O que Paulo Saldiva faz é entender a cidade como sendo parte de um imenso organismo vivo, detectando sobretudo os pontos que merecem uma intervenção mais apurada

Nesta sua coluna, a primeira do ano, Paulo Saldiva aborda as relações existentes entre a morfologia, a fisiologia da cidade e o risco de adoecimento. “Metaforicamente, a gente pode dizer que a cidade é um corpo, que é constituído por bairros, que são os órgãos e que são interligados por artérias, que são as grandes vias de comunicação entre esses órgãos. Temos um sistema nervoso que dirige a cidade e temos órgãos mais ou menos vulneráveis. Como médico, eu entendo a cidade como um ser vivo.” Depois dessa introdução, Saldiva observa que a USP apresenta uma situação muito particular, que é o serviço de verificação de óbitos da capital, para onde convergem as pessoas que não têm atestado de óbito e têm que obtê-lo através da autópsia. “É um serviço grande, o maior do mundo, que está chegando próximo de 18 mil autópsias”, diz ele. “Ora, quem vai para autópsia são os menos favorecidos, são aqueles que não conseguiram em vida ter um médico que atestasse o seu óbito, ou então que trabalharam tanto que não tiveram tempo nem de conhecer um profissional de saúde que pudesse determinar do que foi o evento. Através dessas pessoas que vêm ao serviço de verificação de óbitos é que você consegue entender um pouco o corpo urbano através da leitura e da impressão digital deixada pela cidade nos seus corpos, nos seus órgãos, no seu risco de adoecimento. É como se o corpo humano fornecesse indicações sobre o corpo urbano.”
Segundo Saldiva, os estudos a respeito da determinação do atestado de óbito tem a ver também com o entendimento acerca da dinâmica da cidade, “ou seja, como a cidade determina um risco maior ou menor, quer dizer, as condições onde a pessoa vive no seu território determinam o risco maior ou menor de adoecimento. Através da rede de colaboração da USP, entre os seus institutos e com outros institutos, tanto públicos como privados, como instituições de pesquisa, temos na cidade de São Paulo um repertório muito grande de urbanistas, geógrafos da saúde, matemáticos e também médicos […] Residir perto de um parque e com um equipamento da Prefeitura que funcione de esporte, um clube municipal que funcione mais tempo, reduz drasticamente o risco de morrer de infarto do miocárdio antes do tempo”.
Mais adiante, ele prossegue em sua análise: “Embora os indicadores de saúde da cidade venham melhorando nos últimos dez anos, existem regiões que persistentemente mantêm-se como pontos fora da curva e que necessitam intervenção. É como se tivéssemos feito uma tomografia do corpo urbano e tivéssemos então identificado pontos que merecem uma atenção maior”, conclui o colunista, não sem antes prometer voltar ao assunto em suas próximas colunas.
Saúde e Meio Ambiente
Com o Prof. Paulo Saldiva
A coluna Saúde e Meio Ambiente, com o professor Paulo Saldiva, vai ao ar toda segunda-feira às 8h, quinzenalmente, na Rádio USP (São Paulo 93,7 ; Ribeirão Preto 107,9), com produção da Rádio USP, Jornal da USP e TV USP.