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No último fim de semana de novembro, Ribeirão Preto recebeu o lançamento de Veredas Urbanas, obra organizada pela professora Clarice Sumi, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP) da USP, em parceria com o ambientalista Perci Guzzo e com ilustrações de Marcelo Kubo. Publicado pelo Sesc São Paulo, o livro faz parte do projeto Florestar, que se dedica à educação ambiental e à valorização das áreas verdes no espaço urbano. A obra pode ser acessada neste link.
Segundo Clarice, o guia nasce de um convite ao reencontro. “O livro propõe justamente esse diálogo entre ciência, memória e cotidiano urbano. A praça reúne tudo isso, se a gente quiser olhar com atenção”, afirma. Para ela, o projeto reúne campos que normalmente caminham separados: “Nós somos da ciência, mas também temos uma preocupação muito grande com a arte, com a cultura, com a poesia como linguagem de memória”.
A obra convida o leitor a revisitar as praças centrais da cidade, pequenas ilhas de resistência dentro de um município marcado pelo calor excessivo, pelo concreto e por uma urbanização que, por décadas, ignorou o poder do verde para refrescar o corpo e apaziguar o espírito.

Tradição, ciência e memória
Desde as primeiras páginas, Veredas Urbanas atua como ponte entre passado e presente. Apresenta um breve contexto histórico da cidade, antes ocupada por inúmeras etnias indígenas, entre elas os Mebêngôkre (Kayapó), que passou de território de matas densas a epicentro da cafeicultura, posteriormente absorvido pela cana-de-açúcar e pela expansão urbana. O resultado dessa trajetória aparece de forma contundente: apenas 3,4% da área central possui cobertura arbórea, quando especialistas recomendam pelo menos 40%.
Perci Guzzo explica que esse dado se concentra justamente onde ainda há verde. “Essa pequena porcentagem está praticamente toda nas seis praças do centro. O restante virou um ambiente quase desértico, com excesso de edificações e impermeabilização do solo”, observa. Para o ambientalista, a vegetação urbana precisa ser encarada como política pública: “Hoje, a arborização deve ser vista como infraestrutura urbana. Assim como água, energia e esgoto, só que uma infraestrutura verde”.
Para Clarice, o livro também nasce de uma revisão crítica da própria educação ambiental. “Durante muito tempo trabalhamos com uma educação ambiental muito centrada no humano, quase sempre prescritiva, dizendo o que pode e o que não pode fazer. Esse projeto não deu conta da crise climática que estamos vivendo”, avalia. Segundo ela, Veredas Urbanas propõe uma inversão de perspectiva: “A ideia é tirar o homem do centro e colocar a árvore como ponto de partida. A partir dela, repensar nossa relação com a cidade e com a vida”.
A obra, no entanto, não se encerra no diagnóstico. Ela propõe reconciliação. Ao percorrer seis praças do Quadrilátero Central, Carlos Gomes, XV de Novembro, Bandeiras, Catedral, Sete de Setembro e Luís de Camões, os autores mostram que ainda é possível redescobrir a natureza que persiste apesar do asfalto.

Um guia para ver o que sempre esteve ali
Cada espécie incluída no livro, 22 ao todo, é apresentada com rigor acadêmico, mas também com leveza. O leitor descobre, por exemplo, que o pau-d’alho exala um forte cheiro de alho quando a chuva se aproxima, espécie de previsão meteorológica viva espalhada pelo centro. Clarice relata que essa curiosidade provoca surpresa imediata: “As pessoas pegam a folha, cheiram, se encantam. Isso desperta curiosidade e cria vínculo”.
Mais do que informar, o guia foi pensado para ser usado com o corpo inteiro. “Não é só observar a árvore de longe. É passar a mão na casca, sentir a textura, cheirar uma folha caída no chão, perceber como ela busca a luz”, explica a professora. Para ela, a proposta é combater o que chama de “cegueira botânica”, comum nas cidades: “As pessoas passam todos os dias pelas praças, mas não veem as árvores. O guia é um convite para desacelerar e reaprender a olhar”.
Outra curiosidade citada pela professora é o jerivá, “palmeira elegante e muito comum na cidade, ostenta frutos adocicados que atraem além dos humanos curiosos, também tucanos, maritacas, sabiás e toda sorte de aves, mesmo que seus nomes populares (coco-de-catarro, baba-de-boi) tentem afastar degustadores menos corajosos”.
O chichá, com seus frutos que se abrem como trevos vermelhos, também traz sua curiosidade, pois “guarda um segredo poético: suas grandes cavidades nos troncos, formadas pela queda natural de galhos, servem de ninho para a arara-azul em regiões como o Pantanal, uma aliança antiga entre árvore e ave”.
Já a farinha-seca apresenta outro tipo de surpresa: sua casca solta um pó fino quando tocada, efeito que diverte crianças e muitos adultos também. E o ipê-branco encanta a todos por apenas três dias. Um florescimento tão breve que desafia o olhar distraído das cidades, pedindo um pouco mais de atenção.
Guzzo destaca ainda cenas quase simbólicas do centro da cidade: “Na Praça XV, temos lado a lado um ipê-amarelo da mata, flor símbolo do Brasil, e um jovem pau-brasil, árvore símbolo do País. Está tudo ali, perto do relógio, e quase ninguém percebe”.

Entre o institucional e o poético
Segundo os autores, no livro a intenção é clara: fortalecer a consciência ambiental e estimular ações práticas de conservação. A obra lembra que as árvores urbanas oferecem sombra, reduzem a temperatura, atraem fauna, ajudam na infiltração da água da chuva e, sobretudo, devolvem à cidade uma dimensão humana. “Uma praça bem arborizada chega a ser até três graus mais fresca. A diferença é sentida no corpo”, afirma Guzzo.
Mas há também uma linha literária que atravessa o texto como vento entre galhos. Quando afirma que “nossas praças são nossas veredas”, a obra convoca o legado de Guimarães Rosa, mas também o desejo de transformar Ribeirão Preto em lugar de encontro, de passagem suave, de travessias cotidianas menos áridas.
A escolha estética reforça esse caminho. Clarice conta que fez questão de que o livro tivesse imagens originais. “Pedimos ao Sesc que as ilustrações fossem feitas especialmente para o guia. A arte ajuda a criar vínculos afetivos. Ela não explica, ela convida”, diz. Para Clarice, as aquarelas de Marcelo Kubo dialogam com o texto e reforçam o caráter lírico da obra, sem abrir mão do rigor científico.
Essa perspectiva se conecta diretamente com o Sesc, responsável pela publicação. Segundo Camila Onofre, assistente social e técnica de programação do Sesc Ribeirão Preto, o projeto Veredas Urbanas nasce com esse olhar ampliado: “O Sesc idealizou o projeto com o propósito de promover uma maior integração entre a população e a natureza presente nos espaços urbanos, evidenciando a importância das áreas verdes para a qualidade de vida e para a mitigação dos efeitos das mudanças climáticas”.

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Ela destaca que a proposta vai além do livro. “O objetivo é estimular uma relação de pertencimento e cuidado com as praças e com as árvores, valorizando esses espaços como locais de convivência, lazer e aprendizado”, afirma. Para Camila, aproximar a população da biodiversidade urbana é estratégia de longo prazo: “Queremos despertar a consciência sobre a importância da arborização para o bem-estar coletivo e para a sustentabilidade”.
No campo prático, o projeto também já deixou raízes. “Por meio de ações educativas, guias informativos e atividades de sensibilização, buscamos ampliar o conhecimento sobre as espécies nativas. Só este ano realizamos cinco mutirões de plantio, em parceria com o movimento ‘Tá Com Calor? Plante Árvores’”, relata Camila.
Lista das árvores apresentadas no guia:
Alecrim-de-campinas
Caroba
Chichá
Farinha-seca
Ipê-amarelo
Ipê-amarelo-cascudo
Ipê-branco
Ipê-roxo-de-sete-folhas
Jacarandá-da-bahia
Jatobá
Jequitibá-branco
Jequitibá-rosa
Jerivá
Pau-brasil
Pau-d’alho
Pau-ferro
Peroba-rosa
Sapucaia
Sibipiruna
Ouça no player abaixo entrevista sobre o tema com a professora Clarice Sumi e o ambientalista Perci Guzzo para a Rádio USP Ribeirão.


























