Irã 5 x EUA 0

Anúncio de negociações entre Washington e Teerã reacende o debate sobre os custos políticos, econômicos e estratégicos da escalada militar no Oriente Médio

 19/06/2026 - Publicado há 3 meses     Atualizado: 22/06/2026 às 8:10

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Estamos gravando este podcast na quarta-feira à noite, dia 17 de junho, e, como temos repetido, nada impede que haja reviravoltas nas próximas 24 horas. Mas os Estados Unidos anunciaram que o acordo com o Irã foi antecipado de sexta para quinta-feira — um memorando de 14 parágrafos. Trump tem pressa de sair da embrulhada que criou. Rara mostra de bom senso para corrigir a nau da insensatez em que ele havia embarcado ao atacar o Irã, sem pretexto ou justificativa plausíveis. Trump perdeu a guerra de goleada, apesar de insistir em suas bravatas, como, por exemplo, lembrar que foi ele quem assassinou, em 2020, Soleimani, então chefe da poderosa Guarda Revolucionária Iraniana.

Perdeu fragorosamente e fez cinco gols contra.

Primeiro gol contra: a liberação de um fundo de investimento para o Irã de US$ 300 bilhões, fundo privado com a participação de investidores de vários países, notadamente dos EUA e dos países do Golfo Pérsico (embora o Asian Bulletin, na terça-feira, tenha negado peremptoriamente a participação dos Emirados Árabes, o Proxy mais próximo dos estadunidenses). Traduzido para o farsi (língua persa), esse megainvestimento nada mais é do que a concordância com a exigência iraniana de reparações de guerra para reconstruir aeroportos e outras instalações bombardeadas no período.

Segundo gol contra: levantamento das sanções que congelaram os capitais iranianos. Isto é, devolver aos legítimos donos o dinheiro sequestrado. Não se deve confundir com o primeiro gol: uma coisa é suspender as sanções, antigo pleito do regime iraniano; outra é criar um novo fundo de investimento.

Terceiro gol contra: ao reconhecer a derrota da aventura norte-americana e confessar a pressa de sair da encrenca, os EUA concederam ao Irã um prestígio geopolítico inédito, inclusive com a impensável diplomacia de boa vizinhança com os países árabes sunitas, inimigos viscerais dos xiitas desde a morte do neto do profeta Maomé, há séculos.

Quarto gol contra: o método de assassinar lideranças foi um tiro no pé. Khamenei filho sucedeu Khamenei pai, com o agravante de que, atualmente, o poder deslizou das mãos dos aiatolás para a mão armada da Guarda Revolucionária. Isto é, houve um endurecimento do regime. Para quem dizia ter como propósito uma mudança de regime (blá-blá-blá de atender aos protestos populares ressuscitando a dinastia Pahlavi, que foi uma das mais sanguinárias da história), o efeito bumerangue acabou sendo fortalecer a linha-dura e debilitar os reformistas.

Quinto gol, o mais importante deles: o mundo descobriu que o Irã tem uma arma poderosíssima, chamada Estreito de Ormuz (por onde passam 20% do petróleo mundial e uma parcela ainda maior do gás natural), cujo fechamento pode provocar uma crise econômica de proporções apocalípticas. Note-se que a suposta promessa de abrir Ormuz e regularizar a navegação na área não significa que os iranianos tenham desistido de cobrar pedágio dos navios, nem que as seguradoras marítimas deixem de cobrar uma taxa de risco para os petroleiros.

Poderíamos até falar em 6 a 0, para mencionar outra acachapante derrota estadunidense, no que diz respeito à proibição de enriquecer urânio e, quem acredita?, de destruir o estoque de urânio que passou a ser enriquecido quando Trump, em 2018, retirou-se do Acordo Nuclear, esvaziando a agência de inspeção de armas atômicas.

Antes do despropositado ataque de Trump, insuflado por Netanyahu, o Irã mantinha sua capacidade nuclear sob vigilância e visitas constantes da Agência Internacional de Energia Atômica (IAEA), e os navios iam e vinham à vontade por Ormuz.

O caldo entornou. E ainda falta o segundo tempo, que, pelo visto, será mais demorado, arriscado e incerto do que a própria partida.

Conflito e Diálogo

Com a Profª. Marília Fiorillo

Conflito e Diálogo, com a professora Marília Fiorillo, vai ao ar quinzenalmente sexta-feira às 8h, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9 ), com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.


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