Inadimplência bate recorde e atinge principalmente pequenas empresas em São Paulo

Dados da Serasa Experian mostram 8,4 milhões de CNPJs negativados no País; Paulo Feldmann aponta juros altos, concorrência e falta de apoio como principais causas

 15/12/2025 - Publicado há 8 meses
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Em São Paulo, a competição é enorme para uma grande empresa e dificílima para a pequena e a média – Foto: cookie_studio- Freepik
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Dados da Serasa Experian apontam que a Região Sudeste registrou mais de 4 milhões e meio de empresas inadimplentes no mês de setembro. O resultado foi um recorde histórico no número de CNPJs negativados, chegando a 8,4 milhões. O valor das dívidas ultrapassa R$ 100 bilhões. Paulo Feldman, professor de economia do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária da USP, explica que o problema afeta principalmente as micros e pequenas empresas. “Aqui em São Paulo o nível de informação das pequenas empresas, que são as que mais sofrem, é maior do que no resto do Brasil. Por estarem bem-informadas, as pequenas empresas sabem que a taxa de juros com os bancos é absolutamente extorsiva no Brasil. Então elas evitam contrair novos empréstimos e preferem ficar inadimplentes, porque sabem que, se contraírem um novo empréstimo, essa pessoa vai piorar. E isso é algo que predomina em São Paulo.”

Outro aspecto que predomina em São Paulo diz respeito à exposição. Quem sofre mais com a inadimplência são as pequenas e as microempresas, destaca o professor. “No Estado de São Paulo, elas estão muito expostas à competição com uma grande, que é cada vez mais difícil. Nos outros Estados do Brasil, há cidades, muitas, onde a pequena empresa praticamente não tem competição. Ela domina aquele mercado. Até em supermercados grandes existem redes. Então a pequena empresa consegue sobreviver, e bem, nas pequenas cidades e nos Estados mais pobres.”

Paulo Feldmann – Foto: FEA-USP

O professor lembra que, em São Paulo, a competição é enorme para uma grande empresa e dificílima para a pequena e a média e dá um exemplo. “O e-commerce, comércio eletrônico, simplesmente destruiu as pequenas empresas. Basta você caminhar pelas ruas de São Paulo: você vê de cada três lojas, duas fechadas. Isso é resultado de que a pequena empresa do comércio, o setor de serviços, não conseguiu competir com o comércio eletrônico. Então é um problema muito sério. Ou ela quebra, ou ela contrai um empréstimo que é uma loucura, ou ela fica inadimplente.”

Mudar a legislação pode ser a saída

O economista destaca que, para reverter essa situação, é preciso mudar a legislação no País. As pequenas empresas, em outros países, conseguem competir com a grande, porque existe uma coisa chamada consórcio de pequenas empresas. As pequenas empresas se juntam e então elas adquirem o porte que lhes permite competir com a grande. Sendo que, em países como a Itália, Alemanha e Japão, esses consórcios ganham uma série de isenções fiscais dos governos. Pagam menos impostos e com isso conseguem ter uma vantagem adicional em relação às grandes. “É uma coisa que acontece no mundo inteiro, quer dizer, prestigiar uma pequena empresa para que ela possa competir com a grande. A pequena empresa é a grande geradora de emprego em qualquer país, mas no Brasil não há nada que lhe dê suporte,” afirma o especialista.

 No Brasil, 80% dos empregos formais hoje estão na pequena empresa, mas é esta que está quebrando. “Então, o Brasil, infelizmente, não tem medidas de proteção à pequena empresa. É uma coisa impressionante isso, porque praticamente não existe nada no Brasil, e até nos nossos vizinhos da América do Sul a situação da pequena empresa é melhor.”

O professor Feldman destaca por que as pequenas e microempresas estão enfrentando essa situação e o que deveria ser feito. É decorrente de que o ambiente de São Paulo é hostil, é muito hostil. E elas têm que enfrentar uma competição difícil. “Realmente, isso é algo que teria que ser examinado pelas nossas autoridades e pelos nossos governantes. E deveria assim começar a estabelecer uma legislação que apoiasse a pequena empresa. É isso que falta.” O economista dá um conselho para que o pequeno e o microempresário não caiam em uma situação de inadimplência como muitos estão enfrentando: “Que ele, de maneira nenhuma, levante empréstimo, porque levantar empréstimos é a antessala da quebradeira, da falência”.


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