
Nem toda inovação interessa ao investidor. Essa é uma das chaves da pesquisa conduzida pelo sociólogo Marcel Maia, pós-doutorando na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O estudo analisa como as aceleradoras de startups atuam não apenas como pontes entre empreendedores e investidores, mas também como filtros e moldadores daquilo que será considerado financeiramente viável no mercado.
“A gente tende a pensar que as inovações são sempre atraentes, mas os investidores são orientados por outros objetivos específicos do mundo das finanças. Eles não estão necessariamente interessados em inovações, estão interessados em multiplicar o capital que eles detêm. E multiplicar esse capital rapidamente”, explica Maia. Segundo ele, os programas de aceleração cumprem o papel de preparar os empreendedores para lidar com esse tipo de lógica, que nem sempre valoriza o caráter inovador ou científico do projeto, mas sim seu potencial de gerar lucro em curto prazo.

A pesquisa observou mais de 50 casos, frequentou treinamentos e concursos de startups e analisou duas aceleradoras em particular: o Programa InovAtiva Brasil, ligado ao Sebrae, e o Pipe (Pesquisa Inovativa em Pequenas Empresas) da Fapesp. Embora ambos promovam o desenvolvimento de novos negócios, suas estratégias de ação e perfis de empreendedores são bastante distintos. O InovAtiva reúne ideias e pessoas de perfis variados, com foco em treinar os participantes para responder às perguntas que um investidor fará. “O foco do InovAtiva é em preparar o empreendedor para se apresentar de forma convincente diante dos investidores. Ele prepara o candidato antecipando as prováveis perguntas, e então o acelerador ajuda o empreendedor a expor aquilo que importa ao investidor”, diz Maia.
Já o Pipe concentra-se em empreendedores com base acadêmica e projetos de longo prazo, em geral de base científica. Em vez de moldar o discurso do empreendedor, como faz o programa do Sebrae, a atuação aqui se dá na tentativa de alinhar os produtos às necessidades do mercado. “Muitas vezes os empreendedores imaginam que os seus achados de pesquisa irão resolver certos problemas de mercado, mas o potencial cliente, as empresas em geral, estão preocupados com outros problemas. E a aceleradora busca conectar essas pessoas para adequar justamente, alinhar as pesquisas ao mercado, ao que as empresas precisam.”
Coordenação mercantil
Esse papel intermediário das aceleradoras foi conceituado por Maia como uma “coordenação mercantil”. Ele compara o processo ao mercado de trabalho, em que agências de emprego não apenas conectam empresas e trabalhadores, mas moldam os candidatos para que atendam aos requisitos das vagas. “Com as startups é parecido. As aceleradoras moldam os projetos para que se tornem atraentes aos financiadores.”
Além do aspecto econômico, a pesquisa aponta também para a dimensão social das startups. Maia lembra que inovações como os aplicativos de transporte e de entrega digitalizaram atividades e impactaram profundamente o cotidiano de milhões de pessoas. “As inovações não acontecem no vazio social, elas modificam a forma como a gente se relaciona, como a gente trabalha, como a gente se informa. Então, para entender essas transformações, a gente precisa mais pesquisas de caráter sociológico nesse caso.”
Atualmente o pesquisador desenvolve, com apoio do COI (Centro Observatório das Instituições Brasileiras da USP), um estudo sobre como a atividade de cuidadores — de idosos e de crianças — também vem sendo alterada pela chegada das startups. Confira a pesquisa em: 684ada6f38032
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