Nesta sua coluna, Eduardo Rocha comenta, a partir de um recente estudo publicado no The New England Journal of Medicine, a respeito do tema da perda da visão em um dos olhos por obstrução da artéria central da retina. Segundo ele, a perda da visão por obstrução da artéria central da retina é uma doença que ocorre por interrupção da circulação sanguínea local por um coágulo e, apesar de fatores de risco conhecidos e da causa ser rapidamente diagnosticável, há um desafio terapêutico que, na maioria dos casos, leva ao fracasso do tratamento e perda grave da visão no olho acometido. A desobstrução da circulação, a remoção do coágulo, precisa ser rápida, segura e eficiente. Passadas décadas de avanço científico em áreas do assunto, na prática não existe um bom tratamento para a obstrução da artéria central da retina. Isso motivou pesquisadores da Noruega a fazer esse estudo, trazendo conceitos usados na prática do tratamento do infarto agudo do miocárdio.
O estudo, publicado em 26 de janeiro passado, fez uma comparação envolvendo 78 pacientes de 16 diferentes centros, metade dos quais recebeu o remédio tenecteplase, enquanto outra parcela recebeu a “boa e velha aspirina, e a comparação foi feita até 30 dias depois do episódio agudo. A hipótese foi de que tenecteplase, como um fator ativador de plasminogênio tecidual, atuaria sobre a fibrina do coágulo, promovendo a sua redução e a recuperação da perfusão sanguínea no nobre e delicado tecido da retina. A fundamentação é que o tenecteplase já é usado para outras obstruções como o infarto do miocárdio. O resultado não foi favorável ao novo remédio, que provocou mais efeitos colaterais do que a aspirina. Hemorragias e um óbito foram relatados nesse grupo”.
“O resultado foi, portanto, desapontador; a perda da visão pela doença obstrutiva da artéria da retina continua desafiadora para a ciência, mas a iniciativa merece reconhecimento. Primeiro, porque é muito trabalhoso lidar com doenças raras, principalmente as graves, na pesquisa; segundo, os efeitos colaterais foram sérios e merecem atenção para não serem repetidos; e terceiro, porque a sensação de fracasso em mostrar um resultado ruim de um remédio mais novo é geralmente suprimida, os chamados resultados negativos são desvalorizados por autores, editores de revista, por não ter o glamour das grandes descobertas científicas. Esses resultados acabam sendo guardados ou relegados a revistas de menor circulação e visibilidade. Nesse caso, foi o oposto, o trabalho todo foi bem conduzido e claramente relatado na mais prestigiosa revista médica do mundo. Os resultados agora divulgados permitem refletir sobre o que possa ter dado errado, corrigir e não repetir esses erros, ensinando e guiando ajustes em novos estudos.” Na conclusão, Rocha argumenta que, apesar de a procura por um novo tratamento para a doença continuar desafiadora, “esses fatos são detalhes que não são pouco importantes para o avanço da ciência e dos tratamentos médicos”.
Fique de olho
Com o Prof. Eduardo Rocha
A coluna Fique de Olho, com o professor Eduardo Rocha, vai ao ar quinzenalmente, quarta-feira às 8h30, na Rádio USP (São Paulo 93,7; Ribeirão Preto 107,9), com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.



























