



Classificações que simplificam
Ao pensarmos em gramática, é comum nos lembramos daqueles exercícios de identificação e de classificação vistos na escola, como os tipos de sujeito e predicado ou as orações coordenadas e subordinadas. A gramática está presente no ensino da língua portuguesa no Brasil desde os tempos em que os portugueses aqui chegaram. A separação entre os estudos de gramática, poética e retórica, já no século 16, deixou como herança uma visão fragmentada da língua, em que a estrutura gramatical e o texto chegam a ser ensinados como disciplinas curriculares separadas. No contexto da gramática, herdamos o entendimento de que estudar língua é saber metalinguagem e classificação, práticas taxionômicas pouco produtivas para compreender o funcionamento da língua e sua implicação na construção de sentido do enunciado.Uma visão tradicional e simplificadora da gramática reapareceu recentemente na mídia, nos desdobramentos do que ocorreu em novembro de 2024, quando a cantora, apresentadora e empresária Jordana Gleise de Jesus Menezes, popularmente conhecida como Jojo Todynho, fez uma declaração polêmica no podcast Brasil Paralelo, na qual denunciava uma violação do Código Eleitoral. Depois de questionada pelo entrevistador se já tinha recebido alguma proposta para apoiar algum político, Jojo consulta alguém que a acompanha (provavelmente uma assessora) e responde:
Me ofereceram um milhão e meio para fazer campanha quando o Lula se… veio… candidato a presidente (referência à campanha eleitoral de 2022).
A fala ganhou dimensão nas redes sociais, com uma resposta imediata do Partido dos Trabalhadores (PT), que alegou ter havido difamação contra o partido por parte da influenciadora na entrevista, o que culminou num embate que chegou à Justiça, com uma queixa-crime apresentada pelo PT ao Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
No processo, um ano depois, a defesa da influenciadora argumentou que a queixa era inepta pelo fato de, na oração “Me ofereceram um milhão e meio”, não haver sujeito determinado. Classificada, portanto, como oração com sujeito indeterminado, não haveria ali um alvo para a difamação alegada, ou seja, não se estaria dizendo quem “ofereceu um milhão e meio”, tese com a qual o Ministério Público concordou. Todavia, seria esse mesmo um problema tão simples de classificação de tipos de sujeito como sugere nossa gramática escolar tradicional?
Por que indeterminamos o sujeito?
O uso do sujeito indeterminado, justificativa utilizada pelos advogados da defesa de Jojo Todynho, nos é bem familiar das aulas de gramática do ensino fundamental e médio. De acordo com a gramática tradicional, em algumas orações que não possuem sujeito expresso, utiliza-se o sujeito indeterminado, seja por não conhecermos sua identidade, seja por não termos intenção de explicitá-la. Ataliba Castilho aponta a indeterminação do sujeito como uma das propriedades semânticas mais exploradas na gramática tradicional. Para o autor, nenhuma forma indicativa de sujeito será intrinsicamente indeterminada, inclusive o uso da forma verbal na terceira pessoal do plural, comumente atribuída à indeterminação do sujeito, e que coincide com o exemplo em estudo: “Me ofereceram”. É o caso de um enunciado que não explicita o agente, porque, provavelmente, o propósito do enunciador é não revelar o responsável pelos fatos contados.
Embora a gramática tradicional costume restringir o sujeito indeterminado ao uso da terceira pessoa do plural sem sujeito expresso, Maria Helena Moura Neves demonstra que a indeterminação do sujeito pode ser obtida de algumas outras formas, como no uso de você ou do sintagma a gente em casos como: Você rala a vida toda pra passar fome quando aposenta ou A gente pensa que vai descansar, mas percebe que o dinheiro da aposentadoria não dá pra nada. Modernamente, encontramos também o uso de a pessoa que assumiria o lugar de a gente: A pessoa pensa que vai descansar, mas percebe que o dinheiro da aposentadoria não dá pra nada.
Esses casos mostram como os falantes exploram a língua para seus propósitos comunicativos.
Em outras palavras, num enunciado, nem sempre apontamos, do ponto de vista estritamente linguístico, o responsável pela ação ou pelo processo verbal. Por exemplo, em Furtaram meu celular, não se diz quem furtou, em geral porque não se sabe. Ou quando vamos relatar uma fofoca, mas não queremos comprometer nossa fonte, dizemos algo como Você não sabe o que me disseram! Contudo, nos dois casos, ficam as perguntas: Quem? Quem furtou? Quem disse?
No primeiro caso, talvez só seja possível determinar a identidade desse sujeito por meio de uma investigação policial ou câmeras de segurança, mas não pelo que foi dito, nem por quem disse. Já no segundo, no caso da fofoca, o resto da conversa pode nos ajudar a inferir quem disse o quê.
O arranjo das orações
Logo antes de sua fala, Jojo demonstrou receio em fazer a acusação quando perguntada se já tinha recebido uma proposta para apoiar algum político – “Posso falar ou não falo?”, pergunta à provável assessora (e que não aparece no vídeo). Com isso, entende-se que a informação a ser revelada é, de certa forma, comprometedora, ou, no mínimo, polêmica. Dessa forma, a opção pela omissão do sujeito na oração mencionada, e de sua identidade, é precisa e serviu à intenção de Jojo.
Mesmo com toda essa aparente cautela, Jojo acaba deixando escapar alguns detalhes que revelam a identidade do sujeito. Voltando à declaração que gerou toda essa discussão, podemos dividi-la em três orações: uma principal: “Me ofereceram um milhão e meio”; a primeira subordinada: “para fazer campanha” e a segunda subordinada: “quando o Lula veio candidato a presidente”. Se considerarmos a oração principal de forma isolada, realmente não temos como saber quem fez a proposta milionária. No entanto, a segunda subordinada parece nos dar alguma pista de quem poderia estar envolvido: o candidato Lula ou alguém de sua equipe.
Poderia se dizer que a oração subordinada adverbial “quando o Lula veio candidato a presidente” está ali apenas para a marcação do momento em que ocorreu a oferta a Jojo, tratando-se, assim, a expressão adverbial como um mero acessório. Contudo, se trocarmos o nome do candidato por qualquer outro, vemos que há uma mudança na mensagem:
Me ofereceram um milhão e meio para fazer campanha quando o Jair Bolsonaro veio candidato a presidente.
Me ofereceram um milhão e meio para fazer campanha quando a Simone Tebet veio candidata a presidente.
Me ofereceram um milhão e meio para fazer campanha quando o Ciro Gomes veio candidato a presidente.
A informação sobre a identidade do candidato, sugerida na oração “quando o Lula veio candidato a presidente”, ainda que não apareça como sujeito expresso de “ofereceram”, parece agir implicitamente na construção de sentido do enunciado. É um sujeito facilmente resgatável pelo contexto linguístico, na moldura oferecida pela oração adverbial, que acaba indiretamente revelando o sujeito de “ofereceram”.
Enunciados em rede
É preciso entender, também, que o discurso não é composto por enunciados soltos, muito menos por aquilo que é estritamente linguístico. Trata-se, aqui, de uma rede de enunciados multimodais. Assim, devemos olhar para todo o contexto da entrevista de Jojo para conferir uma compreensão mais completa à declaração da cantora. Não é preciso grande esforço, pois, pouco tempo depois, Jojo confirma, ao responder a uma pergunta do entrevistador, que a campanha era para apoiar o candidato Lula:
Entrevistador: Pra apoiar o Lula na época da… das eleições?
Jojo: É isso aí.
Outro aspecto curioso da declaração é que não somente o PT entendeu que o sujeito de “ofereceram” era ele, mas também os veículos jornalísticos que noticiaram o acontecimento. O próprio vídeo da entrevista publicado pelo Brasil Paralelo no YouTube aparece nomeado como “Jojo Todynho acusa que recebeu proposta milionária para apoiar campanha do PT”. Além disso, a imagem congelada do vídeo (miniatura), também no YouTube, aparece acompanhada do seguinte trecho entre aspas: “Me ofereceram um milhão e meio pra fazer campanha para o Lula”.
Se muitos entenderam que, na entrevista, a influenciadora havia dito que a equipe de Lula teria feito oferta, será plausível assumir que todos nós não sabemos português ou que não compreendemos os tipos de sujeito, como sugerido pela defesa?
Gramática é escolha
A gramática não deve ser vista apenas como um recurso formal rígido, muito menos como uma aplicação de regras descontextualizadas. É bastante limitador acreditar que o sentido se constrói partindo e classificando termos das orações. Devemos olhar para a gramática como escolha, como mecanismos que nos auxiliam na construção de sentidos. A omissão do sujeito, assim como tudo que dizemos, não é fortuita, mas, ao contrário, serve a um propósito e resulta de um planejamento do enunciador. Ao que parece, a enunciadora sabia dos efeitos legais da declaração, assim como tinha noção de que a escolha de nomear determinado candidato mais diretamente ligado à ação verbal de “oferecer um milhão e meio” também mudaria a forma como interpretaríamos a mensagem. A escolha gramatical é a essência da linguagem e ignorá-la, principalmente em sala de aula, no ensino-aprendizagem da língua, empobrece a proficiência linguística dos estudantes. O deslize das informações nos arranjos sintáticos nada mais é do que um dos modos que escolhemos de dizer e de ser. E a mera classificação gramatical pouco explica sobre esse processo.
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