O agente secreto: em busca de um Brasil afetuoso

Filme premiado no Globo de Ouro procura valores em um passado disputado

 14/01/2026 - Publicado há 6 meses

Texto: Luiz Prado

Arte: Daniela Gonçalves*

O cinema nacional é a nova seleção brasileira. Em tempos (prolongados) de resultados decepcionantes nos gramados, nossas atrizes, atores e diretores estão se tornando os depositários do orgulho nacional. Vibramos que vibramos com a campanha vitoriosa de Ainda estou aqui e Fernanda Torres nos principais festivais internacionais e agora, graças às premiações de O agente secreto e Wagner Moura na 83a edição do Globo de Ouro deste domingo, o Brasil começa a sonhar com um bicampeonato no Oscar.

A internet ficou congestionada de euforia. A expressão “o Brasil faz história” correu mídias sociais e portais de notícias. Motivos não faltaram. Essa foi a primeira vez que vencemos em duas categorias da mesma edição do Globo de Ouro. Moura consagrou-se como o primeiro brasileiro a ganhar o prêmio de melhor ator em filme de drama (ele já havia sido indicado em 2016, como melhor ator em série dramática por Narcos, mas quem ficou com o prêmio foi John Hamm, de Mad Men). O agente secreto, por sua vez, se tornou a primeira produção nacional a levar o prêmio de melhor filme em língua não inglesa desde Central do Brasil, vitorioso há 27 anos. (Antes dele, Orfeu Negro conquistou o título em 1960. Mas, apesar de rodado no Brasil e falado em português, entrou na disputa representando a França, coprodutora do filme ao lado do Brasil e da Itália.) Só faltou o prêmio de melhor filme dramático, que ficou com Hamnet.

Entre as comemorações, teve publicação do presidente Lula (“O cinema brasileiro mais uma vez no topo do mundo!”), nota oficial do Ministério de Relações Exteriores (MRE) destacando a “excelência do cinema brasileiro”, mensagem do ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos (“O Globo de Ouro premiou não apenas um ator extraordinário, mas um brasileiro que nunca teve medo de estar do lado certo.”) e do prefeito do Recife, João Campos (“É Recife no topo do cinema mundial!”), além de mais um sem-número de manifestações de um sem-número de políticos da esquerda e da classe artística, como o ator e amigo Lázaro Ramos (“‘O baiano tem o molho’ e agora tem o Golden Globe”) e a atriz e também vencedora do Globo de Ouro Fernanda Torres (“Parabéns santos guerreiros Waguinho e Kleber!”).

A imprensa também fez sua festa, reproduzindo em textos e imagens os discursos do diretor Kleber Mendonça Filho e de Wagner Moura na cerimônia realizada no hotel Beverly Hilton, em Los Angeles. Mostraram o samba pós-premiação de Moura, analisaram os sapatos que o ator usou na festa e investigaram os presentes milionários entregues aos vencedores. Listaram ainda os mais de 50 prêmios acumulados por O agente secreto ao redor do planeta, que começaram com a vitória em maio no Festival de Cannes, nas categorias de melhor ator e melhor diretor, acompanhados dos prêmios paralelos da Federação Internacional de Críticos de Cinema (FIPRESCI) e da Associação Francesa de Cinemas de Arte (AFCAE).

E os jornais ainda precisaram explicar o orçamento de 27 milhões de reais do filme, quando as mídias sociais começaram a discutir (mais uma vez) a Lei Rouanet. Não, O agente secreto não recebeu um centavo vindo daí, já que a lei não contempla longas-metragens. Parte do seu financiamento, R$ 7,5 milhões, veio de um edital do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), ligado à Agência Nacional do Cinema (Ancine), enquanto R$ 14 milhões correspondem a investimentos estrangeiros da França, Alemanha e Holanda, coprodutores do filme, e R$ 5,5 milhões vieram da iniciativa privada.

Houve quem criticasse, claro, já que ainda estamos em tempos de polarização. Mas os ofendidos preferiram, em geral, o silêncio. Essa espécie de dificuldade ou pudor em falar mal tem a ver justamente com uma das maiores forças de O agente secreto como produto cinematográfico, para além do seu papel como troféu que trouxemos para casa. Estou falando do trabalho notável de recriação afetiva do Brasil dos anos 1970 que o filme realiza.

Um resumo sem estragos para quem ainda não assistiu ao longa: Wagner Moura interpreta um professor universitário que, em 1977, está em Recife tentando escapar do país com o filho, fugindo de uma perseguição movida contra ele por um industrial paulista. O contexto são os anos Geisel da ditadura militar, o período da abertura lenta, segura e gradual que, apesar do slogan, não representava tanta abertura e segurança assim. Mas, apesar do espectro das fardas e dos coturnos rondar a narrativa, é um outro aspecto desse Brasil que é sublinhado na tela.

Mendonça coloca em cena um país saborosamente nostálgico, organizando figurinos, objetos, espaços, luzes e sons para materializar um tempo que restou apenas nas fotografias, filmes e memórias. Já na abertura somos deslumbrados por um Fusca pilotado por Moura, camisa aberta até o meio do peito, parado em um posto de gasolina abandonado no tempo e no espaço. Depois, entramos em contato com uma cidade transpirando carnaval popular, que acontece nas ruas e nos quintais, com cervejas de garrafa, fantasias improvisadas e libido sem neuras. E tudo isso rodeado por orelhões de ficha, máquinas de escrever e cinemas de rua.

Não é tanto a fidelidade ao “real” de 1977 que importa, mas o olhar afetuoso que O agente secreto constrói para a época. Recriação mais ou menos exata, com mais ou menos liberdades poéticas, é como se o filme pedisse nossa atenção para um país de afetos, acolhida, bom humor e esperanças – e não para as fabulações de disciplina, ordem e autoridade que os saudosos do regime militar tentam propagar. Mendonça disputa a memória sem escamotear o horror – ele está lá, os primeiros minutos no posto de gasolina deixam isso muito claro –, mas afirmando que o Brasil foi mais do que a brutalidade e que, por isso, pode passar bem sem ela. Pode ser um país feito pelas pessoas e não por um Estado repressor.

Em seu discurso de agradecimento, Moura disse que o filme é sobre memória, sua falta e um trauma geracional. E completou sugerindo que, se traumas podem ser passados entre gerações, valores também podem. A partir disso, O agente secreto pode ser compreendido como a tentativa de desenterrar novas narrativas dos escombros dos anos de chumbo. De deixar um outro país como legado, onde o medo, a força e a perseguição dão lugar à solidariedade e à justiça.

Nesse sentido, é bastante significativo que um dos momentos-chave do filme seja uma perseguição entre os próprios agentes do terror, que acabam se virando uns contra os outros e se autodestruindo. Veja a violência deles, a narrativa parece dizer: ela mesma é responsável pela derrocada dos opressores.

O agente secreto do título não está explícito. Pode ser entendido, em um primeiro momento, como o próprio Estado controlado pelos militares, que não precisam ocupar a todo tempo a linha de frente para disseminar o medo e a repressão. Quem fala sobre isso é o professor Rubens Rewald, chefe do Departamento de Audiovisual da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. “O filme mostra como a ditadura acaba exercendo influência através de pequenos poderes e, de uma certa maneira, vai apodrecendo toda a estrutura social”, analisa Rewald, em entrevista para o Jornal da USP. “Tudo estava contaminado pela ditadura.”

Rubens Arnaldo Rewald – Foto: Wikimedia Commons

É o que se vê na conduta do delegado de polícia ou nos conflitos envolvendo as verbas de pesquisa universitária, por exemplo. Uma abordagem pouco usual em filmes sobre o período, conforme aponta o professor, mais focados nas perseguições, violências e torturas cometidas pelo regime. “É uma forma muito sutil e inteligente de lidar com aquela época”, analisa. “E mais do que isso, mostra claramente que não foi só uma ditadura militar, mas empresarial-militar, já que um dos vilões do filme é justamente um grande empresário.”

Mas, por outro lado, também seria possível ver no povo que se ajuda, se esforça, faz o carnaval e toma sua cachaça esse agente silencioso, mas potente. Menos secreto quando percebemos o Brasil unido na comemoração do Globo de Ouro e na torcida rumo ao Oscar. No final das contas, seja “de direita” ou “de esquerda”, fica difícil criticar um filme com essa tese.

Por isso, não é apenas pelo acúmulo de prêmios que esse é um momento como nenhum outro para o cinema brasileiro. Ainda estou aqui nos fez acreditar e nos trouxe as premiações de Fernanda Torres (melhor atriz em Cannes e no Globo de Ouro) e o Oscar de melhor filme internacional. Mas também, em comum com O agente secreto, nos apresentou um projeto de história, de país e de sociedade. Os dois filmes colocam em cena, sob diferentes enfoques, a ditadura militar. Ambos, contudo, vão além da denúncia e do resgate da memória, se sustentam por suas próprias qualidades enquanto cinema e ainda oferecem perspectivas aos nossos impasses atuais.

O agente secreto segue agora em busca de uma vaga para o Oscar, cujos indicados serão revelados em 22 de janeiro. A expectativa é grande. Apesar dos votantes não serem os mesmos do Globo de Ouro – aqui a lista é composta de jornalistas e críticos, na academia, por profissionais da indústria – as vitórias do dia 11 chamam atenção para o filme e projetam sua campanha. Revistas especializadas, sites de apostas e influenciadores digitais discutem as probabilidades do longa e comparam sua campanha nos festivais com a dos concorrentes. É nossa nova Copa do Mundo.

Uma outra premiação provavelmente abrirá mais portas não apenas para Mendonça e Moura, mas para o cinema brasileiro em geral. Colocará o filme por mais tempo nos cinemas, chamará atenção do público para nossas produções e pode despertar a paixão de novos cineastas. Rewald lembra que O agente secreto já ia bem nas bilheterias, mas passou a esgotar sessões após o Globo de Ouro.

“Isso é muito importante para a valorização do cinema brasileiro, que muitas vezes foi nosso patinho feio”, comenta o professor. “Existem produções ruins, mas há um bom tempo temos uma boa safra de filmes. Houve uma profissionalização do cinema nacional em todos os sentidos. Com a premiação, as pessoas passam a olhar com mais atenção para nossos filmes.”

Além disso, Rewald vê importância institucional na consagração de O agente secreto. Ele recorda que uma batalha vem acontecendo em Brasília ao redor da regulamentação dos serviços de streaming, ou vídeo sob demanda (VoD), com cenário pouco favorável aos realizadores brasileiros. O Projeto de Lei 8.889/17 aprovado na Câmara dos Deputados prevê que plataformas como Netflix e Amazon Prime destinem de 0,1% a 4% de sua receita bruta anual à Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional (Condecine). O governo federal, por sua vez, defende uma alíquota unificada de 3%. Uma ou outra, trata-se de um valor irrisório, segundo Rewald. Em países europeus, por exemplo, esse número chega a 20%.

“Isso é importante para dar longa vida ao cinema brasileiro”, defende o professor. Premiações como as de domingo demonstram a necessidade de um cinema forte e com investimentos. “É importante que as pessoas percebam que não é só O agente secreto. Cinema não se faz só de um filme, mas de cinematografia”, afirma Rewald. “O audiovisual brasileiro está em um patamar de maturidade, então prêmios como esse não são uma grande surpresa, apenas atestam esse estágio.”

Todos queremos o Oscar, não há problema nisso. Autoestima nacional, aumento de público e força institucional são recompensas muito bem-vindas. Mas, pensando na mensagem do próprio filme, quiçá o reconhecimento internacional possa nos trazer ainda mais. Que os aplausos de fora nos ajudem a entender, como sociedade, que existe um caminho menos truculento e mais solidário. Um caminho com menos pirraça e mais molho.

*Estagiária sob orientação de Moisés Dorado


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