANE).
É referência nas áreas de infraestrutura e transporte, e tem trabalhos publicados para capacitar a metodologia de ensino para as próximas geração de engenheiros. Em paralelo com a carreira acadêmica, coordenou projetos de pesquisa financiados por órgão, agências e empresas públicas e privadas. Mais recentemente, em 2021, esteve envolvida no Projeto Inspire, que produziu mais de mil ventiladores pulmonares junto da Marinha.
Bernucci nasceu em 1958 no município de Jarinu, interior de São Paulo, e foi estudante de escola pública. “Tenho uma família que nunca fez qualquer diferença eu ser mulher, o que me deu uma fortaleza interna”, diz. Quando tomou gosto pela engenharia, a família recebeu com naturalidade e a apoiou. “Reconheço que, infelizmente, não são todas que podem contar com essa sorte”.
Essa base a preparou para o ambiente majoritariamente masculino que encontraria no fim dos anos 1970, quando havia somente 4% de mulheres no curso de Engenharia Civil: “Foi um choque quando entrei numa sala de aula”.
Bernucci lembra de manifestações “muito grosseiras” de misoginia nos corredores da Poli — que, ela conta, vinham mais dos professores do que dos alunos. A que mais se recorda ouviu de um professor que chamava a ocupação de mulheres no curso de “vagas perdidas, como se fossem roubadas” e dizia que elas queriam fazer engenharia “só para arrumar um marido e depois dar o diploma para o filho fazer aviãozinho”. A violência a fortaleceu. “Por incrível que pareça, essas falas grosseiras despertavam em mim justamente o contrário. Falava que comigo seria diferente.”
Segundo a mais recente edição do Anuário Estatístico da USP, a graduação ainda registra leve maioria de alunos homens, mas elas já são maioria em cursos de pós-graduação: são 20.018 mulheres e 19.034 homens. O cenário geral melhorou, mas menos que o necessário nas áreas de STEM (Ciências, Tecnologia, Engenharia e Matemática), que seguem com baixa ocupação de mulheres. O problema é global: a Unesco aponta que só 35% dos estudantes da área são mulheres. No Brasil, esse percentual é menor, cerca de 20%.
“Na universidade, a desigualdade ainda existe: há menos docentes mulheres do que homens. A ascensão na carreira é lenta, muitas vezes porque elas são impedidas. Se deixarmos que isso aconteça ‘naturalmente’, a igualdade levará muitos anos para ser alcançada. Por isso, é preciso um trabalho cotidiano, em todas as frentes”, diz.
“Sempre que a capacidade de uma mulher é colocada em xeque, é preciso responder. Só acelerando esse processo, com oportunidades concretas, permite um avanço na direção da equidade.”
Em 1987, quando concluiu o mestrado sanduíche na Suíça com orientação do físico Franco Balduzzi — inspiração de Bernucci para adotar uma postura ética de diversidade – lembra que a situação não era melhor fora do país. “Naquela época, a Suíça era mais machista do que o Brasil. Sofri preconceitos por ser uma mulher latina, vinda de um país dito de ‘terceiro mundo’. Meu professor era sensível à causa e apoiava muito as mulheres”, lembra.
Ao voltar ao Brasil, assumiu o cargo de professora da Politécnica — e gradualmente viu outras mulheres sendo puxadas para cima, construindo um grupo de apoio que fez falta quando era ela própria uma estudante. “Quando volto ao meu departamento de origem hoje, vejo tantas professoras, tantas jovens, tantas alunas, trabalhando no que eu comecei. Foi uma responsabilidade enorme, mas gratificante. Deu frutos. Precisamos dizer às meninas que as portas estão abertas e que ali é o lugar dela.”
Além da criação de oportunidades para a ascensão de mulheres, o programa apresentado pela nova reitoria se compromete com a equidade de gênero, o combate à violência no campus e apoio à carreira de mulheres acadêmicas — com a retomada do Escritório USP Mulheres (que promove iniciativas de equidade e enfrentamento à violência de gênero), o fortalecimento de programas de acolhimento e a incorporação das perspectivas de gênero, raça e deficiência nas normas da universidade.
O assédio sexual sistemático, outra barreira que impede a permanência e ascensão de mulheres, é outra minúcia em vista. Uma apuração do Jornal do Campus, que ouviu alunas e professoras, atribui o alto número de subnotificação a dificuldade de fazer a denúncia por falta de acesso aos canais corretos, impunidade e medo de retaliação. Também há queixa de insuficiência das políticas institucionais, mesmo com a criação da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP), em 2022, e do Sistema USP de Acolhimento.
Bernucci diz que os canais existem e funcionam, mas “é preciso que as pessoas tenham confiança de que alguém vai se preocupar quando fizerem a denúncia”.
“Muitas vezes a vítima não tem materialidade. O assediador sabe se colocar de um jeito oculto ou dizer que foi interpretação. É preciso que as mulheres saibam que este canal é confiável e que mais pessoas comecem a analisar o comportamento do assediador. Um bom observador vai entender que não é algo tirado da cabeça de alguém”, afirma.
O futuro da ciência
Nos últimos dez anos, o Brasil vem registrando queda nas inscrições para vestibulares, tanto em instituições particulares como nas públicas. Entre 2019 e 2020, também houve queda no número de matrículas em universidades federais. Em 2023 houve uma nova redução, dessa vez no volume de inscrições e participação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem): apenas 2,67 milhões de estudantes realizaram todas as etapas da prova. Em 2016, esse número era de 5,8 milhões.
Isso preocupa Bernucci, que tem interesse principalmente na resolução de problemas graves e urgentes, como a contenção das mudanças climáticas. “O risco do descrédito na ciência é enorme. Vamos precisar de gente cada vez mais capacitada para enfrentar os problemas do planeta. Como se resolve esse problema sem ciência? Não é ‘Eureka!, descobri o que fazer’. Isso não existe.”
Por meio desse diálogo, a expectativa é, sobretudo, despertar novamente o interesse dos estudantes. Para isso, afirma que as dinâmicas de ensino precisam mudar, embora ainda exista resistência de parte dos professores em relação à geração Z e a outros pontos de modernização, como o uso ético da Inteligência Artificial (IA), por exemplo.
“Não reclamo da geração Z. Acho que ela me traz uma sobrevida, porque me obriga a me reinventar para estar em sala de aula e motivá-la. Preciso levar algo que interesse a esses jovens e que eles sintam que podem solucionar. Esse choque deveria ser fonte de motivação para os docentes. Há um saudosismo que pode ser positivo, mas ficar só na nostalgia impede de enxergar uma geração nova, desafiadora e motivante”, afirma.
























