
Especialista da USP defende que a declaração de emergência climática permanente no Rio Grande do Sul — um Projeto de Lei em discussão no Estado — pode ser uma forma de romper com o chamado ciclo de catástrofes anuais. O Estado viveu, em 2024 e 2025, episódios climáticos extremos que deixaram um rastro de destruição, luto e insegurança. Para o geógrafo Wagner Costa Ribeiro, professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, o Estado já pode ser considerado uma zona de sacrifício — termo utilizado para definir áreas onde a população sofre, de forma recorrente, os impactos mais severos das mudanças climáticas.
“Nos anos de 2023, 2024 e 2025 tivemos chuvas de alta intensidade, frequentemente na mesma época do ano. Isso pode indicar uma anomalia climática”, avalia o professor. Para ele, a recorrência e a força dos eventos extremos colocam o Estado em um novo patamar de vulnerabilidade ambiental. Ele explica que a situação tem relação com uma mudança na dinâmica climática de toda a América do Sul: “Estamos assistindo à mudança da direção da umidade amazônica, que está chegando com muita intensidade ao Rio Grande do Sul. Isso tem ação direta”.
Do improviso à prevenção
A proposta vem sendo discutida por parlamentares gaúchos, como os deputados Matheus Gomes e Luciana Genro (PSOL). A medida, segundo Ribeiro, permitiria uma mudança de postura: da resposta emergencial repetida ano após ano para o planejamento de ações estruturais. “Não dá mais para reconstruir a infraestrutura todo ano, sabendo que a chuva virá e destruirá novamente. Precisamos de uma ação de longo prazo.” O especialista ressalta que a emergência climática exige não apenas obras físicas, mas também reorganização territorial e envolvimento das comunidades locais.
Ele comenta ainda sobre o constante monitoramento do Lago Guaíba feito por pesquisadores junto à Defesa Civil. A cada chuva forte, cresce a preocupação da população com os riscos da permanência nos territórios: “Pelo menos se evitam as mortes, mas o prejuízo material recorrente deixa claro que se trata de uma zona de sacrifício. Isso não pode continuar. Temos que pensar não apenas em reparar, mas em evitar que esse dano afete essas pessoas com tanta frequência”. Ribeiro também alerta para os impactos psicológicos das enchentes: “Quem vive no território, observando constantemente ruínas e destroços, também sofre no modo como vê o mundo”.
Soluções que considerem o território
O professor critica a ineficiência de obras de contenção como os diques, que não foram suficientes para evitar a tragédia. “Eles acabaram agravando a cheia do Guaíba, porque se trata de uma questão geográfica. Há um nível de base, o ponto a partir do qual a água se acumula. Até que toda essa água escoe, leva tempo. Por isso, mesmo após a enchente, a água permaneceu por um período muito longo.”
Para ele, não há mais tempo a perder. “Não será possível mudar a dinâmica atmosférica. Infelizmente, o processo já está em curso. Vamos ter que ajustar o território e a forma como as pessoas vivem nele.”
O professor conclui: “A culpa não é da chuva. A chuva forte é esperada. O que está mudando é a intensidade e a velocidade com que ela chega”. A proposta de emergência climática permanente, além de responder à realidade gaúcha, pode servir de modelo para outras regiões marcadas por desastres recorrentes. “Essa é uma ideia que surge com muita força e que pode, sim, ser aplicada, respeitadas as especificidades geográficas, a outras situações no Brasil.”
Jornal da USP no Ar
Jornal da USP no Ar no ar veiculado pela Rede USP de Rádio, de segunda a sexta-feira: 1ª edição das 7h30 às 9h, com apresentação de Roxane Ré, e demais edições às 12h40, 15h, 16h40 e às 18h. Em Ribeirão Preto, a edição regional vai ao ar das 12 às 12h30, com apresentação de Mel Vieira e Ferraz Junior. Você pode sintonizar a Rádio USP em São Paulo FM 93.7, em Ribeirão Preto FM 107.9, pela internet em www.jornal.usp.br ou pelo aplicativo do Jornal da USP no celular.


























