Nos últimos 20 anos, a pesquisa sobre a fotografia moderna no Brasil elegeu um conjunto de obras, fotógrafos e práticas que foram reconhecidos como representativos ou exemplares dentro da experiência modernista no País. Esse processo foi direcionado por escolhas e valores de instituições culturais, críticos, curadores e historiadores, que determinaram quais expressões fotográficas mereciam maior atenção, análise e preservação.
Multiplicaram-se, então, investigações sobre os trabalhos de artistas como Geraldo de Barros, Thomaz Farkas e José Oiticica Filho, entre outros, cujas produções dialogam com tendências internacionais, mas também trazem questões locais e regionais. Suas obras muitas vezes exploram a abstração, o documental e a experimentação técnica, marcando um momento de esgarçamento das fronteiras entre arte e fotografia, vista como imagem objetiva.
Geraldo de Barros, por exemplo, trouxe à fotografia uma abordagem experimental e abstrata, utilizando técnicas de manipulação no laboratório para questionar os limites do meio. Nessa lógica, encontram-se sua singular trajetória ligada ao Foto Cine Clube Bandeirante e aos principais movimentos de vanguarda no Brasil, tal como o grupo Ruptura. Nas suas obras, é possível observar a fotografia do segundo Pós-guerra. Além do mais, Barros tornou-se pioneiro na fotografia abstrata com incursões pelo construtivismo e a pop art. Suas fotos experimentais tomam como ponto de partida a desconstrução, o efêmero, o fragmento e a descontinuidade de ações – justamente aqueles atributos que, nos primeiros tempos da fotografia, eram excluídos da imagem técnica.
É evidente que as contribuições destes fotógrafos e suas experiências foram altamente relevantes para a história da fotografia no Brasil. Porém, de certo modo, as pesquisas que restringem o campo da fotografia moderna à experiência do fotoclubismo e às interações entre as tendências internacionais e locais tornaram-se canônicas. Isto porque foram entendidas como parte integrante de um conjunto de ensinamentos – como regra ou padrão historicamente assinalado – ou, ainda, uma construção cultural que reflete as dinâmicas de poder e do saber. Hoje, o conceito de cânone na pesquisa sobre fotografia moderna no Brasil tem sido discutido.
O atual debate levanta questões sobre inclusão e exclusão: quem está sendo representado nessa escolha do objeto de pesquisa e nessas abordagens canônicas, e quem foi deixado de fora? Resulta, daí, a prática de estudiosos, críticos e curadores que seguem trabalhando para ampliar o campo da pesquisa, dando visibilidade a fotógrafas, artistas indígenas, negros e outras subjetividades que tradicionalmente foram marginalizadas. Inclua-se também, nesse debate, a revisão de marcos cronológicos.
Nesse sentido, dirigir atenção à diversidade da produção fotográfica moderna no Brasil, o revisitar e o reavaliar processos são atos de coragem e, acima de tudo, contínuo exercício de reflexão e crítica. O recém-lançado Fotografia moderna no Brasil, 1900-1950: arte, saber e poder, organizado por Helouise Costa e Heloisa Espada, com 12 textos elaborados por pesquisadores de várias linhas teóricas, do Brasil e do exterior, tem esses atributos essenciais para a pesquisa. De modo geral, o livro analisa a ambiguidade dos conceitos de modernidade, modernismo e moderno, considerando os enfoques a partir de gênero, raça e sexualidade.
O livro resulta do seminário internacional Fotografia moderna? Fragmentos de uma história (Brasil, 1900-1960), realizado em 2019 no IMS. Esse evento reuniu pesquisadores nacionais e internacionais para discutir a produção fotográfica na primeira metade do século 20, com foco nas relações entre fotografia e modernidade no Brasil. Foram abordados temas como a fotografia na Era Vargas, o papel da fotografia na arquitetura moderna brasileira e a popularização das câmeras Kodak. Embora tenham se passado cinco anos entre a realização do evento e o lançamento do livro — possivelmente devido às já conhecidas dificuldades editoriais e da pesquisa no Brasil —, os textos mantêm sua relevância e atualidade.
Apesar de não trazer textos assinados pelas organizadoras, a apresentação, a escolha dos textos e principalmente a divisão em três grandes eixos de discussão (1 – Políticas de representação e exibição; 2 – Sobre comércio, amadorismo e arte, e 3- Mediações da fotografia na literatura e na antropologia) mostram a acuidade dessas duas pesquisadoras – experientes no campo da fotografia.
Aqui, vale destacar as trajetórias de Heloisa Espada e Helouise Costa. De 2008 a 2022, Heloisa foi curadora no IMS, organizando exposições como Geraldo de Barros e a fotografia e Conflitos: fotografia e violência política no Brasil. Atualmente, é docente e curadora no MAC-USP. Seus estudos abordam as relações entre artes visuais e mídias de massa, com ênfase na fotografia, cinema e vídeo, além de analisar a arte construtiva no Brasil e suas conexões transnacionais.
Já Helouise é também curadora e professora do MAC-USP, com um percurso notável no âmbito das artes visuais e da fotografia. Seu interesse pela fotografia remonta a 1985, quando foi contemplada no concurso Cultura e Arte no Brasil: Tradição e Ruptura, realizado pela Fundação Nacional de Artes (Funarte), onde desenvolveu o projeto de pesquisa Abstratos e Geométricos: a Fotografia Moderna no Brasil, com Renato Rodrigues da Silva. Este projeto resultou na publicação do livro A Fotografia Moderna no Brasil.
Considerado um marco na historiografia, A Fotografia Moderna no Brasil fornece uma análise aprofundada de um momento crucial no meio artístico. Uma das grandes reflexões que o livro provoca é sobre como a fotografia, enquanto linguagem moderna, transcende o registro documental para se afirmar como uma forma de arte autônoma e experimental no contexto do movimento fotoclubista. Além disso, os autores iluminam a relação da fotografia com o sistema das artes, evidenciando como imagens foram usadas para moldar narrativas culturais e sociais, nos âmbitos artístico, fotográfico e político.
Mesmo amparada por sua sólida investigação anterior, compreende-se que, em Fotografia moderna no Brasil, 1900-1950: arte, saber e poder, as preocupações de Costa seguem além, trazendo as vivências e reflexões de 30 anos entre uma obra e outra, somadas às contribuições de Espada. Elas compreendem e reavaliam os processos de apagamentos e de negligências que ocorreram desde então. Na apresentação, o primeiro parágrafo demonstra de imediato essa ideia:
“Nas últimas duas décadas, consolidou-se o entendimento de que, no Brasil, o modernismo no campo da fotografia esteve circunscrito ao fotoclubismo, mais especificamente à experiência do Foto Cine Clube Bandeirante e de associações afins”.
E o pensamento continua:
“Toda essa dinâmica contribuiu para obliterar outras experiências de caráter moderno na fotografia, não menos importantes que o fotoclubismo, mas talvez mais dispersas e nem sempre impactantes do ponto de vista formal”.
Por iniciativa das organizadoras, baseadas na reflexão de ambas sobre o tema, e contando com o suporte de estudos robustos, esse novo livro rompe com os cânones e amplia a experiência da fotografia moderna no Brasil – estendendo o arco temporal da Belle Époque carioca aos anos de 1950 e incluindo novos sujeitos históricos. O conjunto de artigos estabelece um diálogo entre a fotografia e as mídias de massa, como cinema e revistas ilustradas, e com outras formas de arte, como literatura e arquitetura.
Os textos desfazem e/ou revisam convicções; diga-se, aqui, que não há nenhum que trate da experiência negra, exceto o estudo sobre as fotografias de Alice Brill, que aborda os marginalizados de São Paulo, nos anos de 1950 (e aí temos o negro como tema). Porém, isso não retira a importância da coletânea. São textos que tratam de projetos que foram abortados pelo poder institucional e contexto da época – tais como a Obra Getuliana e as já citadas fotografias de Alice Brill; olham mais de perto agentes secundarizados, tais como Dina Dreyfus e Jorge de Lima, ou, ainda, trazem novos enfoques sobre figuras renomadas do modernismo – tais como Mário de Andrade e Oswald de Andrade.
Em resumo, a obra aborda temas como o impacto da fotografia nas ciências humanas, sua participação em projetos de poder político e as questões de gênero, raça e sexualidade que permeiam um conceito de modernidade mais poroso e pluriversal. Acima de tudo, inicia um movimento que redime os apagamentos e recupera outras experiências diversas ao fotoclubismo, mas que estiveram presentes na modernidade. Não se trata da exclusão deste tema de pesquisa, mas sim, é a abertura para novos objetos e abordagens. Sendo assim, é um livro para aqueles que desejam entender não apenas a história da fotografia no Brasil, mas também os contextos sociais, culturais e políticos que moldaram as suas diversas práticas para além do campo da arte.
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