

Um levantamento realizado entre agosto de 2025 e abril de 2026 pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), o Tic Educação, mostrou que 84% das escolas tinham internet disponível para uso dos alunos. Apesar do salto comparado aos anos anteriores, outro detalhe da pesquisa chama a atenção: 38% das escolas não têm simultaneamente internet e computador disponíveis para os alunos.
A desigualdade também está presente entre escolas urbanas e rurais: enquanto 73% das escolas urbanas tinham, em 2025, internet e computadores disponíveis para os alunos, no meio rural apenas 41% possuíam. No contexto deste século é imprescindível que o ensino acompanhe as transformações tecnológicas e ofereça a todos os estudantes condições para utilizar essas ferramentas de forma crítica e adequada.
Integração da tecnologia ao ensino

Entretanto, para que esse uso seja potencializado, é necessário pensar em como esses recursos são utilizados em sala de aula e se professores e alunos estão preparados para isso. Pensando nisso, o professor Marcelo Giordan, da Faculdade de Educação da USP, responde à seguinte pergunta: o que significa, de fato, integrar tecnologia ao processo de aprendizagem?
“Há muitas maneiras de integrar a tecnologia. Eu acho que para ela ser significativa, trazer mudanças, contribuições, precisa estar aliada a intenções que sejam compartilhadas entre alunos e professores. Já existe uma diferença grande das intenções de apropriação da tecnologia digital por alunos e professores, como existem também diferentes intenções para outras tecnologias. Então, não significa simplesmente ter internet, computador, para que haja, de fato, uma integração efetiva”, explica.
Com o crescimento, vêm problemas
Entre 2022 e 2025, a parcela de escolas com internet disponível para os alunos passou de 80% para 84%. Nas redes municipais e estaduais também aumentou o número de escolas com acesso à internet dentro das salas de aula. Esse crescimento, porém, é acompanhado de novas demandas e problemas. “As condições de acesso são muito díspares, sobretudo porque esse equipamento é de uso coletivo.”
Giordan aponta um paradoxo: “Praticamente cada estudante, dependendo da faixa etária, vai ter o seu próprio telefone, um minicomputador no seu bolso”. Isso, porém, não elimina as desigualdades de acesso à tecnologia nas escolas. “A simetria das condições de acesso continua sendo algo para se pensar”, especialmente quando se trata de atividades coletivas, que exigem condições adequadas de participação e objetivos pedagógicos que vão além do simples uso de equipamentos.
Além disso, fatores como as mudanças de governo podem comprometer a continuidade dessas iniciativas, dificultando a redução das diferenças entre as instituições de ensino. “Existe uma descontinuidade muito grande em relação às políticas públicas, que mudam na mesma medida que trocam-se os governantes. Um exemplo disso é o próprio PNE, Plano Nacional da Educação. Mas o que fundamentalmente explica essa diferença é a falta histórica de financiamento contínuo e robusto da educação.”
É possível acompanhar as mudanças?
Enquanto essas ferramentas se transformam rapidamente, cresce a necessidade de preparar professores para utilizá-las de forma pedagógica. Para evidenciar esse problema, na pesquisa TIC Educação 2025, apenas 22% dos gestores escolares afirmaram que suas instituições possuíam um guia de orientações específicas para o uso da inteligência artificial no ensino, na aprendizagem e na gestão escolar.
A percepção do professor é que nada acompanha a velocidade com que novas tecnologias, como a inteligência artificial, chegam ao cotidiano, não só escolar, mas geral. Para ele, essas ferramentas podem contribuir para o desenvolvimento dos estudantes ao estimular novas formas de pesquisa. “Em vez de utilizar apenas palavras-chave, os alunos podem aprender a formular perguntas mais elaboradas. O ato de perguntar é um dos pontos fundamentais de desenvolvimento humano”, afirma, ressaltando a importância da formação docente para desenvolver esse potencial.
O pesquisador também chama a atenção para os desafios éticos relacionados ao uso da inteligência artificial, como a confiança nas informações fornecidas e a atribuição de autoria a conteúdos produzidos por essas ferramentas. Esse cenário exige uma reflexão sobre “qual é o papel das pessoas, dos educadores, diante dessa potencialidade enorme que essa tecnologia traz”.
Contribuição para a educação
Mas como saber se a tecnologia está realmente contribuindo para a aprendizagem? Mais do que substituir ferramentas tradicionais por recursos digitais, é preciso avaliar se essas ferramentas realmente ampliam as possibilidades de aprendizado. “Há muitas formas de fazer essa diferenciação, mas eu volto a dizer: as intenções dos alunos e dos professores devem sempre estarem alinhadas”, pontua.
Giordan recorda-se de uma dinâmica realizada por uma professora em sua tese de doutorado, onde ela simulou um Orkut “real”. “Aquilo envolveu uma dinâmica muito interessante, onde os alunos praticaram essa comunicação rápida das redes num ambiente físico. Então, as adaptações são possíveis, e acho que devem estar presentes para contribuir na medida em que tiverem condições de acesso e agência de utilização resolvidos em alto nível.”
Uso ético e limitado
O professor, entretanto, faz uma ressalva: é necessário estabelecer limites claros para a utilização dos novos recursos, para que não substituam o planejamento nem comprometam a autonomia dos educadores na sala de aula. O celular pode prejudicar a aprendizagem quando divide a atenção dos estudantes, e delegar planejamentos de aula a sistemas automatizados pode comprometer a qualidade do ensino. “É uma diminuição da qualidade potencial que a interação entre professor e estudante guarda.”
Por fim, com o fortalecimento das tecnologias digitais e a sua complexificação é essencial que os agentes da educação se debrucem sobre essa temática de forma bastante reflexiva, sem se suscetibilizar a pressões. “Existe uma pressão enorme de um mercado que está ávido por vender soluções, ou mesmo por um controle que essas tecnologias também permitem. Acredito que todo controle exacerbado tira a liberdade, então precisamos estar muito atentos a essa disputa”, finaliza.


























