Captatio benevolentiae é uma expressão bem conhecida entre os pesquisadores de retórica e poética. Literalmente, pode ser traduzida como captação da benevolência: trata-se de situar fórmulas desse feitio na abertura de um discurso, com o propósito de cativar a boa vontade; reter a atenção do ouvinte ou leitor.
De modo geral, identifica-se esse procedimento com relativa facilidade. Por sinal, o senso comum traduz certas passagens do texto (ou da fala) como exemplos de falsa modéstia. A questão é que, tão facilmente como reconhecemos esse expediente, podemos supor que se trate de artimanha – de algo postiço, resultante do artificialismo – o que, portanto, rivalizaria com a suposta espontaneidade de quem fala e escreve.
Pressupor que um discurso seja manifestação sincera do falante ou atestado da honestidade autoral implica supor que o texto possa ser neutro e composto naturalmente. O enunciado retrataria o que seu enunciador sentia ou pensava, provido de legítimas intenções. Isso talvez explique por que parte dos críticos e historiadores da literatura decretem que um texto preambular (Prólogo, Carta ao Leitor, Advertência etc.), redigido pelo ficcionista, revelaria o juízo que o próprio autor teria sobre sua obra.
Ora, atribuir crédito à alegada autocrítica feita por um autor pode induzir a interpretações equivocadas, especialmente quando se esquece quanto há de figuração de pequenez e simulação de humildade, especialmente nesses paratextos. Um dos casos mais emblemáticos nas letras luso-brasileiras é o Prólogo com que Bento Teixeira apresenta a Prosopopeia (1601) – “dedicada a Jorge d’Albuquerque Coelho, capitão e governador da capitania de Pernambuco, das partes do Brasil e da Nova Lusitânia”:
Se é verdade o que diz Horácio, que Poetas e Pintores estão no mesmo predicamento; e estes para pintarem perfeitamente uma imagem, primeiro na lisa távoa fazem rascunho, para depois irem pintando os membros dela extensamente, até realçarem as tintas, e ela ficar na fineza de sua sua perfeição; assim eu, querendo dibuxar com obstardo pinzel de meu engenho a viva imagem da vida e feitos memoráveis de vossa mercê, quis primeiro fazer este rascunho, para depois, sendo-me concedido por vossa mercê, ir muito particularmente pintando os membros desta imagem, se não me faltar a tinta do favor de vossa mercê, a quem peço humildemente, receba minhas rimas, por serem as primícias com que tento servi-lo.
Diante dessa passagem, redigida em caráter de exortação à leitura benevolente do poema (“primícias com que tento servi-lo”), eis a pergunta imediata que alguém faria: Por que um poeta de “obstardo pinzel” (limitado talento) ofereceria uma obra de qualidade questionável (“rascunho”) ao capitão e governador da capitania de Pernambuco? Resposta: Porque o poeta não ajuizava os seus versos dessa maneira. Provavelmente, Bento Teixeira afetava modéstia porque: (1) seguia o exemplo de poetas precedentes, tidos como autoridade; simultaneamente, (2) reiterava humildade (“se não me faltar a tinta do favor da vossa mercê”), também como forma de obter o apoio da maior autoridade local.
O caso Bento Teixeira relembra a necessidade de situar a escrita e a recepção dos textos no tempo e no lugar em que eles foram concebidos e os círculos por onde transitaram. Quem sabe, dessa maneira, Prosopopeia deixe de servir como mero marco temporal do chamado “Barroco” e passe a ser efetivamente lido, ou seja, decodificado, analisado e interpretado para além da pecha (anacrônica e pejorativa) de que se tratasse de imitação servil e de má qualidade d’Os Lusíadas, de Luís de Camões, publicado em 1572.
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