
Um grupo de pesquisadores da USP entrevistou 659 adolescentes paulistanos, entre 12 e 14 anos, para investigar como o ambiente urbano influencia sua percepção de justiça e sua confiança nas instituições. O estudo, que se estendeu por cerca de três anos, teve como foco o conceito psicológico conhecido como “crença no mundo justo” (do inglês believe in a just world – BJW).
Quem explica mais sobre esse conceito é o psicólogo André Vilela Komatsu, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência (NEV) da USP e primeiro autor do estudo. Ele descreve a ideia de que “o mundo é, de forma geral, um lugar justo, onde as pessoas recebem aquilo que merecem”. De acordo com Komatsu, essa crença “parece até um pouco simplista ou ingênua, mas na verdade se refere a uma teoria que busca entender como as pessoas dão sentido às injustiças que presenciam ou vivenciam e como isso influencia atitudes, julgamentos morais, relações sociais e a confiança nas instituições”.
A cidade como professora
O estudo analisou adolescentes ao longo do tempo, permitindo identificar diferentes trajetórias de percepção da justiça, tanto em nível pessoal quanto global. “A gente percebeu que os jovens que moram em regiões mais degradadas têm maiores chances de apresentar trajetórias em que a crença na justiça vale para os outros, mas não para si próprios”, explica. “Ou seja, eles percebem que o mundo é um lugar justo, mas não para eles. Isso é bastante negativo, porque enfraquece a percepção de que eles próprios têm valor social, que seu esforço pode ser recompensado ou que as regras funcionam igualmente para todos.”

Para os adolescentes que vivem em áreas de maior vulnerabilidade social, essa percepção tem efeitos profundos. “Quando o jovem sente que a justiça existe, mas só para alguns, isso pode gerar desmotivação, desconfiança nas instituições e até a sensação de que ele faz parte de um grupo que está fora do pacto social”, alerta Komatsu. “No longo prazo, isso mina o sentimento de pertencimento, prejudica a construção de cidadania e enfraquece a própria democracia.”
Por outro lado, entre adolescentes de regiões mais privilegiadas os resultados indicam um padrão oposto. “Eles demonstram uma crença no mundo justo pessoal elevada, mas uma crença no mundo justo geral baixa. Ou seja, as coisas funcionam para mim, para minha vida, para minha família, mas eu sei que não é assim para todo mundo.”
O papel da escola e dos espaços públicos
A pesquisa também destaca a importância das figuras de autoridade na formação dessa percepção. “As interações entre crianças e adolescentes com figuras de autoridade têm muita influência nessa percepção de justiça, porque essas figuras acabam transmitindo uma mensagem de como as regras são aplicadas e como a justiça é distribuída”, afirma Komatsu.
Nesse sentido, a escola aparece como um espaço-chave. “A escola possui suas próprias regras e adultos que vão aplicá-las e os jovens percebem se essas regras são aplicadas de forma igual para todos, se há transparência, se é explicado quando eles recebem um castigo ou não”, descreve. “Ela pode reproduzir muitas das injustiças que ocorrem fora dos muros da escola, mas é um espaço onde se pode quebrar um pouco essa expectativa. Às vezes esses jovens crescem em ambientes muito degradados, mas na escola eles podem ter uma outra experiência diferente, onde a justiça ocorre.”
Políticas públicas que comunicam pertencimento
A pesquisa sugere que intervenções no ambiente urbano têm alto potencial de restaurar o senso de justiça entre os jovens. “A gente tem que ver esses adolescentes como agentes mesmo, e não só como o futuro da nação. Eles são pessoas concretas, que merecem experiências dignas.”
Entre as ações recomendadas, o pesquisador destaca o tratamento respeitoso por parte dos agentes públicos, o acesso a equipamentos de cultura e educação de qualidade e a participação em decisões que impactam suas vidas. “Uma forma de passar a mensagem de que todas as vidas importam seria por meio de investimentos em infraestrutura, revitalização urbana, segurança, iluminação.” Ele reforça a necessidade da melhora da infraestrutura das regiões negligenciadas da cidade, para que haja um sentimento de pertencimento às populações em questão.
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