
A obra reúne, em 276 páginas, reflexões que ajudam a compreender como determinados jovens conseguem transformar trajetórias marcadas por limitações estruturais em percursos de sucesso escolar. O livro traz ainda o prefácio Entre sociologia e psicologia, a provação do improvável, assinado por Jean-Yves Rochex, Professor Emérito da Universidade Paris 8, na França, e referência internacional no estudo da “relação com o saber”.
Segundo Débora, o livro é fruto de um percurso iniciado em seu doutorado, defendido em 2007. “Desde então, venho estudando trajetórias de sucesso escolar em meios populares, sendo esse sucesso representado pelo ingresso de estudantes dessa origem social em universidades públicas, notadamente em cursos de alta seletividade”, explica.

A professora aponta que as narrativas reunidas em estudos anteriores mostravam tanto dificuldades e sofrimentos para ingressar e permanecer na universidade pública, quanto alegrias, conquistas e possibilidades que esse acesso representa. No livro, a autora volta o olhar para um momento anterior: a experiência escolar que precede o vestibular.
“Meu objetivo foi conhecer o sentido dessa experiência escolar anterior à universidade para estudantes de meios populares que tivessem ingressado nela”, afirma. A motivação também envolveu aproximar o campo da psicologia de pesquisas sobre sucesso escolar, tradicionalmente concentradas na área da Sociologia da Educação.
Lembranças escolares
Entre os resultados da pesquisa, um dado chamou a atenção da autora. “As lembranças da experiência escolar anterior à universidade foram, de um modo geral, em número reduzido e eminentemente negativas”, destaca Débora.
A exceção ocorreu entre estudantes que cursaram escolas técnicas. Para esses jovens, ao contrário dos demais, as memórias eram muitas, positivas e narradas com fluidez. A diferença qualitativa nos relatos levou a autora a analisar esse contraste à luz da psicologia histórico-cultural, especialmente das contribuições do psicólogo russo Lev Vygotsky. Segundo ela, essa teoria afirma que o único bom ensino é aquele que promove o desenvolvimento humano, ou seja, aquele que transforma o indivíduo.
“Entendemos esse resultado da seguinte forma: o ensino que promove o desenvolvimento humano transforma o sujeito, marca sua história e é vivamente recordado. E o inverso também é verdadeiro”, explica.
Políticas públicas de educação
O estudo também mostra como políticas públicas atuam na produção de oportunidades educacionais, tanto de forma concreta quanto simbólica. Débora cita como exemplo o Programa de Inclusão Social da USP (Inclusp), primeira política afirmativa da Universidade.
Ela relata casos de estudantes que só consideraram prestar vestibular para uma universidade pública após terem contato com o programa. “Uma estudante contou que só cogitou prestar vestibular quando viu um cartaz do Inclusp pregado na porta da escola onde tinha estudado”, exemplifica.
Outro caso envolveu um jovem que só passou a considerar a Universidade após conversar com uma ex-colega de trabalho que estudava na USP. “Isso mostra a importância de ações como o antigo programa Embaixadores da USP, que levava estudantes universitários de volta às suas escolas de origem. Quando o estudante de escola pública vê alguém que ocupou a mesma posição social que ele e hoje está na universidade, isso produz possibilidade”, destaca.
O papel da escola na produção do sucesso escolar

Para a professora, a pesquisa reforça que a escola pública pode, sim, produzir sucesso escolar — desde que tenha condições adequadas de funcionamento. “Para conseguir ensinar, é preciso que haja infraestrutura adequada, melhores salários, formação continuada contextualizada no cotidiano docente e jornadas de trabalho menores, em uma única escola, com metade da carga horária dedicada à preparação das aulas”, explica.
Além disso, a autora reforça um princípio central da psicologia histórico-cultural: estudantes de meios populares aprendem e se desenvolvem plenamente quando têm acesso a um ensino de qualidade — aquele capaz de produzir transformação. Essa perspectiva ajuda a compreender um dos resultados mais marcantes do estudo.
Ao concluir a pesquisa, Débora identificou uma diferença significativa na vivacidade, na fluidez e na extensão das lembranças de estudantes que tiveram acesso a um ensino considerado de melhor qualidade. Contudo, a professora cita a mensagem que gostaria que se levasse da leitura do livro. “Todos os alunos têm capacidade para aprender. O acesso a uma educação de qualidade é transformador e, por isso, é um direito pelo qual todos nós devemos lutar”, conclui.
Acesso ao livro
O e-book está disponível para download gratuito neste link. Os interessados em adquirir a versão impressa também podem acessar a página de compra no site da editora.
*Estagiária sob supervisão de Rose Talamone


























