
E talvez os mais promissores desses aspectos são de quatro eixos principais:
1) a busca incessante de canais de “sinodalidade” e dialogia;
2) o incremento da representatividade nos fóruns e órgãos decisivos da Igreja:
2.a) ampliação consistente do número de cardeais e a multiplicidade de representações para fora do continente europeu, revelando mais profundamente as bases nacionais da catolicidade;
2.b) aprimoramento substancial da presença feminina e do laicato na estrutura “governamental” e universal da Igreja, como revelaram as decisões sobre a presença feminina e de fiéis leigos não só nos dicastérios mas também nas assembleias sinodais e em sua preparação.
3) mudanças substanciais no âmbito jurídico-estrutural da cúria romana, da descentralização curial e das disposições canônicas;
4) a comunicação transparente e com ênfase na compaixão pelos vulneráveis, pelos sofrimentos da humanidade, pela destruição e distúrbios engendrados contra a “Mãe Terra” – que foi, em minha opinião, seu mais potente legado e testemunho.
A sua rica formação jesuítica, o seu olhar “latino-americano”, a proximidade com os episcopados da região, a sua larga experiência junto às comunidades periféricas e como educador, tornaram-no um dos mais eloquentes comunicadores do início do século. Assertivo, em suas perguntas e afirmações, ele trouxe para o centro do cenário mundial, as questões climáticas e do desequilíbrio ambiental, da insanidade da guerra, dos sofrimentos dos imigrantes, da concentração de riquezas, da exclusão dos pobres e empobrecidos, da desconsideração com as crianças e idosos, da tônica armamentista, dos problemas nucleares da comunicação, que, não raras vezes amplificam e fomentam o ódio, a desinformação, a mentira e as crueldades, da estigmatização e do preconceito, inclusive as violências de gênero.
Ao mesmo tempo não descurou os temas caros às tradições religiosas, em geral, e à cristã, em particular, como o alicerce da intimidade com Deus, da vida de oração e do testemunho, da centralidade do amor ao próximo e da misericórdia. Impressiona sua capacidade de diálogo com as igrejas orientais, com outros cristãos, com os judeus, muçulmanos, com os indígenas e com aqueles das religiões nativas dos vários continentes, além de abrir espaços de comunicação com agnósticos, ateus, desfiliados e indiferentes. Queria uma igreja em saída, igreja pobre para os pobres. Muitos reconhecem que ele alcançou recuperar os nichos de comunicação que a Igreja vinha perdendo gradativamente e que estavam sendo suplantados por outros líderes religiosos carismáticos de outras confissões religiosas, como o Dalai Lama. Amealhou resistências incisivas, sobretudo de grupos conservadores. O legado deste pontífice é imenso e não caberá numa rápida apreciação.
No dia 8 de maio foi eleito o papa Leão XIV, depois de breve conclave, o que indica a formação rápida de consenso entre o colégio de cardeais, os seus eleitores. Foi escolhido, como sabemos, o cardeal Robert Francis Prevost, de dupla cidadania, americana e peruana, e cuja ascendência remonta a franceses, espanhóis e italianos.
As décadas de atuação no Peru, de onde fora alçado para presidente do Dicastério dos Bispos, indica seu lugar privilegiado de interlocução e fala e forjaram uma perspectiva missionária. O dicastério lhe deu visibilidade no âmbito do episcopado mundial. Encarna, no meu ponto de vista, a “igreja em saída” proposta pelo antecessor. Moderado, como se havia de supor, já há indícios que nos levam a acreditar que seu pontificado será de busca de construção de pontes de diálogo, numa continuidade explícita com o pontificado anterior, mas com traços peculiares. Em seu discurso inaugural, um dos mais longas na história recente dos pontificados, ainda no balcão da Basílica de São Pedro, onde se deu a conhecer pela primeira vez aos fiéis, ele enfatizou alguns pontos, como a urgência da construção da paz, da unidade da Igreja, a perspectiva da sinodalidade, tão cara ao antecessor, e a disposição do serviço, além de imprimir coragem. O fato de ter se expressado em latim, italiano e espanhol demonstra o seu carinho com os latinos, especialmente com o povo de Chiclayo, que nomeadamente saudou, o respeito com a diocese de Roma, da qual tem agora especial múnus de pastoreio e um senso de universalidade e respeito à tradição (pelo acento da língua latina nos contextos litúrgicos).
No dia seguinte, na missa destinada aos cardeais, segue utilizando o italiano e acrescenta trechos em inglês, seu primeiro idioma. Na ocasião, reforça as questões da identidade da Igreja em torno da profissão de fé de Pedro como núcleo da evangelização. Já mais recente, na recitação do Angelus, ainda em italiano, condena veementemente a guerra, na esteira de seu antecessor, nomeando os grandes conflitos. E, por fim, naquele que para mim é seu discurso mais revelador, em inglês e italiano, ao se dirigir aos jornalistas, retoma o tema da “comunicação desarmada” do papa Francisco e insiste na busca de uma linguagem que dissipe as desavenças e que prime pela verdade.
Pede aos comunicadores que evitem as deturpações da informação de todo gênero, que prestam um desserviço à humanidade, mas recupere a linguagem autêntica, honesta que revele a Esperança da humanidade, da qual a fé religiosa, em maneira de escuta e por seus valores intrínsecos, pode ser potente vetor. Trata-se de uma comunicação compassiva e realista, a serviço dos mais pobres e sofredores. Ao escolher o nome de Leão XIV, e fazer referência explícita ao seu antecessor Leão XIII, como ele mesmo afirmou, escolhe retomar e atualizar a perspectiva da encíclica Rerum Novarum (“Das coisas novas”), ensejada no contexto da primeira revolução industrial como resposta da Igreja à questão social, conforme formulada pelos intelectuais dos séculos 18 e 19, sustentada na inquietação do paradoxo da pauperização da população em benefício do incremento da produção de riquezas, na tensão entre capital e trabalho.
A encíclica concerne aos avanços e desafios éticos e sociais da industrialização para os regimes políticos e econômicos, mas, que notadamente sobreleva a dignidade humana da classe operária. Inaugura a sistematização da doutrina social da Igreja, muito frutuosa nos séculos 20 e 21, com inúmeras encíclicas dos pontífices posteriores. Leão XIV alude, agora, à revolução tecnológica, ao incremento da cibernética e da inteligência artificial, com suas potencialidades, entraves e desafios éticos, sociais e econômicos.
Penso que já se delineiam aqui as grandes preocupações do novo pontificado: a busca da unidade interna da Igreja, pelo caminho comum e convergente (sin – odós) consubstanciada na perspectiva de fidelidade ao evangelho, de encontro íntimo e pessoal com Cristo, na busca de uma comunicação substancial, que evite as deturpações maliciosas, os conflitos e máscaras ideológicas, em favor da verdade e da esperança, na promoção da dignidade humana, notadamente dos mais pobres e vulneráveis. As várias e repetidas alusões iniciais a frases do papa Francisco demonstra não só respeito, mas um programa de continuidade. Assumido por alguém com personalidade discreta, moderada e com sua formação humana vasta, como na matemática e na filosofia, mas também como doutor e perito no direito canônico.
________________(As opiniões expressas nos artigos publicados no Jornal da USP são de inteira responsabilidade de seus autores e não refletem opiniões do veículo nem posições institucionais da Universidade de São Paulo. Acesse aqui nossos parâmetros editoriais para artigos de opinião.)

























