Poderíamos conjecturar que, no mundo acadêmico, as reuniões (também) são tarefas inevitáveis. Em algum momento, torna-se necessário organizar e planejar ações – seja com superiores hierárquicos, seja com colegas de ofício, seja com alunos sob nossa orientação. Levando em conta que o ato de se reunir é uma atividade inescapável, conviria enumerar algumas motivações que a norteiam. Como exercício de reflexão, valeria a pena rever alguns dos pressupostos, métodos e/ou objetivos que, em tese, presidem e justificam essa modalidade de encontro.É mais fácil legalizar certas coisas do que legitimá-las.
(Nicolas Chamfort. Maximes, Pensées, Caracteres et Anecdotes. 1796)
1) Reuniões servem a formalizar decisões. Cá está um dos objetivos esperados dos encontros dessa magnitude. Todavia, não esqueçamos que – em certos contextos e mediante determinadas circunstâncias – pode haver acordos prévios, firmados por uma ou mais pessoas reunidas em outros fóruns (e valendo-se dos numerosos meios de comunicação de que dispõem). Quando isso acontece, temas e ações pertinentes à pauta da reunião oficial costumam ser discutidos de modo oficioso, com alguma antecedência. Colegas envolvidos(as) nessas pré-reuniões informais acabam por transferir as decisões parciais (e de interesse próprio) para o colegiado maior.
2) Reuniões definem cronogramas de atividades. Eis outra meta que mereceria ser rediscutida. Se as datas de que o colegiado dispõe são respaldadas por um calendário pré-fixado (por leis, decretos, portarias, regimentos ou estatutos), isso parece ser um sinal de que os membros de um comitê local, ou de comissões específicas, não disponham de maior liberdade ou autonomia para indicar as datas em que as atividades aconteceriam, ao longo de um período. Por sinal, definir cronograma é um item que poderia ser informado (e, eventualmente, ajustado) por e-mail.
3) É importante que as reuniões visem ao consenso. Na era do hiperindividualismo digital (para dialogarmos com o conceito cunhado por Giles Lipotvesky em Tempos Hipermodernos, publicado em 2004), encontrar soluções intermediárias e que efetivamente levem o outro em conta tem sido um exercício cansativo, oneroso e improdutivo. Objetivos e razões particulares costumam se chocar com metas e projetos de âmbito coletivo, o que parece ser um indício de que, em certos ambientes e mediante determinadas condições de temperatura, volume e pressão, a solidariedade entre os “pares” não esteja mais em voga.
4) Durante as reuniões, deveria prevalecer a transparência. Esse princípio é igualmente discutível, para não dizer ingênuo. Bastaria recordar que as reuniões transcorridas na esfera institucional frequentemente são precedidas pelas já citadas pré-reuniões que preparam acordos entre grupos menores (conforme salientado no primeiro item). Quando uma petição, um parecer, uma resolução são itens da performance com que uns e outros simulam sinceridade e espontaneidade (recordemos o alerta de Jean Baudrillard, em Simulacros e Simulação, de 1981), como assegurar que haja efetiva transparência antes, durante e após o tópico entrar em discussão?
5) Reuniões estimulam maior coesão entre os colegas. Retomando o que diz o terceiro item desta coluna, nem sempre os encontros de caráter institucional estimulam maior conexão e parceria entre seus participantes. Para além das idiossincrasias e projetos hiperindividualizados, não desprezemos a recorrente “sede de nomeada” (expressão presente num ensaio de Alfredo Bosi que integra Machado de Assis – O Enigma do Olhar, editado em 1999).
Talvez parte desses comportamentos se explique devido à natureza do ofício de ensinar e pesquisar (ou a uma concepção mais pragmática do próprio trabalho). Parece legítimo que, perante a falta de maior reconhecimento de nosso papel e relevância, sejamos tentados a priorizar a trajetória indivisa, hiperindividual. Entretanto, quando se legisla apenas em causa própria (ou em função do restrito grupo a que julgamos pertencer), corre-se o grande risco de tomarmos como medida maior a escala pessoal que é, naturalmente, menor.
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