

É nesse momento que a língua começa a fazer uma pequena manobra. Nos últimos anos, passou a circular com força uma construção que chama atenção: “inaugurar com”. O verbo deixa de anunciar apenas o começo e passa a trazer o começo já “turbinado”, acompanhado de um dado, de emoção ou de uma antecipação avaliativa. Basta percorrer chamadas como essas para notar o movimento:
O ParkJacarepaguá tem 39 mil m² de área bruta locável total e inaugurou com 95% de sua área locada e com mais de 230 lojas em seu mix.
O futsal feminino inaugurou com emoção na 21ª Olimpíada Nacional do Judiciário Federal (ONFJ).
O Fort Dom Bosco inaugurou com animação, economia e ofertas imperdíveis!
Esses usos não passaram despercebidos pelo jornalista Paulo Hebmüller, ao notar que algo estava mudando no comportamento do verbo. Não era ruído, nem exceção: era um novo padrão em formação.
O papel decisivo do “com”
O que está em jogo nesse novo uso não é apenas uma escolha estilística, mas uma reorganização do próprio sentido verbal. Em vez de focalizar apenas o ato inaugural – o corte da fita, o momento simbólico – inaugurar passa a destacar o estado inicial do evento. Nesse deslocamento, a preposição com é decisiva: é ela que puxa para dentro do verbo uma informação adicional e a transforma em parte constitutiva do começo. Ao introduzir dados, emoções ou avaliações (com 95% da área locada, com emoção, com animação, economia e ofertas imperdíveis), com deixa de ser um elo sintático e passa a funcionar como um operador de qualificação inaugural.
Não é só que o shopping inaugurou; ele inaugurou já com alta taxa de ocupação. Não é apenas que a competição começou; ela começou já marcada por emoção. Não é apenas que um mercado atacadista inaugurou; ele inaugurou já com animação, economia e ofertas imperdíveis. Esse uso ajuda a entender como construímos mentalmente os acontecimentos. Não basta dizer que algo começou; é preciso dizer que começou já de um certo modo. A ideia de largada qualificada aponta justamente para isso: o início deixa de ser supostamente neutro e passa a ser apresentado como um estado inicial marcado por números, emoção, “ofertas imperdíveis”. A preposição “com” cumpre papel central nesse processo, ao incorporar essas informações ao próprio começo do evento e orientar a leitura desde a primeira linha. Esse uso dialoga diretamente com a lógica do jornalismo contemporâneo, que valoriza a informação de impacto logo no início do texto, numa época marcada pela chamada “economia da atenção”.
Nesse movimento, inaugurar se aproxima de verbos como estrear ou começar, mas sem perder completamente sua aura solene. O resultado é um verbo “híbrido”: mantém o peso simbólico do início, mas incorpora a lógica informativa do presente.
A gramática em tempo real
Esse novo sentido parece emergir dos usos, sobretudo em domínios discursivos como o jornalístico, o institucional e o esportivo, nos quais o início de um evento já é apresentado sob algum enquadramento avaliativo. Nesses contextos, o começo já é sistematicamente enquadrado por números, expectativas e avaliações, o que favorece a consolidação de construções que integram essas informações ao próprio valor do verbo.
Perceber esse inaugurar com é perceber a língua em funcionamento pleno, ajustando-se às formas contemporâneas de narrar acontecimentos. A língua antecipa análises, testa sentidos e só depois chega aos dicionários.
Não se trata de erro, empobrecimento ou modismo vazio. Trata-se de expansão semântica, de um verbo que passa a dar conta de uma nova necessidade expressiva: dizer que algo começou – e começou já de um certo modo. É assim, discretamente, que a gramática também vai sendo inaugurada todos os dias.
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