Diagnóstico prévio de vírus que representam ameaças globais, como estratégia, antes que cheguem ao Brasil

“Queremos estar prontos antes da crise”, diz professor Amaro Nunes Duarte Neto, padronizando testes testes para vírus perigosos que ainda não circulam no País

 15/07/2025 - Publicado há 1 ano

Texto: Redação

Arte: Daniela Gonçalves*

Estrutura do vírus da raiva - Foto: Domínio Público/CDC via Wikimedia Commons

O Instituto de Medicina Tropical da Faculdade de Medicina da USP desenvolve o projeto Prepare, iniciativa pioneira para capacitar o laboratório de Patologia no diagnóstico rápido de agentes infecciosos com potencial epidêmico. O professor Amaro Nunes Duarte Neto explica que o projeto surge como resposta aos desafios enfrentados durante a pandemia de covid-19 e busca criar protocolos prontos para doenças que ainda não circulam no Brasil, mas representam ameaças globais. “A ideia desse projeto é adquirirmos esses reagentes e padronizar esse diagnóstico antes que o evento ocorra, esperamos que não ocorra, não? Mas, caso ocorra, o laboratório já estaria preparado para o diagnóstico rápido, dando uma resposta rápida à saúde pública”, comenta o professor.

Diagnóstico prévio como estratégia

Inspirado na lista de patógenos prioritários da OMS – que inclui vírus como ebola, marburg, nipah e variantes do sar-cov – o Prepare trabalha na padronização de técnicas de análise tecidual antes da eventual chegada desses agentes ao País. A abordagem combina microscopia tradicional com métodos imuno-histoquímicos avançados, permitindo não apenas identificar o patógeno, mas também entender seus efeitos nos tecidos humanos, informação crucial para orientar tratamentos.

Amaro Nunes Duarte Neto - Foto: Arquivo pessoal

A experiência com a covid-19 evidenciou gargalos críticos: atrasos na importação de reagentes, dificuldades de biossegurança e demora na confirmação de casos. O projeto transforma essas lições em ação, estocando insumos e desenvolvendo protocolos para evitar que novos surtos encontrem o sistema despreparado. Duarte Neto comenta: “Esperamos que não tenhamos essas doenças, mas, se acontecer de chegar, estaremos preparados; então foi um aspecto negativo e a gente tenta olhar com esse projeto de uma forma positiva para o futuro”.

Início do projeto

O projeto iniciou seus trabalhos focando no vírus nipah (Nipah RIMTSP), patógeno de origem animal com taxa de mortalidade de 70%. Endêmico no Sudeste Asiático, o nipah causa encefalite grave e preocupa pela possibilidade de dispersão global. Uma colaboração com pesquisadores da Malásia permitiu ao time brasileiro analisar amostras e padronizar técnicas diagnósticas, resultado já publicado em revista científica de acesso aberto.

O professor explicou que a transmissão do vírus nipah para humanos ocorre através de uma cadeia peculiar envolvendo morcegos frutíferos e práticas culturais. Nas regiões endêmicas do Sudeste Asiático existe um costume tradicional de coletar seiva de palmeiras durante a noite, utilizando jarros de cerâmica colocados no topo das árvores. Os morcegos, ao lamberem esses recipientes e o tronco das palmeiras durante a noite, contaminam a seiva com o vírus. Quando os coletores retiram o líquido pela manhã e o processam para vender como bebida tradicional, ocorre a transmissão para os trabalhadores que manipulam o produto e posteriormente para os consumidores. “Esses surtos estão associados com um problema que é, claro, de saúde única. Assim, é uma zoonose, não? Ocorre o chamado spillover, do animal para o ser humano, e ela tem uma gravidade muito alta”, conta Duarte Neto sobre o vírus.

Próximos passos e preocupações imediatas

Além do nipah, o Prepare avança no estudo de outros vírus da lista da OMS, com atenção especial ao H5N1 – subtipo da influenza aviária que já registrou casos em aves sul-americanas. A equipe já padronizou testes para esta cepa, cujo potencial pandêmico preocupa autoridades sanitárias globais. O projeto segue um cronograma que prioriza os patógenos com maior risco de emergência, combinando pesquisa básica com preparação operacional para cenários de crise.

Enquanto o Brasil não registra casos de muitas dessas doenças, a iniciativa representa uma mudança de paradigma: de reativo a proativo na saúde pública. Ao investir em conhecimento e infraestrutura antes das emergências, o País se posiciona na vanguarda da preparação para futuras ameaças epidemiológicas, sejam elas conhecidas ou inesperadas.

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