Pioneiro no Brasil, curso de língua tupi da USP completa 90 anos

Considerado uma língua indígena clássica das Américas, o tupi antigo teve forte impacto na formação sócio-histórica e cultural do Brasil

 15/07/2025 - Publicado há 1 ano     Atualizado: 17/07/2025 às 16:28

Texto: Maria Trombini*

Arte: Simone Gomes

Em 90 anos, curso na USP teve mudanças, mas ainda segue ativo na grade de disciplinas da FFLCH – Foto: Agência Brasil

Em 14 de março de 1935, o professor Plínio Ayrosa lecionou a primeira aula do curso de língua tupi na USP. Oferecida na então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, a disciplina foi a primeira dentro de uma universidade brasileira voltada ao estudo sistemático de uma língua indígena. Passados 90 anos, o curso sofreu diversas mudanças ao longo do tempo, mas segue ativo na grade de disciplinas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

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Estudo de línguas indígenas ajuda a preservar a cultura dos povos originários

“O estudo científico das línguas indígenas no Brasil começou só no século 20. Antes disso, eram línguas faladas, mas não sistematizadas academicamente. A USP foi a primeira a dar esse passo”, afirma o professor Eduardo Navarro. Atual docente da disciplina na FFLCH, ele guarda até hoje o caderno com as anotações da primeira aula de Plínio Ayrosa. “É um documento precioso, com registros do início dessa história”, diz.

A criação do curso de tupi esteve diretamente ligada ao contexto político da década de 1930. Após a derrota de São Paulo na Revolução Constitucionalista de 1932, as elites paulistas buscaram contornar a consequente perda de influência política e econômica por meio da promoção de iniciativas culturais e acadêmicas. Entre elas, a fundação da USP, em 1934.

Ayrosa, que era engenheiro, assumiu a disciplina a convite do então reitor da Universidade, Reinaldo Porchat. A aula inaugural ocorreu dentro do curso de Etnografia Brasileira. “Foi uma resposta simbólica. A USP nasce como um desagravo à derrota de 1932. E o curso de tupi entra nesse projeto, com a intenção de estudar uma língua das raízes da nacionalidade”, conta o atual titular da disciplina.

Nomes, lugares e histórias

Navarro define o tupi ensinado no curso como uma língua indígena clássica das Américas. “O tupi antigo, ou tupi da costa, é uma língua indígena clássica do Brasil. Apesar de ter deixado de ser falado no século 18, é a língua indígena de maior impacto na formação sócio-histórica e cultural do Brasil”, explica.

Por não possuir mais falantes nativos, o tupi é considerado uma língua morta. Entretanto, Navarro destaca que a língua ainda está viva em diversos aspectos da história e da cultura brasileiras. Palavras de origem tupi dão nome a pessoas, lugares, animais e alimentos.

“Todo mundo usa e nem sempre sabe a origem. Por exemplo, ‘ficar com nhenhenhém’. Nheeng é o verbo ‘falar’, em tupi. ‘Não me cutuque’. Kutuk é furar ou espetar. Paçoca. Pa’soka é uma coisa amassada, esmigalhada. Pipoca. Pok é estourar. Pira é pele. Então, pipoca é a pele estourada do milho. Itororó, como na música, vem de y’tororomaY é água e tororoma é jorro. Daí também veio a expressão ‘cair um toró’”, cita o professor.

Homem branco, de barba, usando terno preto e gravata
Eduardo de Almeida Navarro - Foto: Lattes

A presença do tupi se espalha também em regiões onde os povos tupis nunca viveram. Isso porque, à medida que a colonização avançava para o interior, a língua deixou de ser apenas falada pelos indígenas da costa e passou a se tornar uma língua geral. “Era uma língua falada por todos os membros do sistema colonial: indígenas, portugueses, africanos e seus descendentes. Foi usada para batizar cidades como Piracicaba, Sorocaba e Uberaba, muitas vezes por bandeirantes ou colonos, e não por povos originários”, explica Navarro.

Na literatura, a influência também é profunda. Desde os primeiros séculos, a literatura brasileira se constitui com textos em português e em tupi. É o caso do teatro e da poesia do Padre José de Anchieta, e de outros jesuítas dos séculos 16 e 17.

Foto de página de caderno de anotação de aula de tupi de 1935
Foto de página de caderno de anotação de aula de tupi de 1935

Folhas do caderno com as anotações da primeira aula do professor Plínio Ayrosa, de 1935 – Foto: Maria Trombini

O tupi nos debates contemporâneos

Apesar do pioneirismo do curso da USP, com o passar dos anos, o ensino de tupi foi perdendo força. Durante décadas, o estudo da língua se restringiu à toponímia, e os professores misturavam conceitos do tupi com elementos de outras línguas indígenas. Foi só em 1993, com a chegada de Navarro, que o curso foi retomado com abordagem mais aprofundada e voltada para a linguagem original.

Atualmente, o tupi tem ganhado novo espaço no debate contemporâneo. Para Navarro, isso se deve não apenas à sua importância histórica, mas também ao contexto atual de crise ambiental e perda de diversidade cultural. “Estamos vivendo uma grande crise ecológica. E, nesse cenário, os povos indígenas passam a ocupar um lugar simbólico central como guardiões da natureza”, afirma.

O professor defende que o tupi seja ensinado nas escolas como disciplina optativa, especialmente em regiões com forte presença indígena, como a Paraíba — onde há mais de 10 mil potiguaras. “Estamos lutando pela criação de uma cadeira de tupi antigo na Universidade Federal da Paraíba. E acredito que não faltaria interesse”, diz. “Esses temas tocam o coração de muitos jovens, que querem se reconectar com essa herança.”

Foto de capa do caderno de anotações de 1935
Caderno com as anotações que registram o início das aulas de tupi - Foto: Maria Trombini

A discussão também se insere em um movimento global de proteção às línguas originárias. A Unesco declarou a década de 2022 a 2032 como a Década Internacional das Línguas Indígenas. Nesse sentido, o professor da FFLCH pretende celebrar os 90 anos do curso de tupi da USP organizando um seminário internacional sobre línguas indígenas clássicas das Américas.
O evento ainda não tem data para acontecer, mas a ideia é reunir representantes de outros países que também têm línguas indígenas clássicas que foram fundamentais na formação nacional. É o caso do guarani, no Paraguai, ainda falado por mais de 5 milhões de pessoas; do quéchua, na Bolívia e no Peru, que remonta a época do Império Inca; e do náhuatl, no México.

“Preservar essas línguas é preservar a diversidade cultural da humanidade, da mesma forma que lutamos para preservar a biodiversidade”, conclui Navarro.

*Estagiária sob supervisão de Silvana Salles


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