
A resposta às vezes começa com observação e curiosidade. Muitas vezes, profissionais de saúde começam a notar que vários pacientes com a mesma doença compartilham um fator em comum — como, por exemplo, notam mais microcefalia em bebês cujas mães tiveram infecção por zika vírus. Em outros casos, um novo produto ou comportamento começa a ser amplamente adotado, e surgem relatos de possíveis efeitos adversos, como ocorreu com o amianto e asbestose. É nesse momento que entram os estudos epidemiológicos, a principal ferramenta para identificar e compreender os riscos à saúde em humanos.
A epidemiologia é a ciência que estuda como e por que as questões de saúde ocorrem na população. Para avaliar se algo realmente faz mal (ou bem) à saúde, os cientistas não podem confiar apenas em casos isolados. Eles precisam analisar grandes grupos de pessoas, comparando quem foi exposto a determinado fator (como o consumo de tabaco, ou um medicamento) com quem não foi. Também, podem tentar entender o que ocorreu de diferente entre quem teve ou não teve uma doença, por exemplo.
Nesse sentido, é importante entender que os estudos laboratoriais — que investigam os efeitos de substâncias em células ou animais — sozinhos não são suficientes para estabelecer conclusões definitivas sobre o impacto na saúde humana. Embora esses estudos forneçam uma compreensão inicial dos mecanismos biológicos envolvidos e dos primeiros sinais de alerta, eles não conseguem refletir a complexidade do organismo humano e as variáveis presentes no mundo real. Por isso, os cientistas dependem dos estudos epidemiológicos, que observam diretamente os efeitos de comportamentos ou substâncias em populações humanas, a partir dos estudos laboratoriais, para confirmar ou refutar essas hipóteses. Para ilustrar a importância: as agências responsáveis por permitir a venda de medicamentos nos diferentes países (como a Anvisa no Brasil), só podem fazer isso após a avaliação da evidência epidemiológica, de estudos em humanos.
Alguns tipos de estudos epidemiológicos são mais confiáveis do que outros, e os cientistas precisam fazer uma avaliação. Por exemplo, para consolidar e fortalecer as evidências científicas sobre os riscos à saúde, organizações como a Agência Internacional para Pesquisa sobre o Câncer da OMS (do inglês: Iarc) desempenham um papel fundamental. A Iarc publica as Monografias, que são avaliações abrangentes sobre os riscos de câncer associados a substâncias e comportamentos, reunindo dados de estudos epidemiológicos, laboratoriais e experimentais de diversas partes do mundo. Cada vez que fazem uma monografia, chamam cientistas do mundo todo, especialistas no tema, para revisarem e discutirem os resultados das pesquisas criteriosamente. Essas monografias são fundamentais para estabelecer uma visão global e consolidada sobre os riscos à saúde, permitindo que cientistas e formuladores de políticas públicas tomem decisões informadas. Quando diversas fontes de dados convergem para a mesma conclusão, a confiança nas evidências cresce consideravelmente.
Então, é isso… “descobrir” se algo realmente faz mal à saúde não é uma tarefa simples, nem rápida. É como montar um quebra-cabeça complexo, com milhares de peças a serem analisadas e combinadas. Por isso, é essencial buscar fontes científicas confiáveis e ser cauteloso com manchetes sensacionalistas que muitas vezes carecem de uma base sólida de evidências.
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