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Das ideias tropicalistas à filosofia, revista ajuda a pensar um Brasil interdisciplinar
A nova edição da Revista do Instituto de Estudos Brasileiros da USP homenageia Tom Zé e reúne perspectivas acadêmicas sobre o Brasil
Foto: Capa da Revista IEB nº 92
A edição nº 92 da Revista do Instituto de Estudos Brasileiros (RIEB) foi lançada em dezembro de 2025, com artigos, textos de crítica e discursos. O objetivo da revista é reunir pesquisas e reflexões sobre a sociedade brasileira a partir de diferentes perspectivas acadêmicas, em uma articulação de áreas do conhecimento. Com mais de 30 autores em 350 páginas de colaboração, a nova edição da revista pode ser acessada gratuitamente no Portal de Revistas da USP.
A perspectiva interdisciplinar toma como eixo simbólico a obra de Tom Zé, homenageado pelo IEB em 2025. Os artigos da edição são organizados em três núcleos temáticos: história social, artes visuais do século 20 e modernismo literário no Brasil. O editorial, assinado pelos docentes do IEB Ana Paula Cavalcanti Simioni, Dulcília Schroeder Buitoni e Marcos Antonio de Moraes, também editores dos artigos, apresenta a articulação entre os temas abordados e o “espírito crítico de Tom Zé, inspirador”, que “encontra-se na base dos artigos reunidos nesta edição”. Entre as temáticas estão a descolonização do saber, formação musical, heranças indígenas e africanas e arte engajada.
Tom Zé posa com a placa de homenagem ao lado de (da esquerda para a direita) Luciana Suarez Galvão, Tiganá Santana, Marli Quadros Leite e Monica Duarte Dantas – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
O Brasil em análise
O artigo A história de Blumenau/SC contada pelas roupas de museus, por exemplo, analisa as narrativas construídas pelos museus de Blumenau a partir das estratégias de exibição de vestuário. As autoras Laiana Pereira da Silveira, Francisca Ferreira Michelon e Jossana Peil Coelho investigam a apresentação das peças e a contribuição para a história da cidade. Foi feita uma análise comparativa entre quatro museus de Blumenau, com base em pesquisas bibliográficas e de campo, observação e registros fotográficos.
As autoras concluem que personagens importantes para a cidade são identificados pelo vestuário exposto, que a roupa é eficaz nas narrativas históricas por ter forte potência memorial e que pode-se observar a contribuição da indústria têxtil no desenvolvimento da economia local. “A roupa é um objeto como os demais expostos nos museus visitados, mas seu discurso, suas potencialidades e suas possibilidades de expressar a identidade, valores e costumes de quem a usa são mais diretas sobre o sujeito que representa, sempre social e histórico.”
Já a estrutura do artigo O mundo bantu em diáspora no Brasil: saberes, estratégias e organizações desde a África, de Elisabete de Fátima Farias Silva e Antonio Filogenio de Paula Junior, segue os quatro movimentos solares da cosmologia Bantu-Kongo — kala, tukula, luvemba e musoni —, que organizam a reflexão e dialogam com a filosofia Ubuntu. Com uma perspectiva afrocêntrica, comprometida com a educação antirracista e a descolonização da academia, os autores, por meio do “universo cultural” bantu, pensam “a partir de epistemologias que chegam ao Brasil e aqui se constituem em vetores de reorganização da humanidade afrodiaspórica”.
A biblioteca do IEB mantém, hoje, a coleção de livros de Mário de Andrade, que inclui obras do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900), editadas nos anos 1910 e 1920, em tradução francesa. O artigo Nietzsche na escrivaninha da casa da rua Lopes Chaves, de Tiago Hermano Breunig, propôs um acompanhamento analítico da leitura feita pelo poeta brasileiro, para “situar Mário de Andrade, como leitor e escritor, no contexto da recepção de Nietzsche no Brasil.” Um obstáculo para a pesquisa foi a ausência de notas marginais em alguns dos livros, que não apresentavam sinais. Nas obras em que essa análise foi possível, o autor do artigo observa as anotações e passagens destacadas por Andrade.
O artigo Arte e ativismo feminista em Regina Veiga e Laura Rodig (Brasil e Chile, início do século 20) analisa a relação entre produção artística e ativismo feminista, com base nas trajetórias da artista plástica brasileira Regina Veiga e de sua colega chilena Laura Rodig, ambas envolvidas com o movimento sufragista de seus respectivos países. O texto, amparado por referenciais teóricos de Howard Becker, Pierre Bourdieu, Aracy Amaral e Griselda Pollock, argumenta que o engajamento político das artistas não implicou perda de autonomia artística, mas exigiu processos de conciliação entre criação estética e militância feminista. O artigo, escrito por Thaís Batista Rosa Moreira, contribui para a compreensão da militância sufragista latino-americana como um fenômeno também visual, uma vez que aborda “as características coletivas e compartilhadas entre o meio artístico e a iconografia engajada feminista”.
O texto Os nomes de origem indígena dos brasileiros no século 20, de Eduardo de Almeida Navarro, analisa o uso de nomes de origem ameríndia, especialmente tupi, que a partir do final do século 20 ocupam lugar secundário na antroponímia — estudo linguístico dos nomes próprios de pessoas — brasileira. No artigo, Navarro explica o fenômeno em que os antropônimos de origem tupi perderam lugar para nomes provenientes dos meios de comunicação de massa, “que criam modismos que podem mascarar a real influência de outras motivações antroponímicas, tais como valorização de identidades culturais, surgimento de tendências indianistas na sociedade brasileira, ecologismo etc.”
O autor aponta que os nomes mais populares registrados no Brasil são os de origem bíblica, os de matrizes românicas e germânicas, e os de origem inglesa — como Daiane, Jefferson e Caroline. Segundo Navarro, o crescimento dos últimos está atribuído à influência norte-americana no mundo pós-guerra.
Leia abaixo a reportagem sobre a homenagem do IEB a Tom Zé, com entrevista do músico ao Jornal da USP
Criação
O primeiro texto na seção “Criação” é a transcrição da fala de Tom Zé feita na cerimônia do IEB que o homenageou, em junho de 2025, na Cidade Universitária. Na ocasião, o músico afirmou: “Cada acervo guardado é uma célula do corpo de nossa raça. Negra, loura, mulata, asiática, branca. Inútil pôr em ordem alfabética. Não somos ordem alfabética, somos notas de uma partitura de ritmos, uma composição registrada a cada minuto.”
Há também o discurso de Luciana Suarez Galvão, vice-diretora do IEB, proferido na mesma ocasião, em que a professora afirma, sobre o caráter da obra de Tom Zé: “Construções que interpretam o Brasil, o povo brasileiro, o sentimento presente em nosso cotidiano, o sofrimento que atravessa a desigualdade social. Verdadeiros estudos brasileiros são seus discos.”
Guilherme Grandi, docente da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA-USP), disse, na cerimônia: “Seu criativo e meticuloso trabalho musical é um verdadeiro patrimônio da cultura imaterial do Brasil. Ao filho mais dileto do tropicalismo, agradecemos imensamente.”
O artigo Estudando Tom Zé, também presente na revista, sintetiza as duas dissertações feitas sobre o músico no Programa de Pós-Graduação em Culturas e Identidades Brasileiras do IEB, por Leilor Miranda Soares, Patrícia Anette Schroeder Gonçalves e Walter Garcia. “Nas duas sínteses, são discutidas questões como a relação de Tom Zé com a Tropicália, alguns de seus recursos composicionais e performáticos e o lugar que o artista ocupou, ao longo do tempo, no mercado hegemônico.” Apesar dos traços em comum, também há divergências. Os autores “acabam por defender dois pontos de vista que divergem entre si quando abordam o lugar de Tom Zé no mercado hegemônico”.
O ensaio Conservação em contexto: valores, riscos e decisões analisa a prática de conservação e restauro no laboratório do IEB. As autoras, Alice Almeida Gontijo e Mônica Aparecida Guilherme da Silva Bento, expõem como, mais do que restaurar documentos e obras, o laboratório restaura vínculos — entre “passado e presente, entre matéria e memória, entre técnica e pensamento”. O acervo em papel é dividido em três categorias: documentos do arquivo, obras sobre papel da coleção de Artes Visuais e livros da biblioteca. Cada uma requer diferentes abordagens, mas um agente comum é o tempo, que as autoras definem como “coautor”: “Intervir é editar sua passagem sem silenciar a voz material do objeto”, afirmam elas em seu artigo.
O acesso à revista é gratuito, a partir do Portal de Revistas da USP.
*Estagiária sob supervisão de Marcello Rollemberg
**Estagiária sob orientação de Moisés Dorado
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