A ciência pela história, episódio 13 – Guerra ou paz? A ciência e os cientistas

Por Gildo Magalhães, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados (IEA) da USP

 24/04/2025 - Publicado há 1 ano

Uma faca é uma arma?

Não há dúvida que sim, pois está classificada como “arma branca”, mas a resposta exige alguma reflexão. A pergunta tem sentido no contexto que remete às críticas à ciência e à tecnologia, quando estas são acusadas de estarem historicamente a serviço da destruição de vidas humanas ou do meio ambiente.

No início do filme 2001, uma odisséia no espaço, de Stanley Kubrick, há as famosas cenas em que um simples osso acaba por se tornar uma arma letal nas mãos de um hominídeo. Na sequência, a imagem desse osso atirado ao ar vai se transformando num projétil e numa espaçonave. Isso ilustra bem como todo e qualquer conhecimento pode ser usado para fins pacíficos ou bélicos.

O francês André Leroi-Gourhan escreveu uma obra (entre 1943 e 1945) que se tornou referência obrigatória na História e Antropologia da Ciência, Evolução e técnicas, na qual mostra a profunda ligação entre os instrumentos construídos pela humanidade desde a pré-história, agrupados em “famílias”. Uma relação natural interessante se encontra na família de lanças e flechas, relacionando-se a fisga na extremidade de um anzol e as pontas de flechas, um parentesco que exemplifica a transição de objetos que vão da pesca e caça para a luta, ou seja, de uma finalidade pacífica para a militar.

A ciência em si costuma ser neutra, mas os cientistas são seres humanos e raramente são neutros, pois nunca estão isolados da sociedade em que ela é criada e praticada. Apropriar-se de uma descoberta dá ao homem a oportunidade de usá-la para o bem ou para o mal, na medida em que desfruta individual e coletivamente do livre arbítrio, aliás um tema caro a Tolstói quando escreveu Guerra e Paz.

Um exemplo do dilema que se coloca para o cientista pode ser ilustrado pelo caso de Arquimedes (século 3 a.C.), que foi encarregado de defender sua cidade de Siracusa na Sicília contra o cerco dos romanos. Ele aplicou seus vastos conhecimentos de máquinas e matemática para construir terríveis engenhos de guerra – num deles, teria usado os conceitos de alavanca e polia para construir um guindaste e mover pinças enormes que conseguiam sacudir navios inimigos que se aproximavam da muralha da cidade. Além de jogar ao mar os soldados romanos, infligia tal terror nas tripulações romanas que estas acabaram por desistir de vencer por meio de combates. A cidade só foi conquistada por terem os romanos logrado entrar secretamente na cidade graças ao pagamento de suborno.

São bem conhecidos também os engenhosos inventos da engenharia militar renascentista, como o escafandro desenhado por Leonardo da Vinci, que poderia servir tanto para construções subaquáticas de pilares de pontes como para afundar navios. A história dos balões e aviões é semelhante nesse quesito, pois passaram rapidamente a ser pensados tanto como meios de transporte de passageiros quanto para finalidades bélicas. Num desenvolvimento atual, aí estão os mortíferos drones atuando em guerras, mas que possuem muitas aplicações civis na agricultura, em resgates e outras situações.

Trata-se, portanto, de uma via de mão dupla: tanto há invenções para a guerra que acabaram sendo usadas no cotidiano como há o sentido inverso. Vamos dar mais alguns exemplos comprobatórios desta afirmação.

Comecemos pelo caso do leite condensado, resultante de um processo aperfeiçoado pelo norte-americano Gail Borden; quando foi patenteado em 1856, esse invento não despertou grande interesse, mas durante a Guerra Civil Americana ele se demonstrou de grande utilidade para alimentar as tropas e, pouco depois, entrou como ingrediente culinário de forma avassaladora.

A dinamite, aperfeiçoada pelo sueco Alfred Nobel no século 19, é um outro testemunho dessas ambiguidades. O explosivo devastador imaginado e empregado para a guerra logo se revelou muito útil na construção de túneis, exploração de pedreiras, demolições de prédios.

Seria impensável que o enorme tráfego aéreo atual pudesse subsistir sem uma invenção bélica, o radar, aperfeiçoado pelos ingleses durante a Segunda Guerra Mundial, com o qual começaram a destruir a força aérea alemã. Para aumentar a produção de radares necessários durante esse período, foi contratada uma empresa americana, a Raytheon, para fabricar o magnétron (gerador de pulsos de alta intensidade) e foi no processo de aperfeiçoamento desta válvula que se inventou o forno de micro-ondas, hoje tão comum nos lares. Esse efeito de criação de novos produtos e processos derivados de um processo ou produto original, a que se dá o nome de spin-off, tem sido uma constante na história da ciência e tecnologia e é muito comum nesse intercâmbio de guerra e paz.

O computador eletrônico tinha antecedentes mecânicos diversos e foi desenvolvido inicialmente como máquina de calcular trajetórias para mísseis balísticos na Segunda Guerra Mundial. Seus usos como calculadora de grande porte fizeram com que inicialmente fosse considerado algo muito limitado, até que se reconhecesse sua capacidade de ordenar rapidamente elementos de conjuntos (“arquivos”), o que juntamente com spin-offs como a impressora e o monitor, agregados com o desenvolvimento dos microprocessadores na década de 1970, acabaram levando essa invenção para os lares e para os bolsos e bolsas das pessoas, na forma de celulares.

O teflon foi um material inventado em 1938 nos laboratórios da DuPont nos EUA, e que se revelou inerte contra vários agentes químicos e ao mesmo tempo extremamente liso, propriedades que o qualificaram para ser usado no Projeto Manhattan, o da bomba atômica. Isto aconteceu porque se buscava um material para revestir os encanamentos que transportavam o hexafluoreto de urânio, altamente corrosivo.

Consta que esse projeto custou um bilhão de dólares na época, uma quantia fabulosa para então, mas é certo que todas as invenções e aperfeiçoamentos decorrentes do projeto Manhattan geraram spin-offs várias vezes superiores. Naturalmente, nada justificava a crueldade de jogar bombas na população civil de Hiroshima e Nagasaki em 1945, mas no caso do teflon, este continua a ser utilizados em tubos, fios, panelas antiaderentes e outros produtos domésticos.

Talvez, porém, nada se compare nessas passagens do bélico ao pacífico justamente no que se refere ao uso da energia atômica. A ocorrência de fissão nuclear artificial foi identificada pela química alemã Ida Noddack em meados da década de 1930, a que se seguiu a obtenção em laboratório de produtos da fissão na Alemanha no final daquela década. Estes desenvolvimentos se deram no clima de guerra e, infelizmente, o grande público tomou conhecimento da energia nuclear primeiramente por meio das bombas detonadas pelos EUA.

Frequentemente deixa de ser mencionado que já se antevia um uso pacífico para a energia do átomo e foi notável que em pouco tempo a seguir, em 1948, a França já tinha estabelecido uma grande força-tarefa de cientistas e engenheiros, liderados por Frédéric Joliot-Curie, para criar, com base na energia nuclear, a infraestrutura francesa da geração elétrica, que hoje é 70% baseada nesse modo energético, com muito sucesso. E o mundo possui hoje tecnologia para eliminar ou reciclar a maior parte dos chamados resíduos radioativos, como no reator projetado por Carlo Rubbia, prêmio Nobel de Física (1984). Não se pode tampouco esquecer o uso pacífico da radioatividade na medicina e na conservação de alimentos. O problema claramente não está na energia nuclear e sim nos usos que lhe são dados.

Malgrado seu desenvolvimento social e cultural, a humanidade não se livrou da agressividade e das guerras, estando longe da arte da concórdia pensada pelo filósofo Espinosa no século 17, a ser construída tanto no plano individual quanto internacional e alicerçada no direito natural.

É ponderando essas considerações sobre o uso humano da ciência que se pode responder melhor sobre os usos da faca, um instrumento que, além de ser onipresente na cozinha, pode matar alguém, mas também salvar vidas numa sala de operação, transformada na lâmina afiada do bisturi.

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