Abraham Moles: Chronos e Kairós

Por José Roberto Castilho Piqueira, professor da Escola Politécnica da USP

 28/01/2026 - Publicado há 6 meses     Atualizado: 23/04/2026 às 13:23

Escrevo este texto no último dia de 2025, depois de saber que rajadas de vento ocorridas em Bolder, no Colorado (EUA), perturbaram o funcionamento dos relógios atômicos de alta precisão, responsáveis pelos serviços de distribuição do horário oficial pela internet.

Como grande parte das pessoas, num dia como hoje, faço algumas introspecções sobre os diversos aspectos de minha vida no próximo ano. É o tempo e seus marcadores sociais, acrescidos da ação dos agentes econômicos, influenciando nas rotinas dos cidadãos comuns.

Depois de alguns anos vivenciando experiências de ensino e pesquisa envolvendo as não linearidades da engenharia, acredito que meu pensamento esteja fortemente ligado aos estudos dos sistemas dinâmicos, levando-me à necessidade de entender um pouco sobre como a medida do tempo se relaciona com as variáveis físicas, biológicas ou psicológicas.

É o tempo do deus Chronos, fluindo eternamente e tido, aparentemente, como uma abstração de nossos sentidos, embora muitos esforços sejam dispendidos em sua possível medição objetiva, associando-o aos diversos fenômenos repetitivos observados desde a antiguidade até os relógios atômicos dos dias de hoje.

Minha iniciação nesses estudos data do ano de 1977, durante meu primeiro projeto profissional de laboratório, parte da construção de um equipamento de comunicações digitais, originário de uma iniciativa da Telebrás, antiga estatal responsável pelas telecomunicações no país.

A transmissão e a recepção de sinais eletrônicos digitais requerem sincronismo entre as diversas partes dos sistemas, isto é, os ritmos de variação dos sinais (frequências) e os instantes de transição e leitura (fases) devem ser precisos e controlados, mesmo em presença de ruídos e perturbações.

Relembrando essa época, percebo que estava imerso no tempo de Chronos, mas sob forte ação de Kairós, o deus dos tempos de mudanças qualitativas relacionadas aos rearranjos socioeconômicos-culturais em curso no planeta e as consequentes mudanças no dia a dia das pessoas.

Esse processo da ação de Kairós, imerso no mundo de Chronos, segundo Abraham Antoine Moles (1920-1992) em sua obra seminal A criação científica, publicada pela primeira vez em 1954 como tese de doutoramento, é consequência da renovação do quadro da vida por meio do pensamento científico que parece ser efetivamente o destino da sociedade industrial avançada.

Faço aqui uma pequena digressão contra a crendice popular a respeito da pouca habilidade dos engenheiros em compreender o mundo das letras e da filosofia, usando a profícua biografia de Moles.

Formado em engenharia de eletricidade e acústica, um dos qualificativos a ele atribuído é o de precursor dos estudos teóricos das ciências da informação e comunicação, tendo prefaciado a obra canônica de Warren Weaver (1894 –1978) e Claude Elwood Shannon (1916 — 2001).

Moles aprendeu as técnicas de metalurgia e o manuseio de equipamentos elétricos e eletrônicos, ocupando várias posições tecnológicas nos principais laboratórios franceses. Em 1952 defendeu tese de doutoramento A estrutura física do sinal musical e fonético, indicando sua habilidade de combinar, de maneira elegante e versátil, saberes de áreas consideradas distintas.

Essas qualidades de polímata levam-no ao departamento de música da Universidade de Columbia e, pressionado pela precariedade de recursos disponíveis para sua pesquisa, retornou à França e, em 1954, sob a orientação de Gaston Bachelard (1884 –1962), defendeu uma segunda tese de doutoramento na Sorbonne, em Letras (Filosofia), intitulada A criação científica, base da obra citada em parágrafo anterior.

Nos anos que se sucederam, Moles deu cursos de eletroacústica, sociologia e psicologia social. Em 1966, seu livro Art and Computer (1971) transpôs as teorias de Shannon para a estética, inspirado nas práticas do grupo Oulipo (Ouvroir de Littérature Potentielle), da qual foi o convidado de honra em 1970.

Sempre atuando na conexão entre descobertas e evoluções tecnológicas das comunicações e as humanidades, colaborou na fundação da National Academy of Street Arts (ANAR) em 1975. Parte de seu rico legado é formado pela Société Française de Cybernétique, que presidiu, e o Instituto de Psicologia Social das Comunicações que dirigiu até 1987, chamado de Escola de Estrasburgo, semente da Associação Internacional de Micro Psicologia e Psicologia Social das Comunicações.

Voltando às minhas motivações para 2026, permaneço no culto a Chronos tentando completar alguns resultados sobre controle de fase e frequência de oscilações, minimizando os efeitos deletérios de ruídos, ventos e perturbações nas bases dos sinais de relógio.

Apesar dos perigos de escrever e pesquisar, talvez entender como as bases de tempo devem ser projetadas quando as redes de comunicação passarem a operar com sinais quânticos em larga escala.

Fugindo da numerologia dominante de artigos e citações, dos custos a serem pagos para editoras mercenárias e da suposta generosidade dos grupos tecnológicos hegemônicos, com a ajuda de Kairós, resistiremos.

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