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Série do Jornal da USP aborda as obras exigidas no exame de ingresso para a USP

Opúsculo Humanitário reúne reflexões de precursora do pensamento feminista no Brasil

Escritora Nísia Floresta surpreende por sua trajetória, pensamento progressista e atuação na defesa dos direitos da mulher. Livro escrito em 1853 está na lista de obras de leitura obrigatória do vestibular da USP

 15/07/2025 - Publicado há 1 ano     Atualizado: 25/09/2025 às 21:11

Texto: Leila Kiyomura

Enquanto pelo velho e novo mundo vai ressoando o brado – emancipação da mulher – nossa débil voz se levanta, na capital do império de Santa Cruz, clamando – educai as mulheres! Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados! Governo, que vos dizeis liberal! Onde está a doação mais importante dessa civilização, desse liberalismo?…

Com essa frase a escritora potiguar, Nísia Floresta, abre o primeiro dos 62 capítulos do livro Opúsculo Humanitário, lançado em 1853, no Rio de Janeiro. O leitor-vestibulando também está se deparando com o primeiro dos questionamentos e reflexões que pontuam o livro sobre o papel e a trajetória da mulher branca, negra e indígena na sociedade.

Lígia Fonseca Ferreira, professora do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que atuou também como docente do Departamento de Letras Modernas e diretora do Centro de Línguas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e é pós-doutora pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), ambos da USP, explica os desafios enfrentados por Nísia Floresta. E a importância de conhecer a escritora que foi pioneira na defesa dos direitos da mulher e precursora do pensamento feminista no Brasil, além de jornalista, poetisa, educadora, tradutora, poliglota e viajante.

“Vamos começar pelo título”, propõe a professora. “O que significa Opúsculo? É o diminutivo de obra, um livro pequeno e de poucas páginas. E por que Humanitário? É exatamente aquele que se dedica a promover o bem estar do homem. Ou humanidade, que é o conceito oriundo das ideias iluministas da Revolução Francesa, em 1789, que defendia a liberdade, igualdade e fraternidade.”

Nísia Floresta defende em Opúsculo Humanitário a importância da educação no Brasil como o caminho a ser trilhado para as mulheres conquistarem a sua cidadania em condições de igualdade com os homens. “O nome Nísia Floresta Brasileira Augusta é o pseudônimo que Dionísia Gonçalves Pinto adotou quando tinha 22 anos para contar a sua história e a de todas as mulheres que buscou defender.”

Ligia Fonseca Ferreira, professora de Letras - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Mas por que o pseudônimo? A professora Ligia esclarece: “Nísia é o diminutivo de Dionísia ou como sua mãe e familiares a chamavam. Floresta é o sítio onde Nísia nasceu no dia 12 de outubro de 1810. Brasileira é a afirmação de sua nacionalidade, visto que nosso País havia pouco se tornara independente. E Augusto é o nome de seu companheiro com quem não se casou oficialmente, mas sempre assinalava ser seu marido”. 

O município de Papari, no Rio Grande do Norte, onde Dionísia nasceu, mudou de nome no dia 23 de dezembro de 1948. Passou a se chamar Nísia Floresta.

Opúsculo Humanitário aborda importância da educação para as mulheres - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Contexto de desafios

A professora apresenta para os vestibulandos o contexto histórico da escritora, importante para entender a sua literatura. “Dionísia era filha de um advogado português, Dionísio Gonçalves Pinto Lisboa, e de uma brasileira, Antonia Clara Freire. Em 1822, acontece a Independência do Brasil. E, no ano seguinte, Dionísia é obrigada pelo pai a se casar, aos 13 anos, com um dono de terras, rico, mas muito inculto, chamado Manuel Alexandre Seabra de Melo. ”

A imposição de seu casamento, ainda adolescente, é o início da sua história na defesa dos direitos das mulheres. Ligia observa: “O mais interessante é que, naquela época, ela briga, insiste e consegue a anulação, um ano depois, de seu casamento. Em 1824, muda-se com a família para Olinda e Recife, municípios de Pernambuco”.

Em 1822, acontece a Independência do Brasil. E, no ano seguinte, Dionísia é obrigada pelo pai a se casar, aos 13 anos, com um dono de terras, rico, mas muito inculto…”

Lígia Fonseca Ferreira, professora de Letras

Ligia continua pontuando a história da autora traduzida na força e desafio de seus artigos e livros. “Em 1828, seu pai foi assassinado em uma emboscada no Recife. E, nesse mesmo ano, Dionísia passa a viver com Manuel Augusto de Faria Rocha, estudante da Faculdade de Direito de Olinda, com quem nunca se casou oficialmente, mas teve dois filhos: Lívia Augusta, nascida em 1830 e, em 1831, Augusto Américo, que morre logo depois.”

Junto com as atividades de mãe, vai crescendo também a trajetória de escritora. “Em 1831, ela publica seu primeiro artigo, no jornal Espelho das Brasileiras. Passa a escrever sobre a condição da mulher em várias culturas. Em 1832, lança no Recife, aos 22 anos, seu primeiro livro Direitos das Mulheres e Injustiça dos Homens por Mistriss Godwin, primeiro texto de uma brasileira a tratar da igualdade de direitos para as mulheres.”

Retratos de Nísia Floresta e a primeira edição do Opúsculo Humanitário - Fotos: Wikipedia e BBM-USP

Nesse mesmo ano, a família muda-se para Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Mas o marido, Manoel Augusto, morre. Viúva, com 23 anos, a escritora passa a ser professora em uma escola gaúcha até 1837. Mas no dia 31 de janeiro de 1838, muda-se com a filha para o Rio de Janeiro.

“Em 1838, a escritora vai se efetivando como professora. Passa, então, a defender cada vez mais a educação das mulheres”, explica Ligia. “Radicada no Rio de Janeiro, capital do Império, funda o Colégio Augusto, uma escola para meninas que, diferente das outras, não se limitava a ensinar a ler, escrever e costurar. Passa a desenvolver um currículo como ao dos colégios para meninos com aulas de matemática, ciências, história, geografia, artes, línguas.”

Radicada no Rio de Janeiro, capital do Império, funda, em 1838, o Colégio Augusto, uma escola para meninas que, diferente das outras, não se limitava a ensinar a ler, escrever e costurar”

Lígia Fonseca Ferreira, professora de Letras ​

Apesar da imprensa local elogiar a competência e as inovações pedagógicas da diretora, a professora passa a sofrer ataques e calúnias de conservadores que criticam a proposta “inadequada” para a educação de mulheres. “Nisia foi alvo também de seus concorrentes estrangeiros, para ela despreparados para a missão educacional no País.  Em 1840, começa o Segundo Reinado de d. Pedro II. A escola funciona até 1849, quando a escritora decide fazer a sua primeira viagem para a Europa junto com a filha. Buscou fugir de decepções e das críticas contra a educação de mulheres, que tanto defendia”,  destaca Lígia.

Nísia era uma pesquisadora atenta, erudita, culta. Lia, falava e escrevia em francês, italiano, inglês, latim, grego e conhecia muito bem história e política. “Ela morou na França, na Itália e visitou Portugal, Grécia, Suíça, Inglaterra, Bélgica e Alemanha. Estudou a história e o papel das mulheres em todas as sociedades.” Pesquisas, ponderações, reflexões sobre as mulheres em diversos países e no transcorrer da história, que resultaram nos 62 ensaios reunidos no Opúsculo Humanitário que foram publicados em jornais de grande circulação na época, como o Diário do Rio de Janeiro e O Liberal, porém sem sua assinatura como autora. Os artigos resultaram no livro Opúsculo Humanitário, de 178 páginas, lançado em 1853 com a assinatura B.A., que é a abreviatura de “Brasileira Augusta”.

Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados! Governo, que vos dizeis liberal! Onde está a doação mais importante dessa civilização, desse liberalismo?”

Trecho de Opúsculo Humanitário

Capas de edições do livro Opúsculo Humanitário - Foto: Reprodução/Editoras

Clique no player para conferir o vídeo com a análise de Lígia Fonseca Ferreira, professora do Departamento de Letras da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que atuou também como docente do Departamento de Letras Modernas e diretora do Centro de Línguas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) e é pós-doutora pelo Instituto de Estudos Brasileiros (IEB), ambos da USP

Educação feminina, direitos da mulher e crítica social

Depois de viajar e observar a história das mulheres em diversos cantos do mundo, Nísia faz observações que os leitores, com certeza, irão gostar. Lígia Ferreira cita trechos de vários capítulos para despertar a curiosidade dos leitores-vestibulandos.

No capítulo 17, chama a atenção dos leitores para a realidade brasileira:

É tempo de voltarmos ao nosso caro Brasil, cujo interesse inspirou-nos este trabalho, e repetir a exclamação com que começamos este opúsculo. – Povos do Brasil, que vos dizeis civilizados! Governo, que vos dizeis liberal! Onde está a doação mais importante dessa civilização, desse liberalismo? Temos já transposto metade do século XIX, século marcado pelo Eterno para nele revelar ao homem estupendos segredos da ciência tendentes a aplainar as grandes dificuldades, que se opõe a universalidade do aperfeiçoamento das ideias, em ordem a fraternizar todos os povos da terra. Temos testemunhado o empenho dos homens pensadores das nações cultas em harmonizar a educação da mulher com o grandioso porvir que se prepara à humanidade! Nada, porém, ou quase nada temos visto fazer-se para remover os obstáculos que retardam os progressos da educação das nossas mulheres, a fim de que elas possam vencer as trevas que lhes obscurecem a inteligência, e conhecer as doçuras infinitas da vida intelectual, a que têm direito as mulheres de uma nação livre e civilizada.

No início do capítulo 25, Nísia Floresta, pondera e protesta:

É uma triste verdade ter o Brasil herdado de sua metrópole o desprezo em que teve ela sempre a educação do sexo. Os Portugueses, levando suas armas e seus missionários a outras regiões do mundo, explorando a glória pela reunião destas duas 44 forças heterogêneas que eles sabiam tão bem empregar para subjugar os povos, embriagavam-se demasiadamente em seus grandes triunfos para poderem ocupar-se, como deviam, da instrução da mulher, que, segundo a opinião da maioria de seu país, mais afeita aos costumes mouriscos que aos dos povos do Norte, não há mister de outros conhecimentos além daqueles que a habilitam a ser a primeira e mais útil servente de sua casa. A glória das armas e das conquistas eram a única a que aspirava o seu gênio belicoso; dessa glória, porém, nenhuma vantagem resultava à mulher, a não ser a dos efêmeros triunfos que lhe davam os combatentes das justas e torneios, quebrando lanças que depunham a seus pés como uma homenagem a suas graças ou a seu amor…

Outro trecho interessante é quando Nísia Floresta chama a atenção das mães que não amamentam os filhos, tarefa entregue às amas de leite que eram as escravas africanas:

Um prejuízo muita vez fatal à infância, um crime, diremos nós altamente, introduziu-se no Brasil, porque não é ele de origem brasileira; é o que leva as mães a negarem, por miseráveis considerações mundanas, seu seio aos seus recém-nascidos. Nada nos parece tão revoltante como ver uma mãe, sem causa justificada pela natureza, consentir que seu filho se alimente em seio estranho. Se Rousseau, com o seu Emílio, fez corar as mães francesas pelo esquecimento em que estavam desse primeiro dever da maternidade, em França, onde as amas têm mais ou menos alguma educação, e se distinguem pelo asseio; o que sentiriam as mães brasileiras, que bem compreendessem aquele livro, à vista de seus filhos pendentes do seio de míseras africanas, que passam, muita vez do açoite, na casa de correção ou nas dos próprios senhores, ao berço do inocente para oferecer-lhe seu leite?

Estudantes, muita atenção nos temas: Importância da Educação Feminina, Direitos da Mulher e Crítica Social"

Lígia Fonseca Ferreira, professora de Letras ​

O capítulo 58 é iniciado por um poema de Nísia Floresta sobre a tirania contra os indígenas:

Indígenas do Brasil, o que sois vós?
Selvagens? os bens seus já não gozais…
Civilizados? não… vossos tiranos
Cuidosos vos conservam bem distantes
Dessas armas com que ferido têm-vos! 
De sua ilustração, pobres caboclos!
Nenhum grão possuis! …
Perdestes tudo; 
Exceto de covarde o nome infame…

Linguagem objetiva com muitas críticas

Lígia acredita que os leitores e vestibulandos vão gostar muito dos 62 capítulos, que são curtos, sintéticos, e em uma linguagem objetiva, com muitas críticas e observações. Cita os temas principais que precisam se ater: “Os estudantes devem observar os temas centrais como a Importância da Educação Feminina, que, segundo Nísia Floresta, é essencial para o desenvolvimento individual e progresso social e também necessária para elevar o Brasil ao nível de civilizações modernas. Critica especialmente a educação limitada focada em tarefas domésticas”.

Outro tema aborda os Direitos das Mulheres, com a defesa da igualdade e emancipação feminina. E as Críticas Sociais que percorrem todos os capítulos com o questionamento da posição limitada da mulher na sociedade, a postura antiescravista ligada à educação das meninas, a influência negativa da escravidão no desenvolvimento moral das crianças e a preocupação com os direitos dos povos indígenas.

Opúsculo Humanitário tem várias publicações à disposição dos leitores. Mas a professora Lígia Ferreira chama a atenção para a versão gratuita em PDF lançada pelo Senado Federal, disponível neste link. “A edição está muito boa, com o prefácio de Maria da Conceição Lima Alves, especialista em políticas públicas e direitos humanos.”


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