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Coletivos de poesia criam redes de acolhimento para mulheres sobreviventes do cárcere
Pesquisa apresentada à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP acompanhou as ações dos coletivos junto a mulheres que cumpriam pena em penitenciária na capital
Momento da saidinha – Foto: Cedida pela pesquisadora
Uma pesquisa de mestrado defendida na USP mostra como coletivos de poesia podem auxiliar mulheres sobreviventes do cárcere a reorganizar suas vidas após o encarceramento. De acordo com a pesquisadora Flavia Saiani, esses coletivos formam redes de acolhimento e cuidado que são de grande importância tanto para mulheres que estão dentro do sistema prisional quanto para as que já passaram por ele, pois oferecem apoio para lidar com dores muito específicas, em razão das questões de gênero e da maternidade.
“Como é sabido, essas mulheres recebem menos visitas, pois sempre é uma tia, uma mãe ou uma mulher da família que poderia estar indo visitá-la, mas está cuidando dos filhos dessa mulher. Depois de sua passagem pelo sistema prisional, fazer parte dessa acolhida é fundamental, porque são mulheres que entendem essas dores”, diz a pesquisadora.
Entre 2022 e 2024, ela acompanhou as ações do Sarau Asas Abertas, que usa a poesia como uma forma e apoio e o coletivo Por Nós, que age através da ação política junto, a mulheres que cumpriam pena na Penitenciária Feminina da Capital, na zona norte de São Paulo. Por meio dessas ações, Flavia teve a possibilidade de entrevistar mulheres que participaram dos saraus realizados dentro da prisão.
O trabalho resultou na dissertação Tecendo no fio da navalha: Mulheres sobreviventes do cárcere, cuidado e redes de apoio, que contou com a orientação da professora Vera da Silva Telles e foi apresentada em 2025 ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia (PPGS) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.
Flavia Saiani – Foto: Reprodução/Instagram
Saidinha e apoio
“Eu me interessei pelo tema das redes de acolhimento depois que conheci o Paulo D’Auria e a Cissa Lourenço, que, junto com o Sarau Asas Abertas, de Jaime Queiroga, compartilhavam experiências dentro das unidades femininas”, conta a pesquisadora. Os saraus que Flavia acompanhou na época não aconteciam dentro do sistema prisional, mas eram promovidos com sobreviventes do cárcere e também da Fundação Casa.
Para realizar a pesquisa, Flavia conta que ingressou no coletivo Por Nós e se ofereceu para ser voluntária nas saídas temporárias, popularmente conhecidas como saidinhas. É nesse momento da saidinha que o trabalho do coletivo é apresentado às mulheres presas. Muitas vezes é o começo de uma ajuda, visto que a maioria das mulheres sai desorientada da prisão, sem dinheiro para pegar um ônibus.
“Na hora da confusão da saidinha, a gente pega a cela e o pavilhão em que a menina está e depois mandamos uma carta dizendo o que a gente faz. Em outros momentos, o coletivo faz esse trabalho de dar dinheiro da passagem, ou ensinar como ela pega o ônibus, por exemplo”, declara a pesquisadora.
Foi também nas saidinhas que Flavia conseguiu entrevistar essas mulheres. Ela também entrevistou sobreviventes do cárcere durante outras ações dos coletivos. As entrevistas serviram para entender se os coletivos realmente conseguem ajudar as mulheres a ter uma vida digna após a prisão.
Café da manhã servido para as mulheres em saidinha. – Foto: Cedida pela pesquisadora
Poesia, cartilha e documento em dia
Segundo a pesquisadora, a principal contribuição das redes de acolhimento que usam a poesia no trabalho com as mulheres presas é mostrar para elas que é possível ter uma vida digna em sociedade. Isso passa por ajudá-las a recuperar a cidadania quando saem da prisão, algo com que as sobreviventes do cárcere têm grande dificuldade.
Nesse sentido, o coletivo Por Nós confeccionou uma cartilha para auxiliá-las em suas dificuldades diárias. Um desses problemas é a questão da pena de multa que, segundo Flavia, impede o pleno exercício da vida após elas deixarem a prisão.
“A pena de multa é quando, além da prisão, ela tem que pagar uma multa. Na dissertação, eu conto o caso de uma moça que estava precisando do comprovante da Justiça Eleitoral para renovar o vínculo com a faculdade mas, devido à falta de dinheiro para pagar a pena de multa, seu título foi cancelado. É assim que o Estado joga, de novo, as pessoas para a ilegalidade”, diz a pesquisadora.
Coletivo Por Nós e voluntários que acolhem mulheres que passaram pelo sistema prisional. – Foto: Cedida pela pesquisadora
Outra situação que ilustra a violência praticada pelo Estado é a das mulheres migrantes que estão em privação de liberdade, independentemente da nacionalidade delas. “As migrantes que estão presas, ou que passaram pelo sistema prisional, se referem a si mesmas como estrangeiras, um termo que reflete a falta de acolhimento do Estado brasileiro”, diz Flavia.
Diante de tantas dificuldades, os coletivos de poesia são espaços de apoio e cuidado. “A gente não romantiza, de jeito nenhum, a prisão. Mas tem uma fala da Gih Trajano, que passou pelo sistema carcerário e hoje é escritora, que diz que acha que ela não teria essa vida se ela não tivesse encontrado o Sarau Asas Abertas. As redes possibilitam para essas mulheres uma vida vivível e não apenas a luta pela sobrevivência”, afirma Flavia.
Mais informações: flaviasaiani1@gmail.com
Instagram do Coletivo Por Nós: @nos.por.noss
*Estagiária sob orientação de Moisés Dorado
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