Interseccionalidade pode ajudar a compreender a insegurança alimentar

Por Bruna Köhler, doutoranda na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, Beatriz Alves Leite, mestranda na FSP-USP, e Dirce Maria Lobo Marchioni, professora da FSP-USP e coordenadora do INCT Combate à Fome*

 28/04/2026 - Publicado há 3 meses
Bruna Köhler – Foto: Arquivo pessoal
Beatriz Alves Leite – Foto: Arquivo pessoal
Dirce Maria Lobo Marchioni – Foto: Arquivo pessoal
O conceito de interseccionalidade vem ganhando cada vez mais espaço nas discussões sobre desigualdade e direitos sociais. Formalizado em 1989 pela jurista e feminista Kimberlé Crenshaw, nasceu da constatação de que as opressões não ocorrem de forma isolada. A autora critica a abordagem de “raça e gênero como categorias mutuamente exclusivas de experiência e análise”, e defende um olhar atento às sobreposições de vulnerabilidades. Essa perspectiva permite compreender como diferentes combinações de raça, gênero e renda moldam o acesso a direitos e oportunidades.

Na área da alimentação, essa abordagem contribui para explicar por que determinados grupos vivenciam a insegurança alimentar de maneiras distintas. Análises focadas em um único critério podem ocultar diferenças estruturais relevantes, oferecendo visão parcial dos problemas sociais. A interseccionalidade, apresenta-se, portanto, como um prisma necessário para aprofundar essa compreensão, revelando desigualdades que, de outra forma, poderiam permanecer invisíveis.

O 1º Inquérito sobre a Situação Alimentar do Município de São Paulo (2024) mostrou que mesmo em uma das cidades de maior PIB do país, 50,5% dos domicílios vivem algum grau de insegurança alimentar. Desses, 12,5% estão em situação de insegurança alimentar grave, ou seja, presença da fome no domicílio. Nesse contexto, a insegurança alimentar grave em lares chefiados por mulheres foi 1,8 vez maior do que em lares chefiados por homens; entre pessoas pretas, 1,3 vez maior do que entre pessoas brancas.

Quando raça e gênero são considerados de forma combinada, as desigualdades se intensificam. Segundo dados do mesmo inquérito, nos domicílios cuja pessoa de referência era uma mulher preta, 17,5% encontravam-se em situação de insegurança alimentar grave, proporção 2,1 vezes superior à observada naqueles em que a pessoa de referência era um homem branco (8,1%).

Estudantes universitários também constituem um grupo vulnerável à insegurança alimentar. Pesquisa conduzida com graduandos das cinco regiões do país (Brazuca-Covid), com coleta de dados realizada entre 2020 e 2021, identificou que a insegurança alimentar esteve presente em 38,6% dos domicílios dos estudantes. Ao considerar especificamente os estudantes da USP, a prevalência foi de 30%, sendo 22% classificada como moderada e 8% como grave. Essas prevalências, embora elevadas, foram inferiores à estimativa nacional observada no mesmo período, de 55,2%, segundo dados do 1º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 (1º Vigisan). Embora se refiram ao período da pandemia, atualmente esses dados correspondem às informações mais recentes disponíveis sobre insegurança alimentar entre o público universitário no país.

Entre os estudantes, essa vulnerabilidade é mais acentuada entre aqueles autodeclarados de cor da pele parda e preta, que apresentaram, respectivamente, 1,9 e 2,9 vezes a chance de insegurança alimentar em comparação aos estudantes de cor da pele branca, segundo dados da mesma pesquisa. Esse padrão revela um gradiente racial da insegurança alimentar no espaço universitário, ainda que não estejam disponíveis análises interseccionais envolvendo gênero e renda, o que poderia evidenciar novas camadas de desigualdade.

Embora políticas de cotas, auxílios estudantis, restaurantes universitários e programas de moradia tenham ampliado o acesso e a permanência, muitas vezes esses recursos são insuficientes diante das condições socioeconômicas adversas que afetam estudantes de baixa renda, negros e periféricos. Na população universitária, a insegurança alimentar associa-se à pior qualidade da alimentação, maior sofrimento psíquico e prejuízos ao desempenho acadêmico. Assim, a perspectiva interseccional pode ampliar a compreensão dos obstáculos à garantia do acesso à alimentação adequada no contexto universitário, ao identificar como a combinação de múltiplas desigualdades molda a vivência da insegurança alimentar dos estudantes universitários.

* Membros do INCT Combate à Fome: estratégias e políticas públicas para a realização do direito humano à alimentação adequada – Abordagem transdisciplinar de sistemas alimentares com apoio de Inteligência Artificial
E-mail INCT – inctcombatefome@usp.br

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