
A cerimônia de posse da nova diretoria da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) foi realizada nesta quarta-feira, 26 de março. Assumem a gestão da unidade Adrián Pablo Fanjul, como diretor, e Silvana de Souza Nascimento, como vice-diretora, para um mandato de quatro anos, sucedendo Paulo Martins e Ana Paula Torres Megiani.
Em seu discurso, Fanjul destacou a intenção de realizar uma administração participativa, com políticas construídas em conjunto com a comunidade acadêmica: “Como direção, pretendemos afinar os canais de diálogo com o movimento estudantil, com docentes e com funcionárias e funcionários”, afirmou.
O novo diretor também ressaltou a importância e o impacto da unidade no meio universitário e na sociedade brasileira: “Assumimos uma responsabilidade imensa, mensurável pela relevância do que acontece neste espaço institucional. Nossa faculdade tem sido um centro de formulação de políticas públicas em diversas áreas para o País. Políticas que resultam em planejamentos aplicados na cultura, educação e, ainda que mais tangencialmente, em outras como direito e saúde pública. Somos um celeiro de lideranças tanto no poder público quanto nos movimentos sociais. Essas dimensões mais visíveis do impacto da FFLCH só são possíveis porque, em suas atividades-fim, a faculdade também se destaca, não apenas em volume, mas em excelência. Atualmente, 82% dos programas de pós-graduação têm avaliação entre 5 e 7. Nossos cursos foram pioneiros na inclusão social e racial, apresentando uma alta taxa de preenchimento de vagas e uma evasão abaixo da média. O curso de Letras é o maior de graduação da USP e oferece habilitações de uma diversidade única no País. Na internacionalização, recebemos 15% dos intercambistas que vêm para a USP”.
Após uma análise do cenário global e seus desafios, Fanjul comentou: “Em um contexto tão adverso e sombrio, é muito bom estar na USP. Embora não esteja isenta das contradições da sociedade, a Universidade possui mecanismos que a preservam. E é especialmente gratificante estar nesta faculdade, que sempre interrogou e questionou as supostas inevitabilidades da ordem vigente, promovendo pesquisa criativa e engajada. Nos orgulha a capacidade histórica da FFLCH de se posicionar e exercer um papel propositivo”.

A vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, que dirigiu a FFLCH entre 2016 e 2020, saudou os novos diretores, reforçando a relevância da unidade na história da Universidade e do Brasil: “Esta faculdade tem um significado absolutamente decisivo não só na história da USP, mas na vida intelectual do País. Neste momento, em que os novos diretores tomam posse, é fundamental ressaltar a importância da FFLCH e da USP, que hoje se situam entre as mais importantes do mundo. Considerando os altos índices de desigualdade social no Brasil, a existência de uma Universidade pública e gratuita desse porte não é apenas motivo de orgulho, mas de reverência àqueles que contribuíram para esse projeto. A presença da FFLCH tem um papel essencial na posição de destaque da USP nos rankings internacionais. Precisamos reconhecer esse valor, mas também a responsabilidade de preservar esse patrimônio, que é não apenas científico e intelectual, mas público. Vivemos um momento de incertezas, e nosso papel nas ciências humanas, sociais e da linguagem é fundamental para pensar criticamente o País”.
Dirigindo-se aos novos diretores, Maria Arminda finalizou: “A responsabilidade que vocês têm é enorme, porque há um verdadeiro nevoeiro à frente, e gerir essa instituição não é fácil. Mas é um horizonte aberto de possibilidades e vale muito a pena”.

Convidada a se pronunciar para o público presente, a nova vice-diretora enfatizou a intenção dessa gestão de valorizar cada vez mais a diversidade, a inclusão e a pluralidade. Silvana de Souza Nascimento ressaltou que o Brasil e o mundo estão vivenciando problemas muito sérios em diversas frentes, com abalos que passam pelo aquecimento global, guerras, preconceitos, racismo e desigualdade social e de gênero, e que o gerenciamento de uma faculdade como a FFLCH deve necessariamente ter esses elementos em conta em suas propostas, projetos e planejamento. “Cargos de gestão universitária são funções que incluem inúmeras atividades institucionais burocráticas e administrativas, mas não só. Incluem, também, o dever de colaborar na transformação do mundo para que continuemos vivos, para que a vida se perpetue e para que parem de nos matar. É fundamental que possamos colaborar na elaboração de políticas universitárias em diferentes frentes para toda a comunidade e fortalecer a área das ciências humanas”, asseverou.
O evento ocorreu no Auditório Nicolau Sevcenko da FFLCH e teve a presença de diversas autoridades acadêmicas, pró-reitores e diretores, além de professores, alunos e funcionários da unidade.
Confira a seguir a íntegra da cerimônia de posse:
Quem são
Adrián Pablo Fanjul é professor do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP desde 2000. Com graduação em Letras pelo Instituto Nacional Superior del Profesorado (INSP), da Argentina, possui mestrado em Ciências da Linguagem pela mesma instituição, doutorado em Linguística e Língua Portuguesa pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pós-doutorado pela Universidad de Buenos Aires. Livre-docente desde 2017, Fanjul desenvolve pesquisas sobre análise materialista do discurso, referenciação linguística e relações entre linguagem e política na esfera pública. Suas investigações abordam discursos da cultura de massa na América do Sul e a emergência de vozes de familiares de vítimas da violência de Estado. Além de coordenar projetos em parceria com universidades latino-americanas, já atuou como chefe de departamento, coordenador de pós-graduação e representante da Congregação no Conselho Universitário.
Silvana de Souza Nascimento é professora do Departamento de Antropologia da FFLCH. Formada em Ciências Sociais pela USP e em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), possui mestrado, doutorado e livre-docência em Antropologia Social pela USP, além de pós-doutorado na Universidade Autônoma de Barcelona. Seus estudos se concentram na Antropologia Urbana e nos Marcadores Sociais da Diferença, com ênfase em gênero, corporalidade e espaços urbanos. Como pesquisadora, coordena projetos que analisam a construção social das identidades em diferentes contextos urbanos.

Unidade formadora da USP
Maior unidade da USP, a Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) tem, entre seus egressos, personalidades de destaque no cenário político e cultural do Brasil. A instituição é originária da antiga Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL), criada em 1934 como um dos núcleos fundadores da USP. Inspirada no modelo das universidades europeias, a FFCL reuniu professores estrangeiros e brasileiros em diversas áreas do conhecimento, consolidando-se como um centro de excelência em ciências humanas no Brasil.
Em 1968, com a reforma universitária, a faculdade foi desmembrada, dando origem a unidades autônomas, entre elas a FFLCH, que abarcou cursos de Filosofia, História, Geografia, Ciências Sociais e Letras. No mesmo ano, ocorreu a transferência da faculdade da sua antiga sede da Rua Maria Antônia para a Cidade Universitária, após o episódio conhecido como “A Batalha da Maria Antônia”. O conflito, entre estudantes da FFCL e do Mackenzie, ocorreu em meio à crescente tensão política no País durante a ditadura militar e envolveu conflitos físicos e troca de tiros, resultando na morte do estudante José Guimarães.
























