Cultura guarani inspira mostra de dança e rodas de conversa

Em cartaz no Teatro da USP até o fim deste mês, série de eventos celebra os 25 anos da Cia. Oito Nova Dança

 12/03/2025 - Publicado há 1 ano
Por
Uma pessoa num palco com a cabeça enrolada num pano.
Lá, nos Corpos d’Água, que estreou em 2024, é o espetáculo mais recente da Cia. Oito Nova Dança – Foto: Divulgação/Matheus José Maria

 

Na luta xondaro, praticada pelos índios Guarani M’byá, os guerreiros não focam em atacar e se defender, mas em se esquivar. A prática da não violência vai além da luta: para aquele povo, trata-se de uma filosofia de vida. Inspirada nesse princípio, a mostra Tríptico Lá|Esquiva|Juruá estreia nesta sexta-feira, dia 14, nas salas do Teatro da USP (Tusp) instaladas no Centro Cultural Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária, em São Paulo, e no Centro MariAntonia, na Vila Buarque, região central da capital paulista. Em três finais de semana, até o dia 30 deste mês, o evento vai apresentar dança contemporânea, canto coral, a luta xondaro e rodas de conversa. A entrada é grátis e aberta ao público em geral.

Promovida pela Cia. Oito Nova Dança, a série de espetáculos celebra os 25 anos da companhia, além de homenagear a parceria do grupo com o povo Guarani M’byá, da aldeia Kalipety, em Parelheiros, no extremo sul da cidade de São Paulo. A luta e a cultura indígena têm destaque nos trabalhos artísticos da companhia desde 2012, quando seus integrantes, em visitas à aldeia, começaram a entrar em contato com o xondaro. A mostra apresenta a última fase da pesquisa da companhia em campo, abordando questões ecológicas e culturais.

Lá|Esquiva|Juruá se constitui como um tríptico, isto é, três espetáculos de dança compõem o mesmo trabalho, como um conjunto de pinturas formado por três painéis acoplados. A partir desta sexta-feira, dia 14, em cada final de semana até o fim do mês, será apresentada uma obra.

Primeira semana: intervenção urbana Esquiva

Uma pessoa deitada na rua, com duas pessoas passando por cima dela e outras pessoas olhando.
Intervenção urbana Esquiva – Fotos: Divulgação/Vitor Vieira

 

O evento começa nesta sexta-feira, dia 14, às 18 horas, no Centro MariAntonia, com a apresentação da intervenção urbana Esquiva, um trabalho que a companhia levou às ruas de São Paulo em 2016. “O guerreiro guarani treina a esquiva, não o confronto. Isso é um modo de ser guarani, muito mais do que simplesmente um trabalho corporal”, explica a bailarina, coreógrafa e professora de dança Lu Favoreto, que fundou a companhia no ano 2000. Sob a orientação de antropólogos na pesquisa e na dramaturgia, o grupo continuou a parceria com os Guarani M’byá e lançou essa intervenção urbana, que mescla os princípios do xondaro em uma coreografia de dança contemporânea.

Esquiva foi o primeiro trabalho que a companhia criou para a performance na rua, e ele estreou em um momento em que a cidade de São Paulo era palco de protestos políticos pelo impeachment da então presidente Dilma Rousseff. “O objetivo do nosso projeto era fazer 11 intervenções pela cidade, em lugares históricos e de importância cultural. E acabou que a gente pegou exatamente a época em que a cidade estava efervescente, com muitas manifestações. Eu nunca tinha vivido desse jeito a arte e a cidade.”

No sábado, dia 15, a intervenção será exibida às 16 horas, também no Centro MariAntonia. Em seguida, integrantes da aldeia Kalipety vão apresentar uma roda de xondaro e o coral de mulheres e crianças Guarani Mbyá fará uma performance com cantos sagrados e mborae’i, gênero tradicional tocado com violão e rabeca guarani, visando demonstrar a importância de preservar as culturas originárias. Haverá ainda uma roda de conversa com as lideranças indígenas Jerá Guarani e Karai Tiago e o antropólogo Lucas Keese dos Santos, mestre em Antropologia Social pela USP, que orientou a produção do espetáculo. No domingo, dia 16, Esquiva será apresentada às 18 horas, no mesmo local.

Segunda semana: Lá, nos Corpos d’Água

Uma pessoa segura uma vela acesa, colocada dentro de um tanque de vidro com água.
Cena de Lá, nos Corpos d’Água – Fotos: Divulgação/Matheus José Maria

 

As atividades do segundo fim de semana da mostra, dias 21, 22 e 23, ocorrerão no Centro Cultural Camargo Guarnieri, na Cidade Universitária. Nesses dias, será apresentado o trabalho mais recente da Cia. Oito Nova Dança, lançado em 2024 e intitulado Lá, nos Corpos d’Água. Esse trabalho teve origem numa palestra do filósofo e ambientalista Ailton Krenak realizada em 2019, no Sesc Pompeia, em São Paulo. Na palestra, Krenak destacou a relação dos rios com a cidade – tema que constitui o cerne da performance.

No dia 21, sexta-feira, às 19 horas, haverá uma roda de conversa sobre Indigenizar a Cidade, Dançar a Cidade, com a participação do antropólogo Renato Sztutman e das lideranças indígenas Lilly Baniwa e Emerson de Oliveira Guarani. Em seguida, será exibida Lá, nos Corpos d’Água. A performance se repetirá no dia 22, sábado, às 21 horas, e no dia 23, domingo, às 19 horas.

Terceira semana: Juruá

Um homem num palco dançando, sendo observado por outras pessoas.
O espetáculo Juruá é apresentado desde 2018 – Fotos: Divulgação/Felipe Teixeira

 

A mostra vai se encerrar no último fim de semana do mês, também no Centro Cultural Camargo Guarnieri, com a peça Juruá, que será apresentada nos dias 28, 29 e 30, sempre às 17 horas. Juruá é uma experimentação da Cia. Oito Nova Dança para inserir a mesma proposta de Esquiva no ambiente teatral tradicional. “É a matéria criativa do xondaro, mas com os elementos compositivos da cena, palco, luz cênica, pensamento coreográfico, teatro: aí nasceu Juruá”, conta Lu Favoreto. A palavra juruá é uma maneira usada pelos guaranis para se referir aos não indígenas, o que remete à relação construída entre a companhia e a aldeia, baseada em trocas de saberes e costumes, exaltando as semelhanças e diferenças entre pessoas com modos de vida tão distintos.

Originalmente, Juruá foi apresentada on-line em razão da pandemia de covid-19, e agora ganha os palcos. No dia 29, sábado, às 18h30, após a exibição da peça, haverá a roda de conversa A Cidade nas Lutas das Aldeias e das Quebradas, com participação da antropóloga Valéria Macedo e das lideranças indígenas Pará Reté Minduá, Marilene Bolgarin, Pará Mirim Jaciara Martim e Karai Djekupe Jurandir Martim.

Uma mulher dançando num palco.
A dançarina, coreógrafa e professora Lu Favoreto, fundadora e diretora da Cia. Oito Nova Dança, também está entre os intérpretes da mostra – Foto: Divulgação/Matheus José Maria

 

Lu Favoreto destaca a importância de permanecer fazendo arte coletiva no Brasil, em especial quando se trata de uma parceria com um povo originário. “Permanecer é um desafio, mas quando faz sentido, a gente dá um jeito e continua. A arte exige coletividade, suporte e transformação constante. Depois de 25 anos, é interessante ver aonde a companhia chegou, como os temas amadureceram e como a questão indígena, presente há 12 anos, agora se conecta ao meio ambiente e ao futuro.”

A mostra Tríptico Lá|Esquiva|Juruá acontece desta sexta-feira, dia 14, até dia 30, às sextas-feiras, sábados e domingos, nas salas do Teatro da USP (Tusp) localizadas no Centro Cultural Camargo Guarnieri da USP (Rua do Anfiteatro, 109, Cidade Universitária, em São Paulo) e no Centro MariAntonia da USP (Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, região central de São Paulo, próximo às estações Santa Cecília e Higienópolis-Mackenzie do metrô). Mais informações, horários e a programação completa do evento estão disponíveis no site do Tusp.


Política de uso 
A reprodução de matérias e fotografias é livre mediante a citação do Jornal da USP e do autor. No caso dos arquivos de áudio, deverão constar dos créditos a Rádio USP e, em sendo explicitados, os autores. Para uso de arquivos de vídeo, esses créditos deverão mencionar a TV USP e, caso estejam explicitados, os autores. Fotos devem ser creditadas como USP Imagens e o nome do fotógrafo.