
Maior velocidade de conexão, menor latência (o famoso delay que atrapalha o trabalho remoto), aumento da quantidade de equipamentos que podem ser conectados ao mesmo tempo. Quem é que não quer? O mesmo encarte publicitário deve ter proposto a troca do aparelho de telefone por um modelo mais recente e compatível com o 5G. É o futuro da internet! Ao recebê-lo é possível que você tenha pensado: “por que não?” ou, pior ainda, que tenha entendido essa como mais uma das muitas ações compulsórias para sustentar a vida digital.
Mas em tempos difíceis, onde o modo de vida compartilhado está levando a humanidade a entrar em uma bela enrascada, a ideia é substituir o automatismo por um sonoro e desconfiado: como assim? Seguido de “por quê”? Para quê? Como vai funcionar? Quando vai funcionar? Quanto vai custar em termos de manutenção das condições de vida no planeta?
No caso do sinal 5G, esse bloco de perguntas é ainda mais pertinente. Prova disso é a salgada multa recebida por várias empresas de telefonia em 2024 justamente por induzirem seus clientes a acreditar que poderiam ter acesso a todas as promessas do sinal 5G puro (também chamado standalone) já naquele período. O que acontece é que, para desempenhar adequadamente, a tecnologia demanda não apenas um aparelho que possa receber as ondas milimétricas mas também antenas próprias a esse sistema, que serão instaladas em todo o País até 2029. (Daqui até lá, é possível que o telefone comprado agora, justamente para usufruir dela, já esteja obsoleto.) Durante essa transição, uma versão “econômica” do serviço foi implementada sobre a própria rede física do 4G, mas as melhorias não são as mesmas.
Como era de se esperar, as metrópoles e a maioria das capitais já apresentam uma certa cobertura, mas há verdadeiros desertos pelo País. Para avaliar o que de fato está sendo fornecido, há mapas disponíveis na internet que indicam a presença de antenas em cada região. No entanto, a informação é parcial porque mostra a localização das antenas registradas mas não garante que elas tenham sido de fato instaladas; também não permite saber se estão ou não em funcionamento e ainda menos se estão danificadas, quebradas ou fora de serviço.
Mas a reflexão começa mesmo a ficar interessante é “da antena para cá”. Será mesmo que esses benefícios serão percebidos pelos usuários? Sim, efetivamente a velocidade de conexão aumenta quando se compara o 4G ao 5G. Isso é um dado. É verdadeiro. Para o mais comum dos mortais, parece uma vantagem real (quando não uma necessidade) dispor de um serviço de internet com menor latência e dez vezes mais rápido. Mas é preciso considerar a escala desse aumento: de 50 a 70 milissegundos para 1 a 5 milissegundos. É bastante? Sim! Mas o piscar dos seus olhos costuma durar algo entre 100 e 150 milissegundos e nem por isso ele atrapalha a visão.
Outro ponto a ser considerado é que para assistir a filmes, séries (e vídeos de gatinho!) no celular, tanto faz se a transmissão se faz em alta definição, ultra-alta definição, 4K ou 8K. A tela é pequena demais para que a diferença seja percebida à luz ambiente e por um olho humano que pisca. E veja, mesmo dispondo do 5G standalone, essas melhorias dependem de uma conexão de qualidade, que permita ao aparelho receber o que as antenas emitem. Por isso, se o único tempo disponível para consumir essas coisas é o do deslocamento no metrô, é pouco provável que valha a pena!
Ainda não está convencido? Há mais! Talvez você tenha notado que, ultimamente, a bateria do seu telefone descarrega mais rápido. Ou, ainda, que o aparelho tem estado mais quente. A aparição da sigla 5G no cantinho da tela do seu celular pode ser a causa dessas mudanças. Seu companheiro de todas as horas tem andado tão estressado quanto você. Segundo especialistas (e mesmo o site da Samsung), para evitar a desconexão nos inúmeros buracos na cobertura do sinal, os aparelhos permanecem conectados nas duas bandas ao mesmo tempo: a do 4G e a do 5G. Isso provoca um aumento no consumo de eletricidade com encurtamento do tempo de vida das baterias e dos telefones em geral que, convenhamos, já não era nada impressionante. Mais uma vez, o telefone comprado agora para usufruir do 5G que só vai estar disponível de fato em 2029, vai para o lixo antes disso.
Toda essa situação contrasta com o discurso supostamente sustentável dos entusiasmados por soluções tecnológicas. Além da demanda por aparelhos novos, que se desgastam mais rápido, se o 5G chega com a promessa e o potencial para reduzir consideravelmente o consumo de energia de cada aparelho conectado, ele também aumenta consideravelmente a capacidade de conectar objetos na rede e, com isso, aumenta o consumo global de energia. Aliás, esse argumento já não convence mais ninguém.
Historicamente, os equipamentos eletrônicos sempre vêm com a promessa de redução do consumo e, no entanto, a demanda por energia elétrica no mundo só cresce. É que ao mesmo tempo em que se reduz o gasto de cada aparelho, a disponibilidade de conexão oportuniza uma ampliação da oferta de equipamentos conectáveis e automáticos. Se no passado o doguinho pressentia a sua chegada antes de você passar a esquina, agora, é a Alexa que ocupa esse lugar. Liga o rádio, o ar-condicionado, o forno com o jantar, manda o aspirador de sujeira se esconder, estica o tapete vermelho e aciona o áudio com aplausos como era com o George Jetson.
Brincadeiras à parte, com mais objetos funcionando na internet (e nem sempre eles são úteis!), mais dados sendo transmitidos, mais data centers etc., e lá se vão as reservas de minério, investidas em aparelhos que serão trocados com maior frequência. E lá se vão toneladas e toneladas de CO2 na atmosfera com a produção, a distribuição e o funcionamento de todas essas coisas. E lá se vão os litros de água limpa que deixam de engordar o lençol freático do planeta.
E o Wi-Fi? A maioria das pessoas que têm demanda ampliada de performance, usa mesmo é a internet em casa, no local de trabalho ou em outro ponto de apoio que, quase sempre, disponibiliza Wi-Fi. E ainda bem! Segundo a Ademe (Agência Francesa para a Transição Ecológica), em seus múltiplos relatórios, esse tipo de conexão consome bem menos energia do que o 4G e o 5G. Isso nos traz de volta à pergunta inicial: será mesmo indispensável dispor de 5G durante os deslocamentos?
Assim sendo, se você estiver entre as pessoas que acreditam que é tempo de começar a exercitar a sobriedade, além de evitar a troca de equipamento, uma sugestão é utilizar o 5G apenas quando for de fato necessário. Para isso, basta configurar o aparelho para não fazer a conexão automática, buscando-a manualmente quando (e se) você precisar. Para fazer esta avaliação, pode ser útil começar controlando se as operadoras têm entregado o que você acha que está recebendo em termos de banda de internet e, se esse não for o caso, acionar o Procon. Problemas nesse sentido são mais comuns do que se imagina.
Quanto ao Wi-Fi, segundo a Arcep, autoridade francesa responsável por supervisionar as telecomunicações, os serviços postais e a distribuição de imprensa, 95% da demanda em energia elétrica da famosa caixinha (que é comparável à de uma geladeira pequena!) não está relacionada ao consumo do usuário, mas às voltas que ela dá enquanto você não está utilizando. Então… nada será perdido se desligar a internet sempre que sair de casa. Pelo contrário: redução do risco de estrago em caso de instabilidade elétrica, aumento no tempo de vida do equipamento etc.
Se depois desses argumentos você ainda achar que aplicar regras de consumo responsável é retornar à era da pedra, restam dois pontos. O primeiro é uma sugestão, um tanto deprimente mas bastante instrutiva: a consulta ao Google Trends, a lista de assuntos mais buscados na web. Além de banais e nada urgentes, são informações comezinhas, disponibilizadas desde a versão impressa do jornal. Ninguém precisaria destruir o planeta por isso.
O outro ponto é apenas uma lembrança: o primeiro ser humano pisou na Lua bem antes da invenção dos smartphones. Sob muitos pontos de vista, o computador que permitiu esse feito era menos potente do que isso que você têm cotidianamente entre as mãos. Reflexões como essas parecem apontar que no tempo dos vídeos estúpidos, dos áudios intermináveis comentando o cardápio do jantar ou aquele episódio irrelevante com uma colega de trabalho, a tecnologia vai se tornando apenas mais um consumível, que para estar disponível, está queimando o planeta.
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