Pesquisadores recuperam obra de uma pioneira da sonoplastia no teatro

Com mais de 7 mil itens, acervo da professora Tunica Teixeira, que atuou em mais de 300 trilhas sonoras, é digitalizado na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

 24/04/2025 - Publicado há 1 ano     Atualizado: 25/04/2025 às 15:44

Texto: Mirela Costa*

Arte: Beatriz Haddad**

Uma antiga fita de gravação de rolo.

No acervo de Tunica Teixeira encontram-se 382 fitas de rolo com trilhas e efeitos sonoros produzidos pela sonoplasta – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Passos se aproximam, há batidas na porta. O telefone toca. Do lado de fora, trovões estrondosos anunciam a chegada da chuva. Entre toques de telefone e tique-taques de relógio ressoantes pelo palco, a plateia acompanha, com os ouvidos aguçados, a criação da atmosfera sonora de uma peça de teatro. 

Recursos sonoros como esses, que compõem a cenografia teatral, remontam à obra da professora Tunica Teixeira (1949-2019), que ao longo de quase cinco décadas de atividades colaborou com mais de 300 trilhas sonoras dramatúrgicas e reuniu um vasto acervo ligado à sonoplastia no teatro. Agora, esse acervo está sendo digitalizado por pesquisadores ligados ao Centro de Documentação Teatral (CDT) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Com o objetivo de promover pesquisas e discussões sobre o som em espetáculos teatrais e ampliar o acesso à obra de Tunica Teixeira, o projeto Arquivos Sonoros de Teatro – contemplado no programa Jovem Pesquisador, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) – faz o tratamento, a preservação e a digitalização do acervo pessoal da professora. “Além de explorar as produções de Tunica e disponibilizá-las digitalmente, queremos expandir os estudos sobre a sonoplastia no teatro brasileiro”, explica a pesquisadora Rafaella Uhiara, do CDT, diretora do projeto. “Enquanto o texto dramatúrgico e a cenografia são os principais enfoques da história da teoria teatral, a sonoridade só é pesquisada há cerca de uma década.” Rafaella aponta as trilhas e efeitos sonoros nos palcos como essenciais à experiência do público, já que constituem imaginários das cenas apresentadas e geram intensa percepção coletiva.

Mulher com cabelos pretos curtos e brincos redondos grandes.

A pesquisadora Rafaella Uhiara, que dirige o projeto Arquivos Sonoros de Teatro - Foto: Reprodução/Lattes

Os mais de 7 mil itens que se encontram sob a guarda do CDT – entre fitas de rolo, fitas cassete, minidiscs, CDs, fitas em digital audio tape (DAT), discos de vinil, roteiros de peças em papel e demais manuscritos – foram reunidos por Tunica Teixeira ao longo de seus 48 anos de carreira teatral. “A própria Tunica catalogava e etiquetava suas gravações para preservá-las”, conta Ana Sara Lara, arquivista do projeto. Segundo Miguel Antar, profissional responsável pela digitalização dos documentos, desde outubro de 2024 já foram digitalizados oito fitas de rolo, 96 DATs, 104 minidiscs e 1.298 CDs. Antes do processo de transferência digital, as peças ainda passam por etapas de limpeza e restauração.

Mulher de óculos e cabelos pretos longos.

A sonoplasta e produtora musical Tunica Teixeira (1949-2019), que atuou também como professora da Escola de Arte Dramática (EAD) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP - Foto: Reprodução/Facebook/Sated - São Paulo

Descoberta de gravações inéditas

“Sensibilidade e precisão são as características mais marcantes do trabalho da Tunica”, afirma Renata Grazzini, doutoranda da USP e pesquisadora associada ao Arquivos Sonoros de Teatro. Demonstrando talento para o manejo dos sons desde o início de sua carreira, Teixeira já criava e operava trilhas sonoras de espetáculos durante sua graduação na então chamada Escola de Comunicações Culturais da USP, a atual ECA. Embora tenha ingressado no curso de Rádio e TV em 1968, ela encontrou sua paixão pelo teatro e pela música na Escola de Arte Dramática (EAD), também da ECA, onde passou a frequentar aulas diariamente. Permaneceu na USP de 1968 a 1974, período em que realizou mais de uma centena de composições sonoras para peças.

Em 1971, fez sua primeira trilha como sonoplasta profissional para o espetáculo Corpo a Corpo (1970), de Oduvaldo Viana Filho. Nos anos seguintes, atuou como técnica de áudio no Sesc Consolação, em São Paulo, experiência que lhe garantiu uma bolsa de estudos para participação no curso Som de Palco e Música Eletrônica para Iniciantes, no centro artístico Cockpit Arts and Workshop, em Londres, na Inglaterra. “Muitas pessoas da cena teatral paulistana dizem que Tunica fazia grandes festas e tocava como DJ, já que ela tinha uma fonoteca incrível”, relata Ana Sara.

A sonoplasta retornou à EAD em 1984, onde se tornou professora. Em 1989, também passou a ministrar aulas na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Além da atuação como diretora musical e sonoplasta em diversos espetáculos desde a década de 1970, Teixeira também destacou-se no rádio e na televisão: entre outras produções, participou das trilhas da minissérie Anarquistas, Graças a Deus (1984), da TV Globo, do programa infantil Rá-tim-bum (1990), da TV Cultura, e de novelas da TV Bandeirantes. 

Ao examinar o acervo, Uhiara e Ana Sara destacam a descoberta de projetos que marcaram a trajetória profissional de Teixeira nas décadas de 1990 e 2000: ela gravou uma sequência de episódios em áudio sobre a história da sonoplastia brasileira. “No primeiro projeto que encontramos, ela entrevista outros sonoplastas justamente para registrar a tradição oral dessa profissão. Já no segundo, chamado Antes Que Eu Me Esqueça, ela relata casos da própria carreira dela”, afirma a arquivista. As pesquisadoras acreditam nos projetos como iniciativas de Teixeira para a conservação da memória de sua atuação.

Após a morte da produtora musical, em 2019, o pesquisador Raul Teixeira ficou responsável pelo acervo e, posteriormente, o destinou ao CDT. Desde 2023 os integrantes do projeto Arquivos Sonoros de Teatro se dedicam aos cuidados e digitalização dos itens. Para Rafaella Uhiara, uma das principais características do percurso profissional da sonoplasta que se expressa em sua coleção é a passagem por diversas transformações tecnológicas ao longo do século 20. “Ela passou por uma enorme quantidade de mudanças. Ao mesmo tempo em que manteve fitas de rolo do início da carreira, trabalhou com arquivos digitais”, comenta.

No laboratório do projeto Arquivos Sonoros de Teatro, o pesquisador Miguel Antar conduz o processo de tratamento e digitalização dos documentos de Tunica Teixeira - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Segundo Renata Grazzini, um aspecto também marcante na trajetória de Teixeira foi a sua participação nos ensaios dos espetáculos para os quais fez trilhas sonoras. A pesquisadora destaca o envolvimento da sonoplasta na totalidade da produção dramatúrgica como parte fundamental de seu processo criativo. “A partir do contato com os atores e a direção, ela ia adaptando suas criações”, conta. 

Mulher mexendo em objetos numa mesa, em frente a um computador.

Ana Sara Lara conduz os processos de gestão, organização e preservação dos itens da sonoplasta - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Lacuna histórica

Precursora na produção de trilhas sonoras teatrais, Teixeira iniciou sua atuação como sonoplasta em uma época em que a profissão não era popular e tampouco reconhecida. Foi somente em 1978 que o Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de  São Paulo regulamentou a profissão, com a seguinte descrição: o sonoplasta é aquele que “elabora o fundo musical,  ao vivo ou gravados, selecionando músicas e efeitos adequados ao texto e de comum acordo com a equipe de criação; pesquisa as músicas para montar a trilha sonora; pode operar a mesa de controle, produzindo os efeitos planejados, ou ensaia o operador”.

Mas antes disso, já em 1973, Teixeira recebeu o Prêmio Governador do Estado do Conselho Estadual de Cultura, na categoria de melhor cenotécnico do teatro profissional. Segundo Uhiara, há uma lacuna histórica na pesquisa de sonoplastia teatral, o que impossibilitou significativos avanços na técnica de som no palco. “Apesar de todas as tecnologias sonoras surgidas no século 20, houve um grande desinteresse pelo estudo do som no teatro. Assim, não há metodologia consolidada para lidar com arquivos sonoros teatrais”, conta. A partir das lacunas na pesquisa do som, o projeto Arquivos Sonoros de Teatro pretende ampliar os limites do conhecimento sobre sonoplastia teatral.

No roteiro da peça O Capataz de Salema, de Joaquim Cardozo, Tunica Teixeira fez anotações indicando o posicionamento dos efeitos sonoros, como mostra um dos itens do seu acervo - Foto: Arquivo Pessoal/Renata Grazzini

*Estagiária sob supervisão de Roberto C. G. Castro

**Estagiária sob supervisão de Moisés Dorado


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