Aos 80 anos, Luiz Damasceno inaugura peça e exposição on-line

Ator e diretor gaúcho atuou como professor da Escola de Arte Dramática (EAD) da USP por 25 anos

 Publicado: 16/09/2021
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Cena da peça Só Ópera – Foto: Ronaldo Gutierrez

Aos 80 anos, o ator e diretor gaúcho Luiz Damasceno se descreve como quem tem um respeito absoluto pelo palco — para ele, um lugar sagrado. “É onde você cria, onde se doa, se transforma, brinca. Onde você é a sua essência. Se não for assim, se for só pela exposição, sucesso e ganho material, acho que não vale a pena. Precisa ser um lugar onde a pessoa possa se expressar com um fervor quase religioso”, reflete Damasceno, que durante 25 anos foi professor da Escola de Arte Dramática (EAD) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Em comemoração à sua trajetória de vida e carreira, Damasceno estreou no dia 10 passado a peça on-line Só Ópera e, a partir do próximo dia 24, inaugura a exposição de arte O Sopro. Os dois trabalhos são realizados em parceria com o ator, diretor e produtor de teatro Giovani Tozi, que assina o texto e a direção da peça, além de dirigir a exposição.

Nascido em 1941 em Porto Alegre (RS), Luiz Damasceno despertou para a arte ainda criança. Por volta dos 9 anos de idade, ao passar em frente a uma escolinha de arte da Prefeitura, viu crianças fazendo atividades com fantoches, pintura e barro. Entrou e se inscreveu para participar da “brincadeira” também. 

Já o interesse pelo teatro chegou um pouco mais tarde, aos 18 anos, quando foi acompanhar um amigo no vestibular para Artes Cênicas, que exigia a preparação de uma cena. “‘Não me deixa pagar esse mico sozinho’, ele pediu.” Damasceno ajudou o amigo, elaborando e fazendo a cena. “Ele desistiu, hoje é advogado, e eu continuo até hoje. Começou numa brincadeira”, relembra. Damasceno cursou, paralelamente, Artes Cênicas e Artes Plásticas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), onde se formou em 1967. Foi aluno de figuras como Eugênio Kusnet e Gerd Bornheim, do teatro, e Regina Silveira, Ado Malagoli e Alice Soares, das artes plásticas.

Depois da escola de teatro, tornou-se profissional em Porto Alegre, ganhando prêmios relacionados à atuação, cenografia e figurino. A partir da necessidade de “ir para um lugar maior, para aprender mais”, foi para o Rio de Janeiro, mas não se adaptou. Acabou optando pela cidade de São Paulo, para onde se mudou em 1971. “Não conhecia ninguém, fiquei um ano trabalhando na TV Tupi como decorador de cenografia, até que surgiu um chamado para testes de atores, com Ademar Guerra na direção. Eu já conhecia o trabalho dele, fui correndo me inscrever e fiz o teste”, conta Damasceno. Assim, em 1972, integrou o elenco de Missa Leiga, de Chico de Assis, com direção de Ademar Guerra e produção de Ruth Escobar.

Luiz Damasceno na peça Só Ópera – Foto: Ronaldo Gutierrez

Foi então que a longa carreira de Luiz Damasceno “engatou”, em suas palavras — e, com o tempo, tornou-se um importante ator de teatro de sua geração. 

Para ele, um dos aspectos mais marcantes de sua trajetória foi o período de 16 anos em que trabalhou com o autor e diretor de teatro Gerald Thomas. Carmem com Filtro foi seu primeiro trabalho com ele, em 1986. Damasceno também trabalhou com uma série de outros diretores — e diz que cada um lhe deu um tipo de experiência —, como Vladimir Capella, Maurice Vaneau, Mauro Mendonça Filho, Sérgio Ferrara, Bete Coelho, Bob Wilson, William Pereira, Otávio Martins e Jô Soares. Em 2005, recebeu o Prêmio Shell de melhor ator por O Mercador de Veneza, de William Shakespeare, com direção de Ferrara. Também encenou papéis na televisão e no cinema.

Além do teatro e das artes plásticas, Damasceno recentemente encontrou um novo aprendizado. “Estou estudando canto há um ano”, diz, com entusiasmo. “Era uma das minhas frustrações. Sempre achei que era uma coisa impossível de alcançar. Aí, quando fiz 80 anos, decidi fazer, brincar um pouco de cantar”, conta.

“Eu acho que a gente não pode simplesmente parar. Tem que ser uma pessoa criativa pela vida inteira, até o final. Por enquanto é teatro, artes plásticas, canto, mas certamente vai aparecer mais alguma outra coisa que eu irei tentar desbravar, conhecer, jogar e brincar. Adoro brincar”, considera Damasceno.

“Ensinar e atuar têm igual valor”

Nas duas décadas e meia em que atuou como professor da Escola de Arte Dramática, Luiz Damasceno foi professor de Interpretação. Em 1985, ele foi chamado para substituir um professor durante um semestre. “Terminado esse período, os alunos fizeram um abaixo-assinado pedindo que eu continuasse, e então o diretor me contratou”, conta o ator. “Muita gente passou pela minha mão. Às vezes estou vendo televisão e vejo alguém que foi meu aluno”, compartilha o ator. Para Damasceno, ensinar teatro traz uma gratificação tão grande quanto estar em cena. “Quando estou pintando, tenho prazer pleno. Quando estou atuando, tenho prazer pleno. E quando estou dando aula, tenho prazer pleno. São coisas muito importantes na minha vida, tanto ensinar como atuar têm um valor igual”, reflete.

A peça Só Ópera se passa no estúdio de uma emissora e apresenta o embate geracional entre dois radialistas – Foto: Ronaldo Gutierrez

O ator Giovani Tozi, diretor da estreante Só Ópera, descreve Damasceno como um apaixonado pelo ofício do ator. “Ele dedica a vida a isso, está sempre atento ao que acontece em relação ao ator, em relação ao espaço, sempre pensando e estudando”, analisa Tozi. “Se Damasceno vai ver um filme, ele está pensando na atuação do ator. Mas, também, se vai ao médico, por exemplo, percebe o que o médico faz, e isso vira repertório para ele”, conta o companheiro de cena.

Damasceno e Tozi se conheceram em 2009, quando foram escalados para a peça O Colecionador de Crepúsculos, de Vladimir Capella, em papéis de pai e filho. Tozi percebeu de início a disposição de mestre do veterano, o que o fez se encantar ainda mais pelo trabalho de Damasceno. O ator relembra uma cena em que, durante a interpretação de um texto, o mais velho deveria interrompê-lo. Até que parou de fazê-lo. “Eu chegava na coxia e perguntava, ‘Damasceno, você esqueceu de me interromper?’. Ele respondia que não. ‘Quero saber se você está presente o suficiente na cena para improvisar se for necessário’.” O episódio ilustra, para Tozi, a obsessão de Damasceno pela profissão, o que é inspirador para atores mais jovens como ele.

Damasceno conta que, quando não está em cena com Tozi, atua como um treinador, uma espécie de coach. “Ele relata dificuldade em alguma cena e eu indico outros caminhos. Vou ajudando ele a sair do buraco”, diz. Durante a pandemia, trabalharam juntos em outras peças no formato on-line, intituladas Peixe Cabeça de Cobra e Não se Mate.

Só Ópera 

A palavra “brincar”, retomada algumas vezes por Damasceno para se referir às atividades artísticas que desenvolveu ao longo da vida, também aparece quando os atores descrevem a peça Só Ópera. Para Tozi, trata-se de uma brincadeira, acima de tudo: dois amigos comemorando os 80 anos de um deles. 

A narrativa se passa no estúdio de uma emissora e apresenta o embate geracional entre dois radialistas: Luiz Pavarinni, um respeitado veterano, e Enzo Valentim, um novato recém-formado. Os personagens apresentam um programa sobre ópera e revisitam clássicos do gênero, através de paródias, dramatizando diálogos fictícios de Macbeth, A Flauta Mágica e Carmen, dentre outros. Só Ópera é resultado de uma pesquisa sobre humor radiofônico iniciada em 2018 por Tozi, que é também doutorando e mestre em Artes da Cena pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

“Todo esse pano de fundo já dá um certo caldo para a peça, e faz aprender um pouco mais sobre as óperas, o que não é familiar para nós. A ópera no Brasil não é popular, e o texto brinca justamente com isso”, conta Tozi. “Em um programa de rádio sobre ópera, que vemos como uma coisa mais elitizada, mais burguesa, as pessoas ligam e pedem para ouvir Os Barões da Pisadinha (banda brasileira de forró eletrônico e tecnobrega). Tem essa dualidade, que também aparece na relação entre os dois homens, um mais jovem e outro mais velho”, completa o diretor.

Damasceno diz que a experiência de realizar produções para o formato on-line, após uma longa carreira nos palcos, é um aprendizado. “Não se pode simplesmente filmar o teatro, colocar uma câmera parada e fazer o texto como é no palco. Não tem a troca entre ator e plateia, é um outro caminho, que a gente ainda não definiu muito bem o que é”, explica o ator. “Não pode ser nem teatro nem televisão. Tem que ser uma junção das duas coisas. Utilizar o audiovisual dentro da peça é uma coisa maravilhosa, você consegue manter o interesse do espectador, pela sucessão de imagens, pelos cortes, pela edição”, acrescenta. “Estamos incorporando elementos do audiovisual para tentar potencializar aquilo que a gente já faz no palco há tantos anos”, sintetiza Tozi.

O Sopro

“Desde garoto gosto de desenhar e desenvolver um lado estético, mesmo antes de fazer teatro. Sempre fiz teatro e pintura concomitantemente”, comenta Damasceno sobre a outra atividade que desenvolve há décadas. “Quando vim para São Paulo, tive que escolher entre teatro e artes plásticas. Escolhi teatro porque dependia só de mim, eu daria um primeiro passo sem a necessidade de uma oficina, de conhecer pessoas, por exemplo. Mas todo meu horário livre era dedicado a desenho, pintura, gravura”, explica.

Durante a pandemia, a relação com as artes plásticas se intensificou: Damasceno produziu quase 70 obras. “Não tem mais lugar aqui em casa — ou eu saio para os quadros ficarem, ou os quadros saem para eu ficar”, brinca o artista. “Eu em casa, sozinho com a minha tela e as minhas tintas, resolvo toda essa minha insatisfação de criação.”

A partir disso nasceu a exposição O Sopro, que acontece em formato virtual e é a primeira de Damasceno. As mais de 50 obras da mostra seguem o recorte temático “Mulheres”, além de figuras de animais e o tema circo. “Fiquei encantado quando descobri que ele tinha também essa aptidão para as artes plásticas”, diz Tozi, que descreve o processo de pintura do amigo como uma imagem que se transforma a partir da criação de uma mancha na tela. “Parece que as telas do Damasceno sempre têm uma história, uma narrativa. Como o trabalho do dramaturgo ou do diretor, ele cria uma cena de uma mancha. Ele materializa exatamente o que a gente faz no palco”, conclui Tozi. 

A peça Só Ópera será transmitida on-line e gratuitamente nos dias 17 e 18 de setembro, às 21 horas, e 19 de setembro, às 19 horas, pelo Teatro João Caetano. Acesso pelo Facebook ou Youtube

A exposição O Sopro acontece a partir de 24 de setembro, às 20 horas, com visitação virtual pelo Espaço Cultural Bricabraque. Grátis. Acesso para o lançamento via YouTube. O conteúdo ficará liberado para a visitação.

 


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