Qual o melhor dos mundos possíveis? Pode-se dizer que este mundo onde vive a humanidade é bom, dado que é cheio de defeitos, como os crimes em geral, a corrupção e as guerras que vitimam inocentes e mesmo os acidentes naturais?
Estas perguntas envolvem a disputa entre dois famosos cientistas do século XVII, o alemão Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716) e o inglês Isaac Newton (1643-1727), que se estendeu do campo científico para questões filosóficas e ainda é mal compreendida.
Leibniz foi um verdadeiro polímata, com contribuições notáveis à matemática, física, geologia, filosofia, linguística, mitos e outros campos, como, por exemplo, seu emprego como bibliotecário da famosa coleção do duque de Wolfenbüttel, que resultou num primeiro sistema de catalogação de livros, logo seguido por bibliotecas europeias. Foi também interessado pela escrita da China e pela cultura confucionista, sua atividade epistolar foi gigantesca, e concorreu para a fundação das Academias de Ciências de Berlim e de São Petersburgo. Esforçou-se por influenciar governantes com quem tinha contato, no intuito de unir protestantes e católicos, dadas as atrocidades cometidas durante a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e na perseguição aos huguenotes na França.
Favorável a uma concepção absolutista de governo, Newton ficou conhecido nas ciências naturais também por sua defesa do tempo e espaço absolutos, isto é, que não dependem de um referencial externo a eles. Um outro conceito de Newton, usando a metáfora do relógio de pêndulo, muito corrente na época, foi sua afirmação de que o Universo necessitaria de tempos em tempos que nele fosse “dado corda” por um “relojoeiro” (Deus), senão o movimento cessaria e ele pararia de funcionar.
A oposição a Newton nesse assunto em particular é porque Leibniz acreditava, pelo contrário, que o Universo desde sua criação traz em si uma predisposição para a harmonia, sendo nesse sentido um mundo perfeito, e a “corda” não poderia se “gastar”, dispensando totalmente a corda do “relojoeiro”. Esse confronto se travou por correspondência e de forma indireta, pois quem escrevia os argumentos de Newton era seu preposto, o filósofo e teólogo Samuel Clarke.
Nessa época, era comum na Europa que as discussões filosóficas se alicerçassem na teologia e essa questão teológica do relojoeiro regulando o Universo tocava os pontos sensíveis do determinismo e do livre-arbítrio, do bem e do mal. Para Leibniz, a divindade permitiria que o homem praticasse o mal, porque é melhor ser livre, reconhecendo que, quando não se sabe usar a liberdade, as consequências são más. No entanto não é possível analisar a questão individualmente e de modo imediato, o resultado tem mais sentido coletivamente e num maior prazo. Dada a liberdade de escolha, este é “o melhor dos mundos possíveis”, concluía Leibniz.
Em termos científicos, a posição leibniziana era expressa dizendo que as leis da física seguem princípios de “otimização”, que por sua vez conformam o Universo como um todo e resultam na procura natural do melhor resultado global. Um exemplo disso é a refração, quando a luz se refrata (muda de direção) ao passar de um meio para outro diferente, como do ar para a água. Diz-se então que a luz segue uma “lei” pela qual há constância dos senos dos ângulos de incidência e de refração na superfície de separação dos dois meios. O físico e matemático holandês Christian Huygens, preceptor de Leibniz, explicou essa lei da refração no seu Tratado da luz, afirmando que seguindo esse caminho a luz minimiza o dispêndio de energia, e esta é a “otimização” natural. Técnicas matemáticas de otimização são bastante usadas em engenharia moderna, por exemplo, na chamada “pesquisa operacional”, exatamente com o objetivo de descobrir soluções que minimizem ou maximizem alguma propriedade do sistema estudado, para estabelecer o melhor resultado.
É conhecido que Newton preferia não indagar pelas causas dos fenômenos, o que o situa decididamente ao lado dos filósofos britânicos chamados de empiristas. Essa maneira de pensar é uma característica do chamado “positivismo” e, embora esse movimento seja associado ao filósofo francês Auguste Comte em meados do século XIX, o pressuposto de que a ciência não investiga o “porquê” das coisas, mas se contenta com o “como”, é algo comum ao empirismo e ao positivismo. Dessa forma, não há anacronismo em falar de positivismo ao tempo de Newton.
Nesse contexto, muitos historiadores das ciências têm se dedicado a procurar justificativas para a conhecida sentença de Newton a respeito do que seria constituída a gravidade, expressa em sua famosa obra Principia mathematica, de que não construía ou fabricava hipóteses – hypotheses non fingo. Tal pensamento é plenamente coerente com a proposta newtoniana de que a ciência serve para conhecer os resultados, mas não a raiz dos fenômenos.
Este foi um dos motivos de a filosofia natural no continente europeu, principalmente na Alemanha, atacar Newton e o empirismo britânico a partir do final do século XVIII. A conhecida obra de Newton, Óptica, é bastante reveladora dessa sua ideologia empirista. Ao contrário de cientistas como Leonardo da Vinci, Leibniz e Goethe, que procuravam entender a visão como um complexo fenômeno mental, envolvendo sensações e assim unificar conhecimento, emoção e ação, para Newton o olho é apenas um componente, mera lente geométrica, e as cores são descritíveis meramente por expressões matemáticas.
Foi a concepção diferenciada de mundo desenvolvida por Leibniz que Voltaire procurou ridicularizar, criando em sua obra Cândido, ou o otimismo (1759) um alemão que é uma figura de otimista incorrigível, para quem sempre tudo está bem, não importa que desgraças o atinjam. A “otimização” do Universo para Leibniz nada tem a ver com essa caricatura, claramente baseada em Leibniz para os contemporâneos, já que nessa novela de Voltaire o sábio alemão se chama Dr. Pangloss (derivado do grego, com o significado de “todas as línguas”), alusão à conhecida proficiência de Leibniz, que dominava uma grande quantidade de línguas antigas e modernas.
A rivalidade entre Newton e Leibniz é lembrada principalmente por uma disputa de prioridades na matemática, envolvendo o cálculo infinitesimal. Em uma viagem à Inglaterra, Leibniz mostrou seus trabalhos no assunto a Newton e, em seguida, os publicou. Newton acusou Leibniz de ter roubado suas ideias antes de se dispor a publicar as suas. Esta controvérsia tem uma longa história, mas é de menor importância, comparada à discussão filosófica mencionada.
Mais tarde Kant, na Alemanha, faria também o papel de divulgador de Newton, endossando sua visão científica do mundo, e assim, aos poucos, a influência britânica empirista acabou suplantando a de Leibniz não só localmente, mas no continente europeu e alhures.
Persiste na história a reverência a Newton como o grande nome da ciência moderna, ao passo que Leibniz ocupa um lugar relativamente mais secundário. A razão mais forte para isso é que se trata de uma construção histórica, que começou exatamente quando o mesmo Voltaire desempenhou o papel de divulgador da obra científica de Newton no continente europeu. Quando Voltaire se autoexilou na Inglaterra por motivos pessoais (fugindo de um duelo causado por adultério), ficou impressionado com a grandiosidade do funeral de Newton e da quantidade de pessoas que o acompanhou. Após retornar para a França, publicou com o auxílio de sua amante, a Marquesa de Châtelet, bem versada em física e matemática, um resumo das ideias newtonianas, escrito em linguagem mais simples e de alcance popular. Esse livro, Elementos da filosofia de Newton (1738), fez grande sucesso, com várias edições e traduções para outras línguas.
Voltaire se dedicou em diversas ocasiões a detratar não somente Leibniz, mas também aqueles cientistas contemporâneos que, por um motivo ou outro, formavam uma corrente que apoiava as ideias de Leibniz, como o matemático francês Pierre de Maupertuis (1698-1759) ou o biólogo inglês John Needham (1713-1781), engajando-se em controvérsias científicas que logo passavam a pesados ataques pessoais, dirigindo contra seus adversários seu usual brilhantismo de polemista e a temida ferocidade de sua pena. Ainda hoje se sentem os reflexos da desmoralização do conceito de otimização de Leibniz, em áreas que pareceriam à primeira vista insuspeitas, como mais recentemente foi o caso do musical Candide do compositor norte-americano Leonard Bernstein, de melodias certamente inspiradas, uma adaptação de Voltaire de grande sucesso para os palcos.
Como remate a essa discussão, que certamente é mais ampla do que aqui foi apresentado, vale lembrar que Leibniz atribuía grande valor à felicidade que nasce da música, alegria que estendia à cadência “sem música”, observada na poesia. É com este espírito que aconselhou os homens a contemplarem a beleza da natureza, procurando a harmonia do mundo, levado à sabedoria que pode nos ensinar a ser felizes.
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