Brasil tem menos de dez ensaios clínicos sobre transtornos alimentares em 40 anos

Por Jônatas Oliveira, doutorando pela Faculdade de Medicina da USP

 27/01/2026 - Publicado há 6 meses
Jônatas Oliveira – Foto: Arquivo pessoal
Historicamente, a pesquisa brasileira em transtornos alimentares (TAs) teve início com a criação do Grupo de Apoio aos Transtornos Alimentares (Grata) da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto, em 1982. Desde então, porém, o número de especialistas qualificados segue insuficiente. Recentemente, a Comissão de Transtornos Alimentares da Academia Brasileira de Psiquiatria trouxe dados a esse respeito.

A escassez de profissionais e pesquisadores se deve, em grande parte, à ausência de conteúdos formais sobre transtornos alimentares nos currículos de graduação e pós-graduação. Essa falha compromete a formação de novas gerações e dificulta o avanço do conhecimento na área. Durante uma revisão sistemática inédita, descobri menos de dez ensaios clínicos no Brasil. Meu estudo reforça a urgência de investimentos públicos, políticas de saúde específicas e inclusão do tema na formação acadêmica.

Registrei duas revisões, uma sobre o panorama nacional e outra com foco em estudos bibliométricos, nas quais conseguimos descrever caracteristicas das pesquisas, onde foram realizadas, quem as conduziu, quem vem citando os trabalhos. Após aprovação no exame de qualificação, em agosto de 2024 tivemos a aprovação da comunicação intitulada Brazil has a problem: Where is the research about eating disorders in Brazil?

Com relação aos ensaios clínicos, verifiquei que a maioria se concentrou no transtorno da compulsão alimentar (TCA), caracterizado por episódios de grande volume de comida, consumido com a sensação de perda de controle, caracterizando um episódio em que a pessoa come muito mais do que outros fariam em circunstâncias similares. O primeiro estudo identificado foi publicado em 2003 por Appolinário e colaboradores, no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O ensaio clínico randomizado duplo-cego testou a sibutramina em indivíduos com compulsão alimentar. Os resultados indicaram redução significativa de episódios compulsivos, perda de peso média de 7,4 kg e melhora de sintomas depressivos.

Em 2007, Claudino e colaboradores realizaram um estudo multicêntrico em quatro universidades, com uso de topiramato combinado com terapia cognitivo-comportamental (TCC). O grupo tratado com topiramato obteve maior redução de peso e mais episódios de remissão da compulsão alimentar em comparação ao grupo controle.

No mesmo ano, Duchesne e equipe publicaram um estudo aberto com aplicação de TCC em grupo, com base em protocolo manualizado, no Grupo de Obesidade e Transtornos Alimentares da UFRJ. O ensaio com 21 participantes demonstrou taxa de remissão de 76%, além de melhora em sintomas depressivos e insatisfação corporal.

O único ensaio clínico brasileiro envolvendo pacientes com anorexia nervosa foi realizado em 2018 por Pegado e colaboradores na USP. O estudo, não randomizado, incluiu adolescentes divididos em dois grupos: um recebeu tratamento multidisciplinar padrão e o outro também participou de sessões de TCC em grupo. Ambos os grupos apresentaram melhora clínica, com maior adesão no grupo com TCC (91% contra 54%).

Em 2021, Palavras e outros autores testaram a eficácia do protocolo HAPIFED, que associa TCC com componentes de manejo de peso. O estudo foi conduzido na Unifesp e envolveu indivíduos com compulsão alimentar, bulimia nervosa e transtornos alimentares não especificados. O grupo HAPIFED apresentou maior taxa de remissão dos episódios de compulsão e redução de comportamentos inadequados para controle de peso.

Em 2022, Hay e colaboradores publicaram um estudo multicêntrico que comparou o HAPIFED com a TCC intensiva (CBT-E), avaliando sintomas clínicos, qualidade de vida e marcadores metabólicos. Embora ambos os grupos tenham melhorado, não houve diferença significativa entre eles nos parâmetros metabólicos. Os autores destacam que intervenções mais intensivas são necessárias para impacto clínico mensurável em pacientes com sobrepeso e transtornos alimentares.

A pergunta que se impõe é objetiva: em quais evidências estamos baseando as condutas clínicas em saúde mental voltadas aos transtornos alimentares no Brasil? Existem interesses político, sociais e científicos que dificultam o aumento das pesquisas ou obtenção de recursos? O objetivo desta investigação é descrever esse cenário, fomentar o debate científico e contribuir para a formulação de políticas públicas.

Dependemos do fortalecimento da pesquisa clínica nacional para a construção de diretrizes adaptadas à realidade brasileira e para a formação de profissionais capacitados a lidar com essas condições psiquiátricas complexas.

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